Não encontrei outra palavra no momento para definir meu sentimento,
após ler algumas matérias de seu jornal. Não sei que
formação os senhores (Talvez seja assim que gostem de ser
tratados, a julgar pelo visual que seus jovem membros cultuam e as idéias
que defendem) tiveram para defender tais ideais. Será que nunca
olharam ao redor do condomínio ou apartamento em que foram criados?
Como podem, demonstrar tanta falta de visão para com o sofrimento
de milhões de pessoas condenadas à miséria pelo sistema
econômico e a tão cultuada livre propriedade que vocês
defendem. Como podem se dizer cristãos? Se dizer em sintonia com
Cristo, Maria, que viveram na mais profunda pobreza e perseguidos pelo
poderosos da épocas, que podem ser comparados aos poderosos que
vocês defendem hoje em dia?
Confesso que senti, durante alguns segundos, uma
grande alegria ao ver no mural de minha universidade, um jornal que a principio
parecia defender o evangelho sob as orientações da igreja
católica. Mas tal não foi meu espanto ao me defrontar com
apologias ao capitalismo,às desigualdades sociais, e, nas entrelinhas,
à ditadura!!
Sou Católico Apostólico Romano e gostaria
realmente de saber quais são suas opiniões sobre:
- Pobreza
- Humildade
- Partilha de bens (Por favor leiam os primeiros capítulos de
Atos dos Apóstolos sobre como viviam as primeiras comunidades cristãs)
Há muito ainda o que dizer, não gosto deste monólogo.
Se realmente lhes interessa a discussão, enviem-me um e-mail.
N.D. - UnB - Brasília
* Resposta
Caro N.,
Quero, antes de mais nada, agradecer pelo seu e-mail. Não
tanto pelas palavras "mansas" que proferiu, mas por buscar manter um diálogo
que, espero, seja proveitoso.
A Frente Universitária Lepanto foi constituída
exatamente para essas discussões, para levar aos demais universitários
algumas informações que eles não têm acesso.
Normalmente, o universitário tende a acreditar no que
conta a imprensa ou os seus professores. O que nós buscamos é
mostrar a outra face da realidade.
Quando você afirma - gratuitamente - que nós nunca
"olhamos para além do condomínio ou apartamento", além
de chamar atenção para sua agressividade e pelo fato de que
você não nos conhece, quero dizer que, no meu caso pessoal
como no de muitos outros, nós já visitamos todas as periferias
de Brasília. Alguns dos redatores, inclusive, são moradores
de "cidades-satélites".
Como eu também não o conheço, não
posso afirmar se você já visitou ou morou em algumas das periferias
de Brasília, mas sei que seu conhecimento sobre esses lugares é
muito superficial.
Não posso concordar com suas afirmações
sobre a miséria. Pelo seu e-mail, ficou parecendo que a miséria
é fruto da livre propriedade. Ora, a realidade dos fatos é
oposta. A miséria é tanto maior quanto mais se perseguiu
a livre-propriedade. Basta ver a miséria da Rússia, de Cuba
e de todos os demais países onde a propriedade privada foi banida.
Apesar de ter dito que leu o nosso boletim, fiquei com a impressão
de que sua leitura foi muito rápida. Pois, como é possível
ter encontrado a defesa da ditadura quando o artigo de capa é claramente
contrário à maior ditadura da América? Como pode ter
encontrado apologias ao capitalismo quando o boletim é, nitidamente,
anti-modernista. É claro, como ensina a Igreja, o capitalismo é
mau apenas nos seus excessos, enquanto o socialismo é intrinsecamente
ruim.
Sobre as desigualdades sociais, a posição da Igreja
também é clara. Deus criou os homens de forma desigual: uns
têm mais capacidade e maior inteligência, outros têm
mais força, outros tem mais astúcia, outros têm mais
saúde, etc. Desses desigualdades naturais, derivam as desigualdades
sociais. É claro, essas desigualdades devem ser proporcionais e
harmônicas. Entretanto, "o abuso não tolhe o uso". Mesmo que
existam exageros, não se fica contra a ordem natural da criação.
Sobre a pobreza, ela é inteiramente lícita. Nada
há de mal no estado de pobreza, desde que não seja conseqüência
da preguiça. O maior amigo de Nosso Senhor era um homem rico, de
nome Lázaro, que foi ressuscitado. Em nenhum momento Nosso Senhor
combateu os ricos, mas o apego ao dinheiro, como no caso do moço
rico do evangelho. Aliás, a pessoa pode ter pouco dinheiro e muito
apego...
Santa Maria Madalena, a pecadora arrependida, pôde se dar
o luxo de quebrar um frasco de perfume caríssimo aos pés
de Nosso Senhor. Um dos discípulos, de nome Judas, o traidor, indignou-se!
Queria vender e dar aos pobres, pois o desperdício era contrário
à pobreza. Nosso Senhor, severamente, o repreendeu!
A Humildade consiste, exatamente, em reconhecer a desigualdade
da criação. O orgulhoso sente inveja do superior. O humilde
sente admiração! Em toda a sua vida, Nosso Senhor ensinou-nos
a amar a desigualdade e a hierarquia. Aliás, já imaginou
o que é um Deus se fazer menino e ser submisso a uma mulher e a
um homem? Nossa Senhora, como Rainha do Céu e da Terra, era obediente
a S. José! A defesa da humildade é a defesa da desigualdade.
Não há humildade possível onde todos são iguais,
pois ela pressupõe a admiração de qualidades maiores
do que a minha.
Sobre a partilha de bens, quero lembrar que até hoje é
recomendada pela Igreja para pessoas religiosas e não imposta contra
a sociedade. Mesmo no começo da Igreja, não havia qualquer
obrigação de se partilhar, mas sim o convite a isso.
Esperando ter respondido às suas colocações
de forma mais "mansa" do que foram postas para nós, despeço-me.
Atenciosamente
Frente Universitária Lepanto
http://www.apis.com.br/lepanto
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