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O "Pequeno
Rei"
Divino Menino
Jesus de Praga
Plinio Maria Solimeo
A imagem do Menino Jesus de Praga, a
mais famosa do Divino Infante, tornou-se objeto de veneração universal,
com réplicas disseminadas em todo o orbe, inclusive no Brasil
O Menino Jesus em seu altar no Santuário
de Nossa Senhora da Vitória, em Praga |
Embora muitos tenham
ouvido falar do Menino Jesus de Praga, poucos conhecem dados concretos a
respeito dessa devoção à divina infância do Salvador do mundo1.
Transcorrendo neste mês a comemoração do nascimento do Divino Redentor
— a data máxima da Cristandade — julgamos oportuno apresentar a
nossos leitores o admirável histórico dessa devoção ao Deus-menino.
Desde tempos
imemoriais, os justos do Antigo Testamento ansiavam pela vinda do
Prometido das Nações, que viria endireitar os caminhos tortuosos,
aplainar os montes, encher os vales. Numa palavra, abrir o Céu para a
humanidade pecadora. O Profeta por excelência desses futuros
acontecimentos, Isaías, sete séculos antes da vinda do Divino Redentor,
anunciou que Ele nasceria de uma Virgem.
Nos primeiros séculos
da era cristã, muitos foram os santos que abordaram o tema do Deus Menino
e seu nascimento, especialmente o Papa São Leão Magno2.
Coube à Idade Média
a glória de corporificar e expandir essa devoção. Vários santos foram
então chamados pela graça divina a manifestar especial enlevo pela
divina infância de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual se chega por meio
de Nossa Senhora. São Francisco de Assis, ao meditar enternecido a
respeito do grande Deus que se tornou frágil Menino numa manjedoura,
montou o primeiro presépio para representar esse divino mistério. Santo
Antônio de Pádua (ou de Lisboa), seguindo o exemplo de seu mestre e
fundador, encantava-se com o Deus-Menino, e mereceu recebê-Lo várias
vezes milagrosamente em seus braços. E é desse modo que o grande santo
franciscano é comumente representado. Outros santos tiveram a mesma graça.
Entretanto, foi na
Espanha da Contra-Reforma, durante o chamado "século de ouro",
que o divino Menino Jesus passou a ser venerado em imagens em que aparece
de pé, manifestando um ou outro de seus atributos.
A grande Santa
Teresa de Ávila introduziu essa devoção em seus conventos, e a partir
deles espraiou-se por toda a Espanha e depois pelo mundo. Seu discípulo e
co-fundador do ramo carmelita masculino reformado, o sublime São João da
Cruz, entusiasmava-se tanto com esse mistério de um Deus feito homem,
que, durante o período de Natal, levava a imagem do Menino Jesus em
procissão, e bailava com ela ao colo. Compôs também tocantes poesias
sobre a Natividade.
Assim, surgiram nos
conventos carmelitas várias invocações do Menino Jesus, como El
Peregrinito, El Lloroncito, El Fundador, El Tornerito e El Salvador.
Mas tal devoção não
se limitava aos claustros. Já Fernão de Magalhães, quando descobriu as
Filipinas, levava consigo uma dessas imagens de Jesus Menino, e lá a
deixou, sendo ela venerada até hoje na ilha de Cebu.
Carmelita
Venerável: confidente do Divino Infante
Coube porém a uma
filha de Santa Teresa ser a confidente do Menino Jesus e a propagadora da
sua devoção. Trata-se da Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento
(1619-1648), carmelita do convento de Beaune, na França. Esta freira,
falecida aos 29 anos, entrou para o convento aos 11 anos como pensionista.
Tinha grande familiaridade com os Anjos e Santos e o privilégio de
participar de todos os grandes mistérios da Vida do Salvador, como seu
Nascimento, Transfiguração e Paixão. Entretanto, recebeu a missão
especial de venerar e propagar especialmente a devoção à divina infância
de Cristo.
"Eu te escolhi
para honrar e tornar visível em ti minha infância e minha inocência,
quando eu jazia no presépio", disse-lhe o Menino-Deus, quando ela
rezava diante de uma imagem sua existente no convento, conhecida como O
Rei da Glória. A Irmã Margarida do Santíssimo Sacramento recebia muitas
graças extraordinárias, mediante as quais o Menino Jesus fazia-lhe
compreender de um modo mais profundo esse mistério3.
Ela fundou a Família
do Menino Jesus, convidando todos os que dela quisessem participar a
celebrarem com fervor os dias 25 de cada mês, em lembrança da Santa
Natividade, e a rezarem a Coroinha do Menino Jesus (três Padre-Nossos e
12 Ave-Marias) em honra dos 12 primeiros anos de sua vida.
Dois séculos mais
tarde, outra carmelita, Santa Teresinha do Menino Jesus (+ 1897), honrou
de modo especial o Deus-Menino, não só ao escolhê-Lo para seu nome em
religião, mas iniciando a via da "Infância Espiritual". Foi
numa noite de Natal, a de 1886, que ela recebeu a maior graça de sua
vida, segundo disse, isto é, a de sair da imaturidade da infância para
entrar na grande via dos santos.
Ela se abandonava ao
Deus-Menino com toda docilidade, como uma bola nas mãos de uma criança.
Quando recebeu o encargo de adornar uma imagenzinha do Menino Jesus que
havia no claustro, ela o fazia com grande devoção. Além disso, mantinha
prolongados colóquios com o Deus-Menino diante da imagem do Menino Jesus
de Praga que se encontrava no coro do noviciado.
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Santuário de Nossa Senhora da Vitória, em Praga
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Maravilha
de Praga: o Pequeno Rei
Praga, capital da
atual República Checa, é considerada, a justo título, uma das mais
belas capitais da Europa. O visitante não se cansa de a percorrer, sempre
descobrindo coisas novas e maravilhas não suspeitadas. Sua topografia
concorre muito para sua beleza, e o rio Moldava, que a corta, tornou-se
quase legendário. A arquitetura de Praga reflete os vários períodos de
sua história. Nela se vêem desde fundações românicas, belíssimos
exemplos do gótico religioso e civil, edifícios renascentistas, barrocos
e clássicos. E até um exemplo da chamada "arte" moderna, como
infeliz concessão ao espírito do tempo.
Entre os inúmeros
prédios dignos de menção nessa cidade privilegiada, figura a igreja de
Nossa Senhora das Vitórias, primeiro santuário barroco local, erigido de
1613 a 1644. Pertencente aos carmelitas descalços, nela está a grande
maravilha de Praga: a encantadora imagem do Pequeno Rei, como é conhecido
o Menino Jesus de Praga.
Raízes
de uma devoção providencial
No século XVII, no
primeiro período da sangrenta Guerra dos Trinta Anos, o Geral dos
Carmelitas Descalços, Venerável Frei Domingos de Jesus Maria, havia se
destacado, exortando os exércitos católicos na vitória do imperador
alemão contra o príncipe eleitor do Palatinado, o calvinista Frederico.
Em sinal de gratidão a ele, em 1624 o Imperador Fernando II chamou os
carmelitas a Praga — então capital do Sacro Império Romano Alemão —
e concedeu-lhes a igreja rebatizada com o nome de Santa Maria da Vitória,
pela ajuda concedida pela Mãe de Deus ao exército católico naquela
batalha.
No ano de 1628, Frei
João Luís da Assunção, então Prior dos carmelitas descalços da
cidade, comunicou a seus religiosos que havia sentido uma moção interior
no sentido de que venerassem de um modo especial o Deus-Menino, para que
Ele protegesse a comunidade, e a fim de que os noviços aprendessem com
Ele a ser pequeninos para entrarem no reino dos Céus.
Quase
simultaneamente a Providência inspirou a Princesa Polyxena de Lobkowicz
— que então enviuvara e ia se retirar para seu castelo de Roudinice nad
Labem — a doar ao convento carmelita uma imagem de cera do Menino Jesus,
que possuía. Ele era representado de pé, portando trajes reais, com o
Globo na mão esquerda e a direita em atitude de abençoar. Tal imagem era
querida recordação de família, pois sua mãe, Da. Maria Manrique de
Lara, a recebera como presente de núpcias quando se casou com Vratislav
de Pernstein, e a dera à filha também como presente de bodas.
A Princesa Polyxena
disse ao prior, ao entregar-lhe a imagem: "Eu vos ofereço, querido
padre, o que mais quero no mundo. Honrai este Menino Jesus e assegurai-vos
de que, enquanto O venerardes, nada vos faltará".
Frei João Luís
agradeceu o presente, que vinha tão milagrosamente ao encontro do seu
desejo, e ordenou que a imagem fosse colocada no altar do oratório do
noviciado. Ali os carmelitas se reuniriam todos os dias para louvar o
Divino Infante e recomendar-Lhe suas necessidades.
Depois de um
primeiro momento de prosperidade em Praga, os carmelitas ficaram reduzidos
quase à miséria. O prior e seus súditos recorreram ao Menino Jesus,
pedindo-Lhe que lhes fosse propício. Essa confiança não foi infundada.
O Imperador Fernando II, Rei da Boêmia e da Hungria, conhecendo as
necessidades pelas quais passava a comunidade carmelita, concedeu-lhe uma
renda anual de mil florins e um auxílio sobre as rendas imperiais.
Ao mesmo tempo,
sucedeu outro fato extraordinário que comprovava o quanto o Menino Jesus
de Praga não deixava de socorrer aqueles que a Ele recorressem. Existia
no convento uma vinha, a qual havia tempos estava completamente estéril.
De repente, da forma mais imprevista, começou a florescer e a frutificar,
sendo seus frutos mais doces e esplêndidos do que se podia imaginar.
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Dona Plyxena de Lobkowicz entregando a imagem do Menino Jesus
aos Carmelitas de Praga
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Frei
Cirilo: de miraculado a apóstolo do Menino Jesus
Habitava esse
convento um jovem sacerdote, Frei Cirilo da Mãe de Deus, que, tendo
deixado o ramo carmelita mitigado, abraçara a reforma de Santa Teresa.
Porém, em vez de encontrar a paz que tanto esperava, sentia-se como um réprobo,
sofrendo as penas do inferno. Nada o consolava ou apaziguava.
O prior, notando-o
macambúzio e abatido, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Frei Cirilo
abriu-lhe o coração, contando todas as suas penas. "Uma vez que o
Natal se aproxima, disse-lhe o prior, por que não se põe aos pés do
Santo Menino e lhe confia todas as suas penas? Verá como Ele o ajudará".
Obedecendo, Frei
Cirilo dirigiu-se à imagem do Menino Jesus: "Querido Menino, olhai
minhas lágrimas! Estou a vossos pés, tende piedade de mim!" No
mesmo instante, sentiu como que um raio de luz penetrar em sua alma,
fazendo desaparecer todas as angústias, dúvidas e sofrimentos.
Comovido e sumamente
agradecido, Frei Cirilo tornou-se um verdadeiro apóstolo do Divino
Infante.
Ataque
sacrílego de protestantes
Entretanto, os
protestantes se reagruparam em novembro de 1631, sob o comando do príncipe
eleitor da Saxônia, e assediaram novamente Praga. Houve pânico entre os
imperiais e a angústia dominou os habitantes da cidade. Muitos fugiram.
Frei João Maria,
por prudência, mandou seus frades para Munique, permanecendo ele na
cidade para custodiar o convento com apenas mais um religioso.
Praga capitulou. Os
soldados protestantes invadiram igrejas e conventos, profanando e
destruindo os objetos do culto católico. Puseram na prisão os dois
frades carmelitas e começaram a depredar o convento. Vendo no oratório
dos noviços a imagem do Menino Jesus, começaram a rir e a zombar dela.
Um dos soldados, desejoso de mostrar-se diante dos outros, com a espada
decepou as mãozinhas da imagem sob os aplausos dos companheiros. Depois,
empurrou-a para o meio dos escombros a que ficara reduzido o altar.
Ali o Menino Jesus
ficou esquecido.
Assinada a paz em
1634, os carmelitas puderam regressar a seu convento. Frei Cirilo não
voltou com os outros, e ninguém mais se lembrou da imagem do Menino
Jesus. Três anos mais tarde chegou Frei Cirilo e logo deu pela falta.
Procurou a preciosa imagem, mas não a encontrou. Não havia o que fazer.
A paz, entretanto, não
fora duradoura. Os suecos, rompendo os acordos, sitiaram outra vez Praga,
queimando em seu caminho castelos e povoações.
O prior recomendou a
seus frades que rezassem, pois só a oração podia salvá-los desta vez.
Então Frei Cirilo sugeriu que se recomendassem ao Pequeno Rei, e pôs-se
a procurar novamente a imagem. Depois de muito trabalho, encontrou-a
finalmente atrás do altar, coberta de pó e sujeira. Por incrível que
pareça, ninguém havia mexido naquele local durante aqueles atribulados
tempos. Com alegria, levou-a ao prior. Diante da imagem com as mãos
decepadas, os frades oraram fervorosamente pela salvação da cidade, o
que realmente se deu. Os suecos levantaram o cerco.
Milagrosa
restauração da imagem
Quando a imagem foi
de novo entronizada no oratório dos noviços, os benfeitores do convento,
que durante esses difíceis anos haviam também sumido, voltaram a trazer
sua ajuda.
Certo dia Frei
Cirilo estava em oração diante do Menino Deus, pedindo pela comunidade,
quando Este lhe disse tristemente: "Tende piedade de mim, e eu terei
piedade de vós. Restituí-me as mãos que me cortaram os hereges. Quanto
mais me honrardes, mais vos favorecerei".
Por motivos
ignorados, o frade até então, não tinha se empenhado em restaurar a
imagenzinha. Apressou-se a narrar ao prior o sucedido. Mas este parece não
lhe ter dado muito crédito. E por causa da indigência em que se
encontrava o convento, disse que era necessário esperar dias melhores,
pois havia necessidades mais prementes.
Profundamente
aflito, Frei Cirilo pediu a Deus que lhe desse os meios de restaurar a
imagem, e a ajuda veio de maneira inesperada. Um nobre estrangeiro pediu
àquele religioso para se confessar, e depois disse-lhe: "Reverendo
Padre, estou convencido de que o bom Deus me conduziu a Praga para me
preparar para a morte e fazer-vos um pouco de bem". E entregou-lhe
uma esmola de cem florins.
O frade procurou o
prior, entregando-lhe a importância e pedindo pelo menos um florim para
restaurar a imagem. Mas o prior, apesar desse pequeno milagre, disse que
isso não era tão premente e podia esperar. Pior: mandou que Frei Cirilo
tirasse a imagenzinha do oratório e a levasse para sua cela até que
pudesse ser restaurada. Com lágrimas nos olhos, o frade obedeceu, pedindo
ao Pequeno Rei perdão por sua incompreensão.
Apareceu-lhe então
a Santíssima Virgem e o fez compreender que o Menino Jesus deveria ser
restaurado o quanto antes, e ser exposto à veneração dos fiéis em uma
capela a Ele dedicada. É sempre Nossa Senhora quem conduz a Jesus!
Uma circunstância
propícia surgiu quando foi eleito novo prior, pouco tempo depois. Frei
Cirilo fez-lhe o mesmo pedido, e este respondeu: "Se o Menino nos der
antes sua bênção, então farei reparar a imagem". Bateram à
porta, e uma senhora desconhecida entregou a Frei Cirilo um bom donativo.
O prior, entretanto, deu-lhe só meio florim para a restauração,
dizendo-lhe que tinha que bastar. À insignificante importância somou-se
logo generoso donativo de Daniel Wolf, funcionário da corte agraciado
pelo Menino Jesus.
A imagenzinha foi
assim restaurada e colocada dentro de uma urna de cristal próxima à
sacristia. Cumpria-se assim o desejo expresso por Nossa Senhora a Frei
Cirilo, de que o Menino fosse exposto à veneração pública.
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Dona Plyxena, pequena, junto à sua
mãe Dona Maria Manrique de Lara (Sanchez Coelho, séc. XVI
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Cura
miraculosa e aumento do culto
Um fato inesperado
iria ter muita influência no culto ao Pequeno Rei. Certo dia, em 1639,
Frei Cirilo, tido já por muitos como um santo, foi procurado pelo Conde
de Kolowrat, Enrique Liebsteinski, cuja esposa estava gravemente doente. O
Conde pediu ao carmelita que levasse a imagem do Menino Jesus à cabeceira
da enferma, alegando que esta era prima da Princesa Polyxena, que havia
doado a imagem ao Convento. Como vários médicos já a haviam
desenganado, a única esperança que restava era o Santo Menino.
Frei Cirilo não
podia deixar de atender tão justo pedido. Chegando ao quarto da
moribunda, disse-lhe o marido: "Querida, abre os olhos. Vê, aqui está
o Menino Jesus para curar-te". Com muito esforço a enferma abriu os
olhos, seu rosto iluminou-se, e ela exclamou: "Oh! O Menino está
aqui no meu quarto!" E ergueu os braços para ele, a fim de osculá-lo.
Vendo isso, o marido exclamou exultante: "Milagre! Milagre! Minha
mulher está salva!"
A alegria foi geral.
Apenas restabelecida, a condessa foi ao convento e ofereceu ao Menino uma
coroa de ouro e objetos preciosos em sinal de gratidão. Este foi um dos
milagres mais célebres atribuídos ao Pequeno Rei.
Tornado conhecido
esse prodígio, é natural que sua fama começasse a disseminar-se não só
na corte, mas também entre o povo da cidade e redondezas. E diante do
altar do Menino Deus começaram a afluir, cada vez em maior número,
peregrinos de todas as partes.
Isso fez com que uma
rica dama da corte, levada por devoção indiscreta, furtasse a imagem.
Mas esse sacrilégio foi castigado por Deus, e o Pequeno Rei retornou aos
carmelitas.
As muitas doações
em dinheiro e em espécie, com as quais os fiéis agradeciam graças
recebidas do Divino Infante, tornaram possível construir a capela
destinada à milagrosa imagem. Para sua solene consagração, em 1648, foi
convidado o Arcebispo de Praga, Cardeal Ernesto Adalberto de Harrach, que
concedeu aos frades a mais ampla faculdade de celebrar missa nessa ermida
do Santo Menino Jesus. Com essa solene confirmação do Arcebispo, a
capela do Pequeno Rei da Paz converteu-se num lugar de culto oficial e
muito freqüentado.
Novas
provações, altar definitivo
Novamente em 1648,
em outra batalha durante a Guerra dos Trinta Anos, as tropas dos
protestantes suecos invadiram a cidade e transformaram o convento
carmelita em hospital de campo. Mas nenhum dos 160 soldados feridos ali
tratados atreveu-se a escarnecer do Santo Menino. Pelo contrário, o próprio
comandante dos invasores, o General Konigsmark, durante uma inspeção,
prostrou-se diante da milagrosa imagem, dizendo: "Ó Menino Jesus! Não
sou católico, mas também creio em tua infância e estou impressionado ao
ver a fé das pessoas e os milagres que fazes em seu favor. Eu te prometo
que, no que me for possível, farei levantar o aquartelamento do
convento". E entregou aos frades um donativo de 30 ducados.
Pouco depois os
suecos levantaram o assédio de Praga, e todos atribuíram a libertação
à proteção do Pequeno Rei.
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A imagenzinha do Menino Jesus sem
os trajes com que habitualmente é adornada
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Confirmação
e expansão do culto
Com a volta à
normalidade, chegou a Praga em 1651 o Superior Geral dos Carmelitas, Frei
Francisco do Santíssimo Sacramento, que aprovou a devoção do Divino
Infante, recomendando aos frades que a difundissem pelos outros conventos
austríacos e entre os fiéis. Deixou escrita uma carta, reconhecendo a
legitimidade do culto à sagrada imagenzinha, que foi afixada na porta da
capela do Menino Jesus.
Em 1655, graças à
contribuição do Barão de Tallembert, a milagrosa imagem foi colocada em
magnífico altar na igreja de Santa Maria da Vitória e solenemente
coroada pelo Arcebispo de Praga, D. José de Corti. Ainda hoje se celebra
uma festa solene no dia da Ascensão, em lembrança dessa coroação.
No ano de 1675, Frei
Cirilo da Mãe de Deus entregou sua alma a Deus em odor de santidade, aos
85 anos de idade.
A devoção ao
Divino Menino continuou alastrando-se por todas as camadas sociais. A
grande imperatriz do Império Austro-Húngaro, Maria Teresa, quis
confeccionar em 1743, com suas próprias mãos, uma rica veste para o
Pequeno Rei.
Imagem
preservada durante tiranias nazista e comunista
Em 1744, mais uma
vez as tropas dos protestantes, agora prussianos, cercavam Praga. As
autoridades da cidade acorreram ao convento dos carmelitas, pedindo ao
prior que o Pequeno Rei fosse levado em procissão solene pela cidade, a
fim de a livrar da destruição dos hereges.E realmente chegou-se a uma
capitulação honrosa, sem batalhas; poucos meses depois os prussianos
deixaram Praga, e todos seus comovidos habitantes acorreram à igreja de
Nossa Senhora da Vitória para agradecer ao Menino Jesus mais essa graça.
Entretanto, outro
perigo maior ameaçava a devoção ao Divino Infante. Em 1784, o ímpio
Imperador José II suprimiu o convento dos carmelitas e confiou a igreja
de Nossa Senhora da Vitória à Ordem de Malta. E assim, sem a assistência
contínua dos carmelitas, o culto ao Menino Jesus decaiu.
Já no século XX,
durante a II Guerra Mundial, houve a ocupação de Praga pelos nazistas, e
depois o flagelo comunista abateu-se sobre o país durante quase 50 anos.
Mas nem um nem outro inimigo da fé católica atentou contra a milagrosa
imagem, que continuou em seu trono na igreja de Nossa Senhora da Vitória.
De Praga, o culto ao
Menino Jesus já se havia estendido por toda a Europa, e daí para a América
Latina (inclusive Brasil), Índia e Estados Unidos. Neste país, isso se
deu graças à devoção de Santa Francisca Xavier Cabrini, que ordenou a
entronização, em cada uma das casas do instituto por ela fundado, de uma
imagem do Pequeno Rei.
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Coroa do Menino Jesus de Praga
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Devoção
expande-se a Arenzano
Em 1895, os
carmelitas de Milão pediram ao Cardeal Ferrari licença para introduzir a
devoção ao Menino Jesus de Praga em sua igreja de Corpus Domini. O
Cardeal não só autorizou a entronização, mas quis ele mesmo fazê-la
em presença de três mil fiéis. Na ocasião, consagrou todas as crianças
de Milão ao Menino Jesus de Praga.
A partir de então,
essa devoção conquistou o coração dos italianos.
No convento
carmelita de Arenzano, fundado em 1889 pelo irmão do fundador de Corpus
Domini, surgiu a idéia de se expor um quadro representando o Menino Jesus
de Praga na igreja do convento. Os habitantes da cidade logo se mostraram
muito sensíveis ao novo culto, e o Pequeno Rei atendeu suas orações e
pedidos com muitas graças e bênçãos.
No ano de 1902, para
substituir o quadro, a Marquesa Delfina Gavotti, de Savona, presenteou os
frades com uma imagenzinha do Menino, cópia exata da de Praga. A enorme
afluência dos fiéis ante o altar do Menino Jesus convenceu os frades a
construírem um santuário expressamente dedicado a Ele. A primeira pedra
foi colocada em outubro de 1904, e quatro anos mais tarde o templo era
solenemente consagrado.
O cronista do
convento carmelita anotou então: "Para todos foi claro que só o
culto à infância divina, venerada com o título do Santo Menino Jesus de
Praga, deu origem, desenvolvimento e feliz final à nossa empresa de
construir esta igreja, para que fosse para os fiéis de toda Itália o
centro propulsor desta devoção".
No dia 7 de setembro
de 1924, Sua Santidade o Papa Pio XI enviou especialmente o Cardeal Merry
del Val para coroar solenemente a sagrada imagem. Assim, a devoção ao
Menino Jesus de Praga recebia a aprovação oficial da Igreja.
Em
Praga: proibição do culto pelos comunistas
Enquanto em Arenzano
florescia a devoção, em Praga, transformada em capital da então
Checoslováquia, o regime comunista impedia o livre exercício de culto,
propugnando o ateísmo do Estado. Em 1968, uma tentativa de livrar-se do
regime ímpio foi sufocada com sangue na chamada Primavera de Praga.
A devoção ao
Menino Jesus continuava restrita aos que freqüentavam a igreja onde
estava exposto, e também ao fruto do apostolado das monjas carmelitas
que, deportadas para longe de Praga, pintavam estampas com o Santo Menino
e as enviavam clandestinamente a outros conventos europeus.
Finalmente, em 1989,
com a queda do Muro de Berlim, e depois, com a Revolução do Veludo,
cessou a ditadura comunista na Checoslováquia, que se transformou na República
Checa, independente e soberana. Foi restabelecida a liberdade civil e
religiosa, e o novo Arcebispo de Praga, que fora também vítima da
repressão comunista, quis que reflorescesse a devoção ao Menino Jesus.
A convite dele, dois frades carmelitas, justamente de Arenzano, foram para
Praga reabrir o convento e estimular a devoção ao Divino Menino Jesus.
Notas
1.Este artigo foi baseado na excelente obra El
Pequeño Rey, de Sorella Giovanna della Croce, C.S.C, tradução do
italiano para o castelhano pelo Pe. Juan Montero Aparício, AGAM, Madonna
dell'Olmo, Cuneo, Italia.
2.Vide, por exemplo, suas Homilías sobre
el año litúrgico, BAC, Madrid, 1969, pp. 99 ss.
3.Cfr. Les Petits Bollandistes, Vies des
Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo 15, p.
379.
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