
![]()
Documentos de S.S. Pio XI - Encíclicas, Moto Próprios, Notas, Alocuções, Documentos dos Dicastérios, etc..., Texto latino com tradução francesa, Tomo IV, (anos 1927-1928), Maison de la Bonne Presse, Paris, 1932, (páginas 63-82).
CARTA
ENCÍCLICA
MORTALIUM
ANIMUS
Aos
Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e Outros Ordinários Locais, em paz e
comunhão com a Sé Apostólica
Sobre
os meios de realizar a verdadeira unidade da religião
PIO
XI, PAPA
VENERÁVEIS
IRMÃOS, SAUDAÇÃO E BENÇÃO APOSTÓLICA
Talvez
as almas nunca tenham sentido uma tal necessidade desta fraternidade que,
devido à comunidade de origem e à identidade de natureza, nos une tão
estreitamente uns aos outros; nunca tanto como em nossos dias se viu nelas o
esforço de afirmá-la, para a colocar ao serviço do bem público e da
sociedade.
De
fato, as nações não gozam ainda plenamente os frutos da paz; fermentos
antigos ou novos de discórdia causam aqui e lá revoluções ou lutas internas;
entretanto, os numerosos litígios que põem em jogo a paz e a prosperidade
dos povos não encontrarão solução senão pela união e a ação concordante
daqueles que, no governo dos Estados, estejam encarregados de dirigir a política
e favorecer o progresso.
Eis
porque - ninguém pensando mais em contestar a unidade do gênero humano -
compreende-se facilmente que, levado por este sentimento de fraternidade
universal, a maioria do gênero humano suspira pela união cada vez mais íntima
de todos os povos.
É
algo semelhante que alguns se esforçam para introduzir na ordem estabelecida
por Nosso Senhor Jesus Cristo para a Nova Lei. Sabendo perfeitamente que é
extremamente raro encontrar homens absolutamente desprovidos de senso
religioso, eles nutrem a esperança de que se poderia facilmente conduzir os
povos, apesar de suas dissidências religiosas, a se unirem na profissão de
certas doutrinas admitidas como um fundamento comum de vida espiritual.
Em
conseqüência, eles têm congressos, reuniões, conferências freqüentadas por
um número bem considerável de auditores; convidam para as discussões
todos os homens indistintamente, os infiéis de toda categoria, os fiéis, e até
aqueles que têm a infelicidade de serem separados de Cristo, ou que negam
asperamente e obstinadamente a divindade de sua natureza e de sua missão.
Esforços
semelhantes não têm qualquer direito à aprovação dos católicos, pois
se baseiam nessa opinião errada de que todas as religiões são mais ou menos
boas e louváveis, neste sentido de que elas revelam e traduzem todas
igualmente - embora de uma maneira diferente - o sentimento natural
e inato que nos leva a Deus e nos inclina com respeito diante de seu poder.
Além
de se perderem em pleno erro, os participantes dessa opinião repelem com o
mesmo golpe a religião verdadeira; eles falsificam sua noção e se dirigem
pouco a pouco para o naturalismo e o ateísmo. É perfeitamente evidente que
se trata de abandonar inteiramente a religião divinamente revelada e se
unir aos partidários e propagandistas de tais doutrinas.
Uma
falsa aparência do bem pode mais facilmente, quando se trata de favorecer a
união de todos os cristãos, arrastar algumas almas. Não é justo - tem-se
o hábito de dizer - não é mesmo um dever para todos aqueles que invoquem
o nome de Cristo de evitar as acusações recíprocas e de se unir enfim,
periodicamente, pelos laços de uma mútua caridade? Ousaria alguém afirmar
que ama Cristo, se não procura com todas suas forcas realizar o voto de Cristo,
ele mesmo pedindo a seu Pai que seus discípulos fossem um (João XVII,21)?
E
Cristo não desejou ainda que seus discípulos fossem marcados e assim distintos
do resto dos homens pelo sinal do amor mútuo: "É assim que todos
reconhecerão que sois meus discípulos se amais uns aos outros (João, XIII,
35)". Agrade a Deus - acrescentemos - que todos os cristãos
sejam "um"; pois, deste modo, eles rejeitariam com uma eficácia muito
maior este veneno da impiedade que, se insinuando e difundindo cada dia mais,
prepara a ruína do Evangelho.
Tais
são, entre outras do mesmo gênero, as razões que fazem valer os pancristãos,
como são chamados. Não é, além do mais, que tais homens sejam poucos e
raros; ao contrário, eles formaram organizações completas e fundaram por
todos os lugares associações que dirigem quase sempre acatólicos, malgrado
suas divergências pessoais em matéria de verdades de fé.
O
empreendimento prossegue além disso tão ativamente que adquiriu o favor de múltiplos
meios, captando mesmo a benevolência de numerosos católicos, atraídos pela
esperança de realizar uma união conforme, parece, aos votos de nossa Mãe a
santa Igreja, a qual, em todos os tempos, nada desejou tanto como chamar e
reconduzir a si os filhos extraviados. Porém, pela sedução do pensamento e
pela carícia de palavras se introduz um erro incontestavelmente dos mais
graves e capazes de arruinar de alto a baixo os fundamentos da fé católica.
A
consciência de nossa responsabilidade apostólica nos impede permitir que
erros perniciosos venham se espalhar pelo rebanho do Senhor. Assim também,
Veneráveis Irmãos, apelamos ao vosso zelo para evitar um tamanho mal. Com
efeito, estamos persuadidos de que, por vossos escritos e por vossa palavra,
cada um poderá facilmente fazer com que seus fiéis entendam e compreendam os
princípios e as razões que vamos expor; os católicos daí aproveitarão uma
regra de pensamento e de conduta para as obras visando reunir novamente, do
modo que for, em um só corpo, todos aqueles que tomam para si o nome de cristãos.
Deus,
Autor de todas as coisas, nos criou para O conhecer e O servir; princípio de
nossa existência, ele tem um direito absoluto de nos ve-Lo servir. Deus teria
podido impor ao homem, como regra, apenas a lei natural que havia gravado no
coração ao criá-lo, e em seguida regular os desenvolvimentos por sua
Providência ordinária; entretanto, ele julgou preferível de acrescentar
preceitos a serem observados, e, ao longo das idades, isto é desde a origem
do mundo até a vinda da pregação de Jesus Cristo, ele mesmo instruiu os
homens sobre os deveres que se impunham a todos os seres racionais em relação
ao seu Criador: "Após ter, por muitas vezes e em diversos assuntos,
falado outrora a nossos pais pelos Profetas, Deus, nos tempos mais recentes,
nos falou pelo Filho." (Heb. I, 1 seq.)
Disso
resulta que não existe verdadeira religião fora daquela que repousa
sobre a Revelação divina; esta Revelação, iniciada na origem do mundo,
prosseguida sob a Lei antiga, o próprio Jesus Cristo a rematou na Lei nova.
Mas, desde que Deus falou - o que atesta a história -, é evidente
que o homem tem a obrigação absoluta de crer em Deus quando ele fala e de
lhe obedecer integralmente quando ele comanda. A fim de que justamente nós
trabalhássemos, ao mesmo tempo, pela glória de Deus e pela nossa própria
salvação, o Filho único de Deus constituiu sobre a terra sua Igreja. Ora,
aqueles que se dizem cristãos não podem deixar de acreditar, pensamos Nós,
que uma Igreja única foi fundada por Cristo; mas se Nós lhe perguntamos em
seguida qual ela deva ser, segundo a vontade de seu Fundador, esta Igreja, eles
não se entendem mais. Muitos dentre eles, por exemplo, negam que a Igreja de
Cristo deva ser uma sociedade visível, apresentando-se sob a forma de um corpo
único de fiéis, e fazendo todos profissão de uma só e mesma doutrina
sob um magistério e um governo únicos; ao contrário, a Igreja visível não
é outra coisa, no sentido deles, senão uma federação de diferentes
comunidades
cristãs, apegadas a doutrinas diferentes, algumas vezes mesmo contraditórias.
Nosso
Senhor Jesus Cristo, entretanto, instituiu sua Igreja como uma sociedade
perfeita, tendo por sua própria natureza caracteres exteriores e perceptíveis
aos nossos sentidos, tendo por meta procurar no futuro a salvação do gênero
humano, sob a direção de um único chefe (Mat. XVI, 18seq; Luc. XXII,
32; João XXI, 15-17), pelo ensinamento e pela pregação (Marc. XVI,
15), pela administração dos sacramentos, fontes da graça celeste (João III,
5; VI,48-49; XX, 22 seq.; cf. Mat. XVIII, 18; etc.); é por isso que ele a
comparou a um reino (Mat. XIII), a uma casa (Cf. Mat. XVI, 18), a um
aprisco (João X, 16), a um rebanho (João, XXI, 15-17). Após a
morte de seu Fundador e dos primeiros Apóstolos encarregados de a propagar,
esta Igreja tão admiravelmente constituída não podia seguramente nem perecer
nem desaparecer, pois ela havia recebido o mandato de conduzir, sem distinção
do tempo e do lugar, todos os homens à salvação eterna: "Ide pois e
ensinai em todas as nações" (Mat. XXIII, 19). No cumprimento perpétuo
desta missão, poderia a Igreja desanimar ou malograr, enquanto o próprio
Cristo lhe concede sua assistência contínua, em virtude desta promessa
solene: "Eis que estou convosco até a consumação dos séculos"? (Mat. XXVIII,
20).
Portanto
é necessário que não somente a Igreja de Cristo exista hoje e em todos os
tempos, mas ainda que ela permaneça idêntica àquela dos tempos apostólicos,
senão seria preciso dizer - o que é inadmissível - ou que Nosso
Senhor Jesus Cristo não pode realizar seu desígnio, ou que Ele se enganou ao
afirmar que as portas do inferno não prevaleceriam jamais contra ela. (Mat. XVI,
18)
Eis
o momento de expor e de refutar um erro que está na base de toda esta questão
e de onde procedem a atividade e os múltiplos esforços dos acatólicos
para confederar, como Nós dissemos, as igrejas cristãs. Os autores deste
projeto tomaram de fato o hábito de citar a cada passo esta palavra devida a
Cristo: "Que todos sejam um... Não haverá senão um só redil e um só
pastor" (João XVII, 21; X, 16), como se, segundo a opinião deles, a
oração e a promessa de Jesus Cristo estivessem permanecido até agora como
letra morta. Eles sustentam, com efeito, que a unidade de fé e de governo - que
é o caráter da única e verdadeira Igreja - até agora quase jamais
existiu e que ela não existe mais hoje: que se pode, dizendo a verdade, a
desejar e a realizar algumas vezes por um comum acordo das vontades, mas que
todavia é preciso considerá-la como uma espécie de utopia. Eles
acrescentam que a Igreja em si, por sua natureza, está dividida, ou seja,
constituída de numerosas igrejas ou comunidades particulares, ainda
divididas, tendo alguns pontos comuns de doutrina, mas diferindo umas das outras
para todo o resto; cada Igreja, segundo eles, goza os mesmos direitos, e seria
demasiado se, da época apostólica aos primeiros Concílios ecumênicos, a
Igreja fosse una e única. É preciso então, concluem eles, esquecer e desviar
as controvérsias, mesmo as mais antigas, e as divergências de
doutrina, que ainda continuam a dividí-los hoje, e, com as outras verdades
doutrinárias, propor e estabelecer uma certa regra de fé comum; nesta
profissão de fé, muito mais do que eles acreditariam, eles se sentirão
verdadeiros irmãos; depois, as diversas igrejas ou comunidades, uma
vez unidas numa sorte de federação universal, se tornará possível
lutar energicamente e vitoriosamente contra os progressos da
impiedade.
Eis
aí, Veneráveis Irmãos, o que todos repetem. Nisso, entretanto, declaram e
concedem que o protestantismo rejeitou algo inconsideradamente certos dogmas ou
certas práticas do culto exterior, todavia consolantes e úteis, enquanto a
Igreja romana as guarda ainda. A bem dizer, eles se apressam de acrescentar
que esta Igreja mesma se desviou e que ela corrompeu a religião primitiva,
acrescentando um certo número de doutrinas menos estrangeiras que contrárias
ao Evangelho e as impondo à fé dos fiéis; eles citam, entre elas, em
primeiro lugar, a primazia de jurisdição atribuída a Pedro e aos seus
sucessores na sé romana. Neste número, alguns, verdadeiramente pouco
numerosos, consentem em conceder ao Pontífice romano seja uma primazia de
honra, seja um certo poder de jurisdição ou de autoridade; todavia, esta
primazia não seria de direito divino, mas resultaria em uma certa maneira de
consentimento dos fiéis; outros vão mesmo até desejar que seus congressos,
que se pode qualificar de adornados, sejam presididos pelo Soberano Pontífice
em pessoa. Entretanto, se se encontra bom número desses acatólicos pregando
de boca aberta uma comunhão fraterna em Jesus Cristo, nenhum dentre eles sonha
submeter-se ao Vigário de Jesus Cristo quando ele ensina, ou a lhe obedecer
quando ele comanda. Todavia, eles afirmam que tratarão de boa vontade com a
Igreja romana, mas sobre um mesmo solo, de igual a igual; na realidade, se eles
o fizessem, sem dúvida alguma não concluiriam o pacto eventual que com o
pensamento de não se obrigar a renunciar às opiniões que precisamente os
mantêm, ainda hoje, em seus erros e em seus procedimentos habituais, fora do único
redil de Cristo.
Nessas
condições, é evidente que a Sé Apostólica não pode, sob pretexto
algum, participar dos congressos deles; e os católicos não têm, a preço
algum, o direito de os favorecer por seu sufrágio ou sua ação; fazendo isto,
eles atribuiriam autoridade a uma religião falsa, inteiramente estranha à única
Igreja de Cristo. Podemos Nós tolerar - o que seria o cúmulo da iniqüidade
- que a verdade, sobretudo a verdade revelada, seja assim posta em discussão?
Especificamente, com efeito, trata-se de defender a verdade revelada. Visto que
é para todas as nações, para as instruir na fé evangélica, Jesus Cristo
enviou seus Apóstolos; e por receio do menor erro da parte deles, ele quis que
o Espírito Santo lhes ensinasse antes toda a verdade (João XIV,13), seria
admissível que, na Igreja tendo o próprio Deus como chefe e guardião, esta
doutrina dos Apóstolos haja completamente desaparecido ou sofrido alguma
modificação profunda? Além disso, se o Evangelho conforme a declaração
explícita de Nosso Redentor, se refere não somente aos tempos apostólicos,
mas também a todas as épocas, como admitir que o objeto da fé se tenha
tornado, com o tempo, de tal modo obscuro, de tal modo incerto que as opiniões
mesmo contraditórias possam ser hoje toleradas?
Se
fosse assim, precisaria então sustentar e que a descida do Espírito Santo
sobre os Apóstolos, e que a presença perpétua deste mesmo Espírito na Igreja
e que a pregação do próprio Jesus Cristo perderam, desde muitos séculos,
toda sua eficácia, toda sua beneficência - afirmação evidentemente blasfematória.
Porém há mais: o Filho único de Deus, de uma parte, tem dirigido seus
enviados para ensinar todas as nações e, de outra parte, imposto a todos
os homens a obrigação de crer nas "testemunhas preordenadas por
Deus" (Atos X, 41). Este comando, ele o sancionou por esta palavra:
"Aquele que crê e será batizado será salvo; mas aquele que não crê será
condenado" (Marc. XVI, 16). Ora, este duplo preceito de Cristo - o
de ensinar e o de crer, em vista da possessão da salvação eterna - não
pode se observar e mesmo se compreender se a Igreja não expõe
integralmente e publicamente a doutrina evangélica e se, nesta
exposição, ela não estiver abrigada de todo perigo de erro. Também são
eles ainda extraviados aqueles que crêem na existência, em qualquer parte
da terra, do depósito da verdade, mas que é preciso em sua pesquisa uma tal
soma de trabalho, de estudos e de discussões tão longas que para a
descobrir e nela penetrar, a vida do homem aí sofreria a pena. Daí esta
conclusão que Deus infinitamente bom se fez entender pelos Profetas e seu
Filho único para tornar sua revelação assimilável só por um pequeno número
de homens de uma idade bem avançada, e de modo algum para dar uma doutrina de fé
e um código de moral capazes de dirigir os homens durante todo o curso de sua
vida mortal.
Estes
pancristãos, por outro lado, que procuram federar as igrejas, parecem
perseguir o muito nobre desígnio de desenvolver a caridade entre todos os
cristãos; mas como imaginar que este crescimento da caridade se faça às
custas da fé? ninguém ignora certamente que o próprio São João, o Apóstolo
da Caridade, aquele que, em seu Evangelho, descobre, de algum modo, os
segredos do Sagrado Coração de Jesus, aquele que não cessava de lembrar aos
seus fiéis o preceito novo "Amai-vos uns aos outros", proibia de um
modo absoluto toda relação com aqueles que não professavam a doutrina de
Cristo inteira e pura: "Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não
o recebais em vossa casa e nem sequer o saudeis" (II João 10). Assim
pois, já que a caridade tem por fundamento uma fé sincera e íntegra, a
unidade da fé deve ser, em seqüência, o laço primordial unindo os discípulos
de Cristo.
Como,
então, conceber a possibilidade de um pacto cristão, cujos aderentes,
mesmo nas questões de fé, teriam o direito de conservar suas maneiras
de ver e de pensar, mesmo que elas estivessem em contradição com as opiniões
dos outros? Por que fórmula, Nós vos perguntamos, homens de opiniões
contraditórias poderiam se reunir numa mesma e única federação cristã? E,
por exemplo, alguns afirmam que a Tradição sagrada é a fonte autêntica da
Revelação, enquanto outros o negam. Alguns pensam que a hierarquia
eclesiástica é, pela vontade divina, formada por bispos, padres e ministros,
outros afirmam que ela foi introduzida pouco a pouco segundo as circunstâncias
das épocas. Alguns adoram a Santíssima Eucaristia, graças a esta maravilhosa
transformação do pão e do vinho que se chama a transsubstanciação,
Cristo realmente presente; outros, porém, declaram que o corpo de Cristo não
se encontra presente senão pela fé ou por algum indício e pela virtude do Sacramento.
Aqueles reconhecem à Eucaristia ao mesmo tempo a natureza de sacrifício tão
bem como de sacramento, estes não; vêem aí senão uma lembrança ou uma
comemoração da última Ceia. Alguns julgam que é bom e útil crer que os
Santos, e em particular a Virgem Mãe, reinam com Cristo e é preciso os
invocar, rezar para eles e rodear suas imagens de nossa veneração, outros
pretendem que este culto é ilegítimo, porque contrário à honra devida a
Jesus Cristo, "único medianeiro entre Deus e os homens".(Cf. I Tim.
II, 5)
Em
presença destas profundas divergências de opinião, Nós não percebemos
mais a unidade da Igreja, quando esta unidade não pode resultar senão de uma
única regra de fé e de uma mesma crença de todos os cristãos. Pelo contrário,
sabemos muito bem que se tende por aí à negligência da religião, ou seja
ao "indiferentismo" e àquilo que se denomina modernismo. Os infelizes
que infectam estes erros sustentam que a verdade dogmática não é absoluta,
mas relativa, ou seja, que ela deve se adaptar às exigências variáveis dos
tempos e dos lugares, e às diversas necessidades das almas, pois ela não está
contida em uma revelação imutável, mas deve, por sua natureza, se acomodar
à vida dos homens.
No
que se refere aos dogmas de fé, existe ainda uma distinção absolutamente
ilícita: aquela que se julgou bom introduzir entre os artigos chamados
"fundamentais e não fundamentais" da fé, alguns devendo ser
admitidos por todos e outros podendo ser deixados ao livre assentimento dos fiéis.
Ora, a virtude sobrenatural da fé tem por objeto formal a autoridade de Deus revelante,
autoridade que não sofre qualquer distinção desse gênero. Eis porque todos
os verdadeiros discípulos de Cristo crêem, por exemplo, no mistério da
Augusta Trindade com a mesma fé que no dogma da Imaculada Conceição,
naquele da Encarnação de Nosso Senhor e naquele do magistério infalível
do Romano Pontífice, no sentido, bem entendido, como o definiu o Concílio
ecumênico do Vaticano. E, por terem sido solenemente decretadas e sancionadas
pela Igreja em épocas diversas e mesmo bem recentes, essas verdades não são
nem menos certas, nem menos dignas de fé não tivesse sido Deus que revelou
todas?
O
magistério da Igreja, estabelecido nesta terra de acordo com o desígnio de
Deus para guardar perpetuamente intacto o depósito das verdades reveladas e
assegurar o conhecimento delas aos homens, é exercido cada dia pelo Romano
Pontífice e pelos bispos em comunhão com ele; mas ele supõe ainda, todas as
vezes que for necessário para se opor mais eficazmente aos erros e aos ataques
dos heréticos, ou desenvolver com mais claridade ou com detalhes certos
pontos da doutrina sagrada, a fim de os fazer penetrar mais no espírito dos
fiéis, a missão de proceder por decretos às definições oportunas e solenes.
Este costume do magistério extraordinário não introduz qualquer invenção
nem acrescenta nada de novo à soma das verdades contidas, ao menos
implicitamente, na Revelação que Deus confiou em depósito à Igreja; mas ou
bem ele proclama o que até lá podia parecer obscuro a alguns espíritos, ou
bem ele cria a obrigação da fé sobre um ponto que, anteriormente, podia ser
para alguns o objeto de alguma discussão.
Assim
se compreende porque, Veneráveis Irmãos, esta Sé Apostólica jamais permitiu
aos seus fiéis assistir aos Congressos dos acatólicos; a união dos cristãos
não pode ser procurada de outro modo que não seja favorecer o retorno dos
dissidentes à única e verdadeira Igreja de Cristo, que eles tiveram outrora
a infelicidade de a abandonar. O retorno, Nós dizemos, à única e verdadeira
Igreja de Cristo, como tal e bem visível a todos os olhares, destinada
enfim, pela vontade de seu Autor, a permanecer tal com Ele mesmo a instituiu
para a salvação comum dos homens. Pois, jamais ao longo dos séculos, a Esposa
mística de Cristo foi profanada; ela não o será jamais segundo testemunha São
Cipriano: "A Esposa de Cristo não pode ser desonrada; ela é incorruptível
e pura. Ela não conhece senão uma morada e, por sua casta reserva, conserva
intacta a santidade de um único lar". (De cath. Ecclesiae unitate, 6) O
santo mártir se espantava ainda vivamente, em seu bom direito, que se pudesse
imaginar "que esta unidade, fruto da estabilidade divina,
consolidada pelos sacramentos celestes, fosse exposta a se partir sob o choque
de vontades discordantes" (Ibid.). O corpo místico de Cristo, isto é a
Igreja, é único (I Cor. XII, 12), homogêneo e perfeitamente articulado
(Ephes. IV, 15), à maneira de um corpo físico; é portanto ilógico e ridículo
pretender que o corpo místico possa ser formado por membros espalhados, isolados
uns dos outros; em seqüência, qualquer um que não esteja unido, não pode ser
um de seus membros, nem soldado à sua cabeça, que é o Cristo. (Cf. Ephes.
V, 30; I, 22)
Nesta
única Igreja de Cristo, ninguém se encontra e ninguém habita sem reconhecer e
aceitar, com obediência, a autoridade e o poder de Pedro e de seus legítimos
sucessores. Não obedeceram eles ao Bispo de Roma, Pastor soberano das almas, os
ancestrais daqueles que hoje professam os erros de Fócio e dos inovadores? Os
filhos têm, hélas! desertado da casa paterna sem que por isto a casa se
arrase, pois ela tinha o apoio da assistência divina. Que eles voltem
assim ao Pai comum; esquecendo os insultos proferidos anteriormente contra a
Sé Apostólica, ele os acolherá com toda a ternura. Se, como eles o
repetem, não têm outro desejo senão o de se unir a nós e aos nossos porque não
se empenham de vir a esta Igreja "mãe e educadora de todos os fiéis de
Cristo" (Conc. Lateran. IV, c.5)? Que eles escutem a voz de Lactancio
escrevendo: "Sozinha... a Igreja católica conserva o culto verdadeiro.
Ela é a fonte da verdade; a morada da fé, o templo de Deus; quem aí não
entra ou quem sai disto perde toda sua esperança da vida e da salvação. Que
ninguém se deixe levar pelas contestações obstinadas. É uma questão de vida
e de salvação; se não se vela aí de modo atencioso e prudente, é a perdição
e a morte." (Divin. Instit. IV, 30, 11-12)
Em
definitivo, é à Sé Apostólica fundada nesta cidade, consagrada pelo sangue
dos Príncipes dos Apóstolos, Pedro e Paulo, é à esta Sé, Nós dizemos,
"fundamento e gerador da Igreja católica" (S. Cypr., Ep. 48 ad
Cornelium, 3), que devem retornar os filhos separados. Que eles aí
retornem, não com o pensamento e nem mesmo com a esperança que "a Igreja
de Deus viva, coluna e sustentáculo da verdade" (I Tim. III, 15)
sacrificará a integridade da fé e sofrerá os seus erros, mas, bem ao
contrário, com a intenção de se submeter ao seu magistério e ao seu governo.
Praza a Deus que este feliz acontecimento, que tantos de Nossos predecessores
não puderam ver, Nós dele sejamos favorecidos, e que estes filhos, dos quais
lamentamos o afastamento em conseqüência a conflitos funestos, Nós
podemos os acolher com um coração paterno; que Deus Nosso Salvador, "cuja
vontade é que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da
verdade" (I Tim. II, 4) se digne Nos ouvir quando Nós o
suplicamos com todas as nossas forcas de bem querer reconduzir à unidade da
Igreja todas as almas errantes. Nesta questão não se pode ser mais grave no
apelo que Nós fazemos e Nós queremos que se recorra à intercessão da
Bemaventurada Virgem Maria, Mãe da divina graça, triunfadora de todas as
heresias, auxiliadora dos cristãos, para que ela Nos obtenha de ver brilhar
logo neste dia tão desejado em que todos os homens ouvirão a voz de seu divino
Filho "permanecendo fiéis à unidade do Espírito nos laços da
paz". (Ephes. IV, 3)
Veneráveis
Irmãos, vós sabeis agora como este voto nos é caro; Nós desejamos também
que todos os nossos filhos o saibam: não somente Nossos filhos católicos, mas
ainda todos aqueles que vivem separados de Nós; para estes últimos, se eles
imploram em uma humilde oração as luzes celestes, sem nenhuma dúvida eles
hão de reconhecer a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo e hão de vir
por fim se unir a nós nos laços de uma caridade perfeita. Confiando nesta
esperança, e como penhor dos favores divinos, assim como testemunho de Nossa
benevolência paternal, Nós vos concedemos de todo coração a vós,
Veneráveis Irmãos, ao vosso clero e aos vossos fiéis, a Bênção Apostólica.
Dada
em Roma, ao pé de São Pedro, na festa da Epifania de Nosso Senhor Jesus
Cristo, 6 de Janeiro de 1928, o sexto ano de Nosso Pontificado.
PIO XI, PAPA
|
Para colaborar com nosso site, click aqui |