Estudos Variados
Fórum Social Mundial de Porto Alegre, berço de uma neo-revolução anárquica


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A pretexto do combate à globalização
Renasce a luta de classes
Fórum Social Mundial
de Porto Alegre, berço de uma neo-revolução anárquica


pa1.jpg (20799 bytes)Com o título em epígrafe, foi publicado recentemente um ensaio sobre a nova rede internacional das esquerdas. O II Fórum Social Mundial, a realizar-se de 31 de janeiro a 5 de fevereiro em Porto Alegre, onde estarão presentes corifeus dessas correntes no mundo inteiro, torna a obra da maior atualidade. Apresentamos aos leitores de Catolicismo um resumo desse importante estudo.

Guilherme da Penha

As agitações e o quebra-quebra realizados por movimentos de extrema esquerda em Seattle (EUA) e Göteborg (Suécia), e em Gênova (Itália) por ocasião da reunião dos chefes de Estado do G-8, chamaram a atenção da opinião pública mundial para um fenômeno que vinha despontando nos últimos três anos.

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Agitação e quebra-quebra em Gênova (Itália). Uma contestação inusitada e violenta à globalização e à atual ordem econômico-social, rotulada de "neo-liberal".

É uma contestação inusitada e violenta à globalização e à atual ordem econômico-social, etiquetada de "neoliberal". Contestação essa levada a cabo por grupos diversos, muitos dos quais não pareciam ter nexo entre si, e outros que até há pouco nem sequer existiam. O conjunto desses agrupamentos mobiliza dezenas de milhares de ativistas contestatários nos vários continentes, à procura de ocasiões propícias para prosseguir sua agitação, que está atingindo auges crescentes.

Bem observado o fenômeno, constata-se que a globalização serve de pretexto para formar, impulsionar e articular tais grupos, que vão constituindo nova, possante e perigosa rede internacional de esquerda de cunho anarquista, cujo pensamento e sistema foi delineado pelas intervenções e documentos publicados no I Fórum Social Mundial (FSM), realizado em Porto Alegre em janeiro de 2001. Na esteira desse evento, realizou-se igualmente na capital gaúcha, o Fórum Mundial de Educação (FME), em outubro desse mesmo ano.

***

O ensaio, objeto deste artigo, denuncia esse esforço mundial para criar uma nova Internacional Comunista, desde já denominada nos meios da esquerda radical de Internacional Rebelde. De fato, é o próprio comunismo que ressurge, porém metamorfoseado. Levando como companheira de viagem a "esquerda católica", tais forças procuram se recuperar do trauma sofrido com a queda do império soviético, para se reagrupar e passar à ação.

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Chefes de Estado do G-8.

A ocasião é bem escolhida, posto o descontentamento profundo no mundo de hoje com algumas das conseqüências da globalização, como a perda de identidade das nações, o crescente movimento migratório e a penetração dos efeitos das crises econômicas de certos países em muitos outros, por vezes ameaçando transformar-se numa crise geral.

Porém, junto às críticas feitas à globalização, essas forças lançam violentos ataques contra o próprio capitalismo, visando destruir seus fundamentos, que são da própria ordem natural: a propriedade privada e a livre iniciativa.

No dizer dos representantes de tais forças, o combate não é dirigido contra toda forma de globalização, mas contra a globalização capitalista; vêem eles até com simpatia a de índole socialista. Os novos contestatários também querem uma globalização, mas de tipo anárquico-tribal, que absorva as nações, acabe com as autoridades e favoreça as pequenas comunidades autogestionárias, totalmente igualitárias.

O referido ensaio, objeto deste artigo, rejeita o falso dilema, muito repetido pela mídia, de que é preciso optar entre "global" e "não global". Como veremos, entrar nesse debate tomando posição de um lado ou de outro, sem as devidas ressalvas, já é aceitar o falso dilema e se deixar confundir por ele.

O estudo, baseado em farta e sólida documentação, poderá ser adquirido por quem o desejar, através do seguinte site: http://www.tfp.org.br/


Promotores da agitação antiglobalista

O conteúdo deste artigo, cuja importância e atualidade é desnecessário acentuar, supõe uma explicação sintética preliminar, que apresentamos abaixo, sobre os principais organismos, publicações e líderes da nova rede internacional das esquerdas, à qual já se tem atribuído a denominação Internacional Rebelde. Sem essa conceituação inicial, não seria fácil ao leitor compreender a estrutura, os métodos de ação e os objetivos desse movimento de agitação mundial, que ainda não é bastante conhecido por todos os setores da opinião pública.

  • Fórum Social Mundial — Conjunto de entidades que organiza, entre outras iniciativas, os eventos realizados em Porto Alegre. É formado pela ATTAC, pelo MST, pela CUT, pela COMISSÃO JUSTIÇA E PAZ da CNBB, pela ABONG (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais), pela CIVES (Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania), pelo IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e pela REDE DE JUSTIÇA SOCIAL E DIREITOS HUMANOS.

  • ATTAC (Associação por uma Taxa às Transações financeiras especulativas para Ajuda aos Cidadãos). Entidade francesa, contando com filiais ou entidades similares em 23 países, 15 deles na Europa. De início, a finalidade dessa associação constava em seu título. Hoje visa ela ser "uma universidade popular voltada para a ação", rearticulando grupos da esquerda em todo o mundo para agir conjuntamente, seja cada um no próprio país, seja mobilizando ativistas para atuar contra os eventos que promovem a globalização, seja para protestar contra esta nas nações que enfrentam crises financeiras.

  • "Le Monde Diplomatique" — Mensário francês esquerdista. São publicadas dele 20 edições em 10 línguas, com uma tiragem total de 1.200.000 exemplares. Sua versão italiana é difundida por "Il Manifesto", periódico declaradamente comunista. A edição francesa conta só com oito redatores, mas apela para a colaboração de mais de 3.000 esquerdistas espalhados pelo mundo. Seu diretor, Ignacio Ramonet, e seu redator e diretor administrativo, Bernard Cassen, são, sem dúvida, as pessoas de maior projeção tanto da ATTAC quanto do periódico.

  • Noam Chomsky — Um dos mais salientes intelectuais anticapitalistas da atualidade. Declara-se "socialista libertário", sendo qualificado por seus próprios seguidores como "o mais conhecido dos anarquistas contemporâneos". Questiona todas as instituições sociais, que define como "opressivas", e propugna diretamente seu desmantelamento, caso elas não possam provar o contrário. Ademais, postula o sistema autogestionário e combate fortemente a política exterior norte-americana.

  • Toni Negri — Militou nos anos 70 em vários grupos comunistas próximos ao terrorismo. Em vista disso, foi julgado e condenado pela Justiça italiana, por ocasião do seqüestro e assassinato de Aldo Moro. Embora preso, foi eleito deputado, sendo então libertado em virtude da imunidade parlamentar. Quando esta foi eliminada para reconduzi-lo ao cárcere, fugiu para a França, onde se exilou durante vários anos, entrando nessa ocasião em contato com os adeptos do pós-estruturalismo. Conheceu nessa época Michael Hardt, um norte-americano com o qual escreveu a mais conhecida de suas obras, Império. Recentemente, voltou à Itália para cumprir, em regime de semi-liberdade, a pena a que havia sido condenado.

 

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Queima da bandeira norte-americana é freqüente nas manifestações contestatárias da Internacional Rebelde

 

Os atentados de 11 de setembro criaram um impasse inesperado para os propulsores de tal agitação: objetivamente ou não, boa parte da opinião pública mundial começou a relacionar seus agentes com o terrorismo, dado o caráter violento dessas manifestações, bem como a hostilidade que mostram face ao regime sócio-econômico vigente no Ocidente.

O certo é que a nova ofensiva pode representar para a Civilização Cristã um perigo ainda bem maior, do ponto de vista religioso, político, social e econômico, do que os terroristas do Al Qaeda.

Alertar a opinião pública para esse perigo, indicar suas causas e sugerir os meios para evitá-lo é o objetivo do citado ensaio.

 

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Plinio Corrêa de Oliveira jamais acreditou que o comunismo — fruto de um secular processo de destruição da Civilização Cristã — tivesse morrido.

Internacional Rebelde: a pretexto de combater a globalização, ataca o capitalismo

Plinio Corrêa de Oliveira jamais acreditou que o comunismo — fruto de um secular processo de destruição da Civilização Cristã — tivesse morrido. Assim como certos rios se afundam na terra, correm subterrâneos e mais adiante voltam à superfície, o comunismo deveria necessariamente reaparecer; não idêntico ao que era, mas metamorfoseado, requintado até. Em 1992, na 4ª edição em português de Revolução e Contra-Revolução, obra magna desse insigne pensador e líder católico, ele aproveitou a ocasião para mostrar que uma neo-Revolução renasceria das cinzas do comunismo. Ao prever as conseqüências do desmantelamento da URSS, afirmou ele:

"Por exemplo, a crescente oposição entre países consumidores e países pobres. Ou, em outros termos, entre nações ricas industrializadas e outras que são meras produtoras de matérias-primas.

"Nasceria daí um entrechoque de proporções mundiais entre ideologias diversas, agrupadas, de um lado em torno do enriquecimento indefinido, e de outro do subconsumo miserabilista. À vista desse eventual entrechoque, é impossível não recordar a luta de classes preconizada por Marx. E daí surge naturalmente uma pergunta: será essa luta uma projeção, em termos mundiais, de um embate análogo ao que Marx concebeu sobretudo como um fenômeno sócio-econômico dentro das nações, conflito este no qual participaria cada uma destas com características próprias?

"Nessa hipótese, passará a luta entre o Primeiro Mundo e o Terceiro a servir de camuflagem mediante a qual o marxismo, envergonhado de seu catastrófico fracasso sócio-econômico e metamorfoseado, trataria de obter, com renovadas possibilidades de êxito, a vitória final?"1.

Assim, com 10 anos de antecedência, Plinio Corrêa de Oliveira descreveu o eixo em torno do qual — a pretexto de globalização — gira a atual confrontação ideológica e moral entre o capitalismo vigente e o pós-capitalismo emergente.

 

O I Fórum Social Mundial de Porto Alegre: ressurge a luta de classes em novas bases

Em janeiro de 2001, teve lugar — como Catolicismo o deu a conhecer a seus leitores, na edição de março desse ano — o I Fórum Social Mundial de Porto Alegre (FSM), convocado como desafio alternativo ao conhecido Fórum Econômico Mundial de Davos. O que levou Ignacio Ramonet a intitular sua coluna editorial em "Le Monde Diplomatique": Davos? Não, Porto Alegre.

A luta de classes Norte/Sul e a reconstrução da utopia socialista tinham, de fato, recomeçado sob um falso dilema: pró ou contra a globalização. O slogan adotado pelo FSM já o enunciava: "Um outro mundo é possível".

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Barricadas nas ruas em maio de 68

O ensaio põe em realce o papel desempenhado pelo evento de Porto Alegre nessa ofensiva, bem como o de seus principais promotores: a associação francesa Attac, hoje expandida por numerosos países; o mensário parisiense "Le Monde Diplomatique", igualmente com edições e ecos em múltiplas nações; e proeminentes membros da esquerda católica brasileira.

Para os agitadores, o fracasso do socialismo de Estado de tipo marxista não invalida outras formas possíveis de socialismo radical: vida comunitária, democracia direta, autogestão das empresas. Reabilita até as teorias anarquistas de Mikhail Bakunin.

Ademais, esse socialismo anárquico assume as lutas do novo proletariado, saído das barricadas da Revolução da Sorbonne de maio de 1968: as ofensivas do feminismo, a defesa de pseudo-direitos das minorias sexuais, a promoção de estilos de vida alternativos, a liberalização da droga e as causas de todos os chamados excluídos.

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Uma das sessões plenárias do Fórum de Porto Alegre, realizado em janeiro de 2001

 

A Internacional Rebelde, ameaça real; papel vital da "esquerda católica"

Assim, a Internacional Rebelde deve ser vista sob dois ângulos distintos e complementares.

De um lado, enquanto reedita os erros do comunismo clássico, ela constitui uma força essencialmente contrária à propriedade privada e à livre iniciativa, portanto anticapitalista, procurando exacerbar o confronto Norte-Sul.

De outro lado, traz elementos novos, carreados por movimentos ecológicos, indigenistas e outros, que já falam de anarquia, caos e misticismo revolucionário. O que, embora menos definido nos documentos da nova Internacional, é entretanto o que lhe confere mais dinamismo e capacidade de arrastar as suas bases.

No espectro da esquerda atual, esse neocomunismo, mesmo em ascensão, por ora é minoritário, por vezes até marginal. E não tem ainda força política para impor sua agenda aos partidos da esquerda clássica, como o PT brasileiro, o PS francês, o SPD alemão, o PSOE espanhol etc., nos quais os novos anarquistas exercem influência importante, mas não decisiva.

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Pe. Joseph Comblin, expoente da Teologia da Libertação

Porém, aproveitando a onda contrária à globalização e propondo medidas para sabotar o seu processo, poderá tal neocomunismo ganhar força para integrar e até pilotar uma Frente Ampla, com vistas a influenciar os acontecimentos no sentido anarquista. E poderá até — em meio a eventuais conflitos sociais graves — vir a assumir o poder em algumas áreas. É o que, por exemplo, deseja para América Latina um promotor radical da Teologia da Libertação, o Pe. Joseph Comblin, cujas teses são amplamente analisadas no ensaio.

O respaldo religioso é vital para o neocomunismo tentar sua aventura, sobretudo hoje em dia, em que um ressurgimento religioso na juventude surpreende os observadores, após mais de um século de inclemente propaganda atéia.

As esquerdas infiltraram-se largamente nos meios religiosos, inclusive — dói dizê-lo — na Santa Igreja Católica, baluarte natural contra o socialo-comunismo por sua missão, sua doutrina, sua tradição e sua estrutura divinamente inspiradas. Nela foi realizado um trabalho demolidor tão meticuloso e geral, de tudo quanto resistia à investida marxista, que, sob esse aspecto, pouca coisa resta de pé.

Isto nos faz pensar nas palavras de Paulo VI sobre o processo de "autodemolição" da Igreja"2 e a penetração da "fumaça de Satanás" no Templo de Deus3.

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Ignacio Ramonet, diretor do mensário "Le Monde Diplomatique", é uma espécie de mentor intelectual do novo movimento

 

Contestatários unem-se numa Internacional para a "guerra social planetária"

O embrião da V Internacional — a Internacional Rebelde — vincula-se a diversos grupos e pessoas de esquerda, entre os quais se projetam Ignacio Ramonet — diretor do mensário "Le Monde Diplomatique", uma espécie de mentor intelectual do novo movimento — e sua equipe.

Ramonet afirma que os ativistas sociais "deram impulso ao que pouco a pouco acabou sendo uma nova guerra social planetária", na qual, "apesar da heterogeneidade das reivindicações, uma convergência efetiva se produz entre os camponeses, sindicatos operários, grupos ecologistas, novos movimentos de ação cidadã como Attac, organizações feministas, grupos de defesa dos direitos dos indígenas, aos quais se soma uma nova geração de jovens militantes que aportam um entusiasmo novo".

"Nunca havia se produzido — diz ele — uma convergência de tal envergadura. Face ao rolo compressor da globalização, unem-se movimentos e organizações ligados a classes diferentes e a setores muito díspares, de trajetórias diferentes e posições ideológicas contrastantes".

E profetiza : "Ainda não existe uma Internacional de protesto contra a globalização, mas já se escuta em todo o planeta este grito forte: Contestatários de todo o mundo, uni-vos!"4.

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Bernard Cassen, editor-chefe do "Le Monde Diplomatique" afirma: "O que aconteceu na capital gaúcha constitui uma verdadeira virada", que confirma "a perspectiva de se ver constituir-se o embrião de uma verdadeira Internacional rebelde".

Por sua vez, em artigo para esse mensário francês, Bernard Cassen afirma: "O que aconteceu na capital gaúcha constitui uma verdadeira virada", que confirma "a perspectiva de ver constituir-se o embrião de uma verdadeira Internacional rebelde"5.

Plinio Arruda Sampaio, três vezes deputado federal e hoje editor da revista "Correio Cidadão", previu o resultado do Fórum Social Mundial: "O objetivo de Porto Alegre é dar os primeiros passos para construir uma frente internacional, uma espécie de `quinta internacional', a mais ampla possível, em nada rígida nem vertical como as quatro primeiras"6.

Obviamente, além de propagandistas na mídia de esquerda, o movimento contestatário tem gurus que explicitam para suas bases mais pensantes os fins próximos, médios e remotos, e que nisto são intensa e artificialmente prestigiados pela mídia internacional. Os principais são hoje o norte-americano Noam Chomsky e o italiano Toni Negri.

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Noam Chomsky

 

Noam Chomsky: o "guru" dos novos movimentos anticapitalistas e do desmantelamento do Estado

Chomsky é o mais conhecido dos anarquistas contemporâneos e uma das estrelas do movimento antiglobalização. Quais são as idéias que o fazem tão incensado pelas esquerdas?

Em matéria de organização econômica, seu socialismo libertário se opõe tanto à propriedade privada e ao salário quanto ao socialismo de Estado, porque ambos são contrários ao "princípio de que o trabalho deve ser empreendido livremente e estar sob o controle do próprio produtor".

Para Chomsky, a essência do socialismo consiste em "transformar os meios de produção na propriedade de produtores livremente associados..... Essa apropriação deve ser direta, e não exercida por uma força elitista agindo em nome do proletariado". Assim, haveria um governo autogestionário facilitado pelas novas tecnologias: "Os trabalhadores podem perfeitamente tomar a seu cargo seus próprios assuntos de modo direto e imediato"7.

Percebendo, talvez, que essas concepções são quiméricas para a sociedade como conjunto, em especial se esta é industrial e globalizada, ele não dá detalhes a respeito da sociedade anárquica que deseja. E não acredita que deva haver uma particular tática política. As soluções só podem ser reais e concretas.

Chomsky vê o colapso da URSS como uma grande perspectiva que estaria atraindo para o anarquismo os esquerdistas decepcionados com o fracasso da experiência autoritária do comunismo. Tal visão leva-o a reabilitar Bakunin e seus seguidores.

Toni Negri entronizado como o Marx do novo milênio

A onda anarquista também promove outro intelectual-vedette, o italiano Antonio Negri, intensamente elogiado pela imprensa. O "The New York Times" citou conhecidos professores que apontam Império — obra conjunta dele e do americano Michael Hardt — como "uma reelaboração do manifesto comunista para a nossa época .... a nova e grande síntese teórica do novo milênio".

Ao falar das correntes migratórias, Negri e Hardt profetizam: "Uma nova horda nômade, uma nova raça de bárbaros emergirá para invadir ou evacuar o Império"8, ou seja, no fundo destruir a civilização. Esses novos bárbaros da multidão global devem tornar real a anarquia. Eles constituirão "um corpo completamente incapaz de se submeter ao comando, um corpo incapaz de se adaptar à vida familiar, à disciplina fabril, às regras de uma vida sexual tradicional etc."9 Mas esse é apenas "o começo da política liberadora"10.

O limiar do novo mundo será cruzado quando "a auto-valorização, a convergência cooperativa dos indivíduos e a administração proletária da produção se tornem um poder constituinte .... Este é o momento fundacional de uma forte cidade terrena, distinta de toda cidade divina"11. E na esperança de verem realizados seus sonhos libertários, Negri e Hardt exprimem a "irreprimível alegria e prazer de sermos comunistas" 12.

 

Denúncia inspirada no amor à Civilização Cristã

Em 1864 foi fundada a Primeira Internacional por um punhado de intelectuais e sindicalistas comunistas. Meio século mais tarde, cavalgando correntes moderadas e aproveitando as turbulências de uma grande crise, os comunistas apossaram-se do poder na Rússia e instauraram o maior e mais sangrento império que a humanidade tenha conhecido.

Muitos dessa Internacional Rebelde sonham com a repetição de tal golpe, ainda que seja num futuro remoto. O certo é que, desde já, todos eles mobilizam-se, reúnem-se e se estruturam para isso. É preciso que a opinião pública seja alertada sobre esse perigo. De qualquer maneira, o católico lúcido e fervoroso não pode aprovar que o processo de "globalização" vá erodindo gradualmente a soberania das nações, condição para a liberdade e o reto desenvolvimento dos povos. A alternativa entre global e não global deve, portanto, ser recusada como falsa. Mas deve optar pelo ideal de Cristandade. Tender para ele, no fundo de sua alma, e desejar ardentemente que a Providência Divina encaminhe as coisas de modo tal que a Civilização Cristã possa vir a ser restaurada na sua plenitude em dias melhores, como afirmou São Pio X: "A civilização não mais está para ser inventada, nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu, ela existe; é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais e divinos" 13.

A Santa Igreja Católica, ao ser fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, trouxe em si também as sementes de uma sociedade temporal cristã. Esta nasceu, desenvolveu-se e deu frutos abundantes no passado 15. Por que não poderia produzi-los no futuro? A natureza social do homem como Deus o fez — e não como os utópicos o querem —, regada pela graça divina, tem possibilidades enormes de florescer em todos os tempos e lugares. Até onde poderá desdobrar-se organicamente em qualidades, a partir do espetacular triunfo do Imaculado Coração de Maria, previsto em Fátima por Nossa Senhora?

 

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Os novos contestatários retomam a bandeira negra do anarquismo, como o fizeram os revolucionários da Sorbonne (foto à direita), e procuram ir além de Marx e Lenine, acrescentando elementos de ecologismo tribalista.

Com o slogan "um outro mundo é possível", promove-se a destruição da civilização

Analisados os elementos teóricos e práticos do mundo pós-capitalista que essa Internacional tem em vista — autogestão, subconsumo miserabilista, democracia direta, ecologismo extremo, indigenismo etc. — vê-se que há um desígnio de implantar uma República Universal, com pequenas comunidades autogeridas à maneira das tribos indígenas, para atingir a qual os agitadores praticam a violência em larga escala e a "esquerda católica" fornece decisivo apoio, apesar da impopularidade de tal programa.

Ao lançar-se não apenas contra os males da globalização, mas contra os próprios fundamentos do capitalismo — a propriedade privada e a livre iniciativa, direitos essenciais da pessoa humana — os novos contestatários procuram destruir o pouco que ainda resta do edifício sagrado da Civilização Cristã de outrora. E retomam a bandeira negra do anarquismo, procurando ir além de Marx e de Lenine, num misto de comunismo e ecologismo que parece exalar do fundo dos infernos.

Em seu avanço, os novos contestadores procuram completar e radicalizar a demolição — que os globalizantes já iniciaram — das autoridades legítimas e das estruturas naturais, desde a família até o Estado, passando pelos corpos intermediários orgânicos, como grupos sociais, municípios, regiões, etc.

É premente, pois, uma forte vigilância face ao perigo que esta neo-revolução representa para os restos de civilização no nosso conturbado início de milênio, perigo que não está tanto na força dos que a promovem quanto na passividade dos que são ameaçados. Os que impulsionam o neocomunismo anárquico, e os que o seguem por convicção, são uma pequena minoria; mas todas as revoluções foram desencadeadas por minorias organizadas e aguerridas, que acabam dominando as maiorias...

Os autores do ensaio não aceitam a tirania dessas minorias, e por isto também não permanecem passivos face à sociedade ocidental tal qual ela é hoje, com seus desequilíbrios, injustiças, frenesis e quimeras. E ante a pergunta de se "um outro mundo é possível", tem uma resposta que é corolário da Fé.

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Uma das sessões plenárias no I Fórum Mundial Social de Porto Alegre

 

Nem Davos nem Porto Alegre, mas Civilização Cristã!

Das tribunas da mídia e dos que se aplicam a modelar a opinião pública, surge a apresentação simplista da realidade, que reduz tudo a uma opção entre duas versões da globalização: a mercantilista e a comuno-anárquica.

De um lado está o partido de Davos, reunindo os que desejam estender ainda mais uma globalização capitalista impulsionada a partir da cúpula financeira internacional, que sonha com a utopia de um mundo extasiado nas delícias da vida; de outro lado está o partido de Porto Alegre, aparentemente sem centro motor, exigindo uma globalização sob a ótica dos "excluídos", apetente dos pesadelos em que confluem a miséria, o primitivismo e a degradação moral.

A globalização davosiana encaminharia a sociedade para um "paraíso" técnico de hiper-produção dirigida, transformando o mundo num gigantesco shopping-center, no qual cada indivíduo teria possibilidades ilimitadas de consumo e de prazer. E a globalização porto-alegrense levar-nos-ia ao "paraíso" das pequenas comunidades rurais à maneira de tribos indígenas, de vida frugal num regime de mera subsistência, com longas horas de ócio, sem autoridades nem desigualdades, pois tudo seria decidido por consenso, se não por uma estranha inspiração mística que faz lembrar os pajés e as sibilas.

Em ambas as opções, como denominador comum entre elas, nota-se uma sensualidade desbragada, permitindo e até incentivando todo prazer sexual, natural ou contra a natureza, como a proclamar, por sua linguagem brutal e degradante, que os direitos do homem são os direitos da carne.

Tudo nos é apresentado como se, no mundo atual, não houvesse lugar para outra alternativa senão a de seguir uma dessas duas formas de globalização, aparentemente antagônicas, mas que na verdade reduzem-se a prometer uma pseudo-felicidade puramente material e terrena, em oposição à Lei de Deus.

 

A um católico autêntico, colocado diante desse dilema, o que dizer?

Em primeiro lugar, que é uma falsa alternativa, pois o Evangelho, divinamente interpretado pela doutrina tradicional da Igreja, convida o homem, sob o influxo da graça, a aperfeiçoar a si próprio e a natureza, a desenvolver a cultura e a civilização, a ciência e a tecnologia, caminhando nas vias do progresso. Um progresso que não é única nem predominantemente material, mas progresso em que a alma humana, mais ainda do que o corpo, encontra seu bem-estar na prática das virtudes cristãs, e que concebe a vida nesta Terra como um estágio de prova para alcançar a vida eterna no Céu.

A sociedade humana, assim entendida como um reflexo imperfeito — mas real e imensamente atraente, e nunca frustrante — do convívio celeste, é o que de mais próprio pode haver para aquietar e satisfazer, tanto quanto é possível nesta vida, as aspirações dos homens, vistos na reta ordenação de seu ser.

Exemplo histórico de um esplêndido início de progresso nessa direção foi a Civilização Cristã medieval, tão elogiada pelos Papas14, que tornou a Europa o continente líder do mundo, e cujo caminhar se viu infelizmente truncado pelo processo revolucionário, mas da qual ainda hoje subsistem restos esplendorosos.

 

A Civilização Cristã é possível e desejável

Assim, o verdadeiro caminho para melhorar as condições de vida dos necessitados, como para ordenar toda a sociedade, não está em "revoluções pseudo-messiânicas" que visam, na verdade, implantar um igualitarismo desumano e antinatural, com a desculpa de acabar com a pobreza: "Pobres, sempre os tereis entre vós" (Jo 12,8), disse Nosso Senhor increpando Judas.

Tal melhoria das condições de vida dos necessitados é altamente desejável e deve ser procurada. Mas ela só é obtenível por meio de uma verdadeira evangelização cristã, como a realizada por muitos Santos, bem como através da ação civilizadora da Igreja. É a partir da educação religiosa e moral dos povos que a própria sociedade temporal poderá beneficiar a todos, cada um a seu modo. "Procurai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e o resto vos será dado por acréscimo" (Lc 12,31).

Reencetar essa via é possível neste início de milênio? É como perguntar: este homem, cuja cabeça e cujo coração estão invadidos por um câncer, pode ainda vir a gozar de boa saúde? A resposta só pode ser: se houver meio de extrair totalmente esse câncer, sim; se não houver meio, não. Os que procuram, na sociedade atual, encontrar solução na promoção de regimes neopagãos — sem cortar, e até estimulando o câncer revolucionário anticristão — assemelham-se aos que crêem ser possível curar o doente grave com antidepressivos, ou diretamente com veneno.

A pergunta então se desloca, e não se pode recuar diante dela: é possível ainda extrair o câncer revolucionário da sociedade atual? Ou o grau de expansão do mal já é de tal monta, que o doente está desenganado?

Se considerarmos a sociedade como trabalhada unicamente por mãos humanas, não há solução possível. A podridão foi longe demais! Estamos chegando já ao caos, à falta de lógica e de razão, tanto nas atividades públicas quanto nas dos particulares, em meio às ruínas do edifício da Civilização Cristã, e tendo como espectadores populações aturdidas e inertes.

Mas se tivermos em vista o fato de a Providência Divina nunca abandonar os que a Ela recorrem confiantes e filialmente, e que a ação sobrenatural pode fazer-se sentir em profundidades insuspeitadas, não só das almas individualmente consideradas, como também do tecido social, então todas as esperanças são possíveis.

Esperanças que, em nenhum momento, autorizam-nos a cruzar os braços ou cessar a luta, pois Deus não ajuda os preguiçosos; pelo contrário, a vitória é concedida aos que batalham valorosamente.

*Os autores do mencionado ensaio são: Gregorio Vivanco Lopes, colaborador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade _ TFP, e José Antonio Ureta, pesquisador da Société Française pour la Défense de la Tradition, Famille et Propriété — TFP.


Notas:

1. Revolução e Contra-Revolução, Artpress, São Paulo, 4ª ed., 1992, pp. 156-157.

2. Alocução ao Seminário Lombardo, 7-12-1968.

3. Sermão de 29-12-1972.

4. Cfr. Ignacio Ramonet, ¡Protestatarios del mundo, uníos!, "El País", Madri, 24-6-2001.

5. Cfr. "Le Monde Diplomatique", Paris, janeiro de 2001.

6. Cfr. Sérgio Ferrari, Le Sud fait la fête à Porto Alegre, in "Le Courrier", Genebra, 25-1-2001.

7. Cfr. Sobre la sociedad anarquista, Conversación con Peter Jay, site do sindicato anarquista espanhol CNT.

8. Michael Hardt e Antonio Negri, Império, tradução para o português de Berilo Vargas, Editora Record, Rio-São Paulo, 2001, p. 233.

9. Idem, p. 236.

10. Idem, p. 224.

11. Idem, p. 435.

12. Idem, p. 437. Esta é a frase que conclui a obra Império.

13. São Pio X, Carta Apostólica sobre `Le Sillon'.

14. Cfr. Leão XIII, Encíclica Immortale Dei.

Extraído da Revista Catolicismo, fevereiro de 2002

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