Tréplica recebida em 7/3/99
Prezado Frederico,
Li com toda atenção a resposta de seu e-mail sobre minhas
perguntas referentes à questão da idolatria.
Gostaria de agradecer pela prontidão e solicitude
dispensadas.
Após ter enviado meu e-mail e obtido sua resposta, fiquei imaginando
se
seria lícito participar deste tipo de controvérsia.
Achei que este tipo de discussão talvez pudesse acirrar os ânimos
e
esfriar o amor cristão que devemos nutrir mutuamente.
Relutei um pouco até que finalmente decidi enviar-lhe esta tréplica,
digamos assim.
Todavia, não gostaria que minha presente correspondência
de alguma
forma soasse como algum tipo de provocação ou ofensa.
Quero expressar meu profundo respeito por você, e desde já,
me considero
seu amigo e irmão em Cristo e aceitar seu convite para nos conhecermos
pessoalmente.
Perdoe-me se, de algum modo, fui deselegante com você.
A Apologética e algo indispensável para o Cristianismo,
e nosso diálogo
pode se tornar algo extremamente enriquecedor.
Prezado Frederico,
Gostaria de começar com a palavra veneração.
Antes de lhe enviar um e-mail, li um artigo em seu site, cujo
título,
se não me falha a memória, era: Respondida a Acusação
dos Protestantes,
ou algo assim. Tanto nesse artigo como em seu e-mail, fica bem claro
que
os católicos não adoram imagens, mas as veneram.
Como nos ensina a filosofia, antes de qualquer discussão profunda
é
imprescindível que se definam os termos.
Por isso decidi consultar alguns dicionários da língua
portuguesa, os
que eu tinha à mão, e fiz a seguinte descoberta:
O Moderno Dicionário da Língua Portuguesa Ed. Melhoramento,
traz a seguinte definição:
Venerar: 1. Tratar com profundo respeito; Render culto
Adorar: Reverenciar Venerar, Idolatrar, Prestar Culto
Veneração: 1. Ato ou efeito de venerar. 1 Culto que se
presta às pessoas, às divindades ou as coisas sagradas
Dicionário Escolar da Língua Portuguesa:
Adorar: Render culto a; venerar...
O Dicionário Escolar das Dificuldades da Língua Portuguesa
trás as seguintes definições
Adoração: Acatamento, Veneração,
culto, latria, honra, genuflexão.
Adorar: Idolatrar, cultuar, Venerar...
Veneração: Culto, latria.... adoração
E, para não me prolongar muito, 0 Novo Dicionário
Dinâmico da Língua Portuguesa:
Adoração: Culto a Deus, Veneração...
Adorado: Venerado
Então, Frederico, segundo os dicionários, venerar é
o mesmo que adorar, prestar culto, etc...
Imagine se alguma autoridade, interrogando um incendiário,
lhe perguntasse:
_ Você incendiou tal casa? E o mesmo respondesse:
- Não, senhor doutor, eu só a queimei.
Qual é a diferença entre incendiar, queimar e pôr
fogo?
O mesmo se dá com estas palavras: Quando você diz que
venera as imagens dos santos, ou os santos
propriamente dito, na verdade está fazendo uma confissão
de que os
adora. Adorar, prestar culto, venerar é a mesma coisa.
Agora, com respeito as palavras dulia, hiperdulia e latria.
Em seu e-mail você disse:
“Existem três tipos básicos de cultos possíveis:
dulia, hiperdulia e latria.
A latria é o culto que se deve somente a Deus e consiste em
reconhecer nele
a divindade. Ou seja, reconhecer que ele é o Senhor de todas
as coisas e criador de todos nós, etc.
O culto de dulia ou hiperdulia é a veneração
ou a hiperveneração, que
consiste em reconhecer em outra pessoa virtudes exemplares e impetratórias
(intercessão). O culto de hiperdulia se deve somente à
Mãe de Deus, é claro.
Por acaso você sabe
o que é, então, a idolatria?”
Sua definição de “douleia” é exata: prestar
culto.
Gostaria também de explorar esta palavra.
O Léxico do Novo Testamento Grego/ Português
traz as seguintes definições para o substantivo
“douleia” e seus verbos derivados:
“douleia”: Escravidão, sujeição : Rm 8;15,
21, Gl 4:24 ; 5,1; Hb 2:15
“douleuo” :
Ser escravo, estar sujeito a: Jo 8;33; At 7:7; Gl 4.25, Rm 7,6.
Com o
caso dativo significa Servir a alguém como escravo, servo: Mt
6,24; Lc
15,29; 16:13; Rm 14, 18; Gl 5,13; Ef 6:7.
“Douleia” também significa prestar serviço ou culto,
alias a palavra
para culto em outras línguas, como o ingles, por exemplo, é
serviço:
“Service”.
Em João 8:33 lemos:
“Responderam-lhe Somos descendência de Abraão, e nunca
servimos
(dedouleukamen) a ninguém...”
Você disse, Frederico, que latria é o culto que
se deve somente a Deus.
Isto é verdade.
Mas não só “latria” deve ser prestada somente a Deus.
“Douleia” também.
Em Romanos lemos:
“Mas agora estamos livres da lei, pois morremos para aquilo em que
estávamos retidos; para que sirvamos (douleuein) em novidade
de
espirito, e não na velhice da letra”.
Ainda em Romanos:
Por que quem nisto serve (douleuwon) a Cristo agradável é
a Deus e
aceito aos homens.
Em São Mateus 6:24 Jesus nos faz a seguinte advertência:
“Ninguém pode servir (douleuein) a dois senhores; porque
ou há odiar a
um e amar a outro, ou se dedicará a um e desprezará o
outro.”
Em Êxodo 20:4, temos o seguinte mandamento de Deus:
“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança
do que há
em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem das águas
de baixo da terra.
Não as adorará, nem lhes dará culto.”
No hebraico a palavra é Tybdm (Tayabedem).
A Septuaginta traduz esta palavra como (douleia),
servir ou prestar culto.
Então, como você vê, quando se trata se servir
no sentido de prestar
culto, as Escrituras nos ensinam que devemos fazê-lo somente
a Deus.
Não consegui encontrar uma passagem sequer em nas Sagradas Escrituras
em
que nos é ensinado prestar culto (nem latria, nem douleia)
quer aos
santos quer aos anjos quer a Maria, mãe do Senhor)
“Douleia”, quando
se trata de prestar culto, também é sinônimo de
latria e só é devida a Deus.
Novamente vejo o mesmo tipo de “jogo semântico” e o mesmo
“malabarismo teológico”.
Em meu e-mail, pedi que você me mandasse alguns versículos
sobre a interseção dos santos.
Então você disse:
“Sobre os santos, também existem diversas passagens em que Deus
só
atende por meio da intercessão deles, como, por exemplo, no
caso de Jó, em que
Deus expressamente mandou que um dos que pediam a Ele pedisse através
de seu
servo Jó. Ou mesmo do discípulo de Santo Elias, que só
fazia milagres
quando pedia através do Deus de Elias.”
Prezado Frederico, acho que não me expressei bem.
O que eu queria é que você me enviasse algum texto dizendo
sobre aquele
tipo de intercessão que os santos fazem depois que morrem, lá
no céu.
Acho que você sabe do que eu estou dizendo.
Você usou um versículo, tratando de Maria, em que numa
festa, reclama
junto ao Senhor Jesus da falta de vinho. Depois mencionou Jó
e Elias.
Veja que, em todos os casos, os santos estavam bem vivos e na terra.
Acho que você ainda continua me devendo.
Por ventura existem algumas passagens em que nos é ensinado
rogar
alguma coisa aos santos em seu estado glorificado ou triunfante?
A Bíblia ensina que só há um único
mediador entre Deus e os homens:
Jesus Cristo homem.
Fiquei muito triste com esse desabafo amargo que você fez sobre
os protestantes:
“O problema dos protestantes, Gilson, não é conhecer
as respostas que
estou dando (que são simples e básicas), mas é
em reconhecer o orgulho que
existe em quem rompe com a Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo.”
O Sofisma, quem faz são os protestantes, que se fecham para
a Igreja, para
Nossa Senhora e para a Eucaristia. Querem dizer que seguem a "Biblia"
e
se esquecem que a Bíblia foi feita pela mesma Igreja que combatem.
Uma
Igreja que já existia há 1.500 anos quando apareceu o
primeiro protestante. Uma
Igreja que recebeu a promessa de que as "portas do inferno nunca
prevaleceriam contra ela". E olhe bem, se não "prevaleceriam"
é porque
pareceriam prevalecer em algumas épocas históricas!”
Também achei algumas improrpiedades nesse desabafo.
Em primeiro lugar Frederico, os protestantes nunca rompemos com a Igreja
fundada pelo nosso Senhor Jesus Cristo.
Se você verificar os documentos mais importantes do Protestantismo,
como
por exemplo: As teses de Lutero. A confissão de fé de
Augsburgo
(Luterana). A confissão de Fé de Westminster (Presbiteriana),
O Livro de
Oração comum da Igreja da Inglaterra (Anglicana) e outros
escritos que
resumem a fé professada pelos protestantes, você verá
sempre que nunca
nos desviamos dos ensinamentos católicos.
Eis uma coisa que une todos os cristãos credais: Os ensinamentos
católicos. O Credo Apostólico é sempre recitado
em nossas igrejas
protestantes, bem como pelos ortodoxos.
Nosso orgulho não é ter rompido com quem quer que seja,
antes, porém, é
ter guardado a fé que uma vez foi dada aos santos.
Nesse sentido somos provas vivas de que as portas do inferno
não
prevalecerão sobre ela (a Igreja).
No período neo-testamentário, os cristãos eram
conhecidos como “A seita
do caminho”, “A seita dos Nazarenos” e, finalmente, em Antioquia, como
cristão.
O termo católico, do grego “Cat´ Hole”, segundo a maioria,
foi forjado
bem mais tarde como uma tentativa de os cristão combaterem os
ensinamentos heréticos de grupos tais como os arianos,
gnósticos,
docetistas, adocionistas, pneumatômacos etc...
Havia várias igrejas espalhadas pela cristandade, então
os bispos
resolveram se reunir para elaborar um documento que resumisse os
ensinamentos católicos. Assim, vários credos cristãos
foram elaborados a
fim de combater a apostasia.
Então Frederico, a igreja de Roma jamais pode ter sido
a igreja fundada por Nosso Senhor.
Bem antes de Roma outras igrejas haviam sido fundadas. Foi em
Jerusalém
a primeira assembléia (ecclesia), organizada, não em
Roma.
A igreja de Roma era uma igreja local, por isto é uma redundância
chamar de universal algo que é local.
A Igreja de Roma pode fazer parte da igreja católica (que
é universal e
invisível, formada por todo aquele que, pela fé, recebe
Jesus como
único e suficiente salvador) como qualquer outra.
Sobre abrir os olhos, Frederico, seria bom lembrar de outras igrejas
locais que receberam reprimendas severas do próprio Senhor Jesus,
como
nos mostra o livro de Apocalispe:
À igreja de Éfeso, por exemplo, o Senhor recomenda:
“Lembra-te, pois donde caíste e arrepende-te, e pratica as primeiras
obras, quando não, brevemente a ti virei e tirarei do seu lugar
o teu
castiçal, se não se arrependerdes.” Ap 2;5.
À igreja de Pérgamo ele disse:
Mas umas poucas coisas tenho contra ti: por que tens lá
os que seguem a
doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a lançar
tropeços diante
dos filhos de Israel para que cometessem sacrifícios de idolatria...”Ap.
2:14
À igreja de Tiatira:
“Mas tenho contra ti que tolerar Jezabel, mulher que se diz profetiza,
e
que ensinar e a enganar os meus servos para que prostituam e comam
dos
sacrifícios da idolatria.” Ap.2:20
Prezado Frederico, tenho por mim que a igreja de Roma não
pode ser
confundida com a Igreja fundada pelo Senhor Jesus, Católica
e Invisível,
o corpo de nosso Senhor.
Fico imaginando o que o Senhor estaria recomendando à igreja
de Roma hoje em dia!
Para finalizar, Frederico, já que o segredo é abrir
os olhos, eis a
recomendação que o Senhor fez à igreja de Laodicéia:
“Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente: Oxalá
fosses frio ou quente!
Assim porque és morno, e não és frio nem quente,
vomitar-te-ei da minha
boca. Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta;
e não
sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre,
e cego e nu;
Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te
enriqueças; e vestidos brancos, para que te vistas, e não
apareça a
vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio,
para que
vejas. Ap. 3: 15-18.
Como você pode ver, o protestantismo (apelido dado por vocês
romanos)
tem sido um baluarte na defesa dos ensinamentos católicos.
Dele não
tiramos nem acrescentamos absolutamente nada.
Várias pessoas deram sua vida por esta causa a até
foram perseguidos,
trucidados e queimados vivos.
O que os protestantes combatiam , e combatem, é a apostasia,
o
monopólio do sagrado, as decisões caprichosas, as indulgência,
a
intolerância, a superstição, os ensinamentos
estranhos, que foram
agregados ao Cristianismo ao longo dos tempos e a recrudescência
da
sede inquisitorial.
É esta a contribuição que o Protestantisomo
oferece para manter sempre
viva a chama do Espírito, fazendo com que as portas do inferno
não
prevaleçam sobre a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Do seu em Cristo,
G. M. S.
P.S. Gostaria muito de saber onde Lutero e Calvino ensinaram o
panteísmo.
Respondido em 8/3/99 (Ler
a Resposta)
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