Estudos
Variados
|
|
O aparente conflito Porto Alegre X Davos, análogo ao choque entre classes sociais durante a Revolução Francesa |
|
Benoît Bemelmans "Haveria, de um lado, em Davos, os propagandistas da globalização, e do outro, em Porto Alegre, aqueles que a denunciam" (1); "Uma espécie de `Internacional Rebelde' nasce no Brasil, no mesmo momento em que os novos senhores do mundo encontram-se outra vez em Davos, Suíça" (2). Esse modo de resumir os dois fóruns "pró" e "anti"-globalização pode talvez agradar quem goste de ter diante de si uma opção simples entre um mau, muito mau, e um outro que, se não é bom inteiramente, torna-se objeto de simpatia pelo fato de ser hostilizado pelo lado mau. Tal mentalidade pode ser encontrada tanto entre os que consideram "os novos Senhores do Mundo" como sendo os maus, quanto entre os que vêem a "Internacional Rebelde" como a ameaça. Nos dois casos, o outro lado torna-se, no mínimo, um mal menor, ou até um aliado a defender.
Essa tese - os dois fóruns constituem duas pernas que conduzem ao mesmo fim - é exposta de modo bem significativo no "Diário do Grande ABC", de Santo André (SP), edição de 29 de janeiro último, em artigo intitulado Antagonismo aparente, cujo subtítulo ainda reforça o próprio título: Fóruns mundiais de Davos e Porto Alegre aproximam opostos.
Os "anti" querem também a globalização, só que à moda deles... Do lado dos "anti-globalização" - cujas metas e objetivos são amplamente documentados pelos dois artigos publicados sobre o tema, nesta edição - aparece, em numerosas declarações, o quanto o rótulo mediático, e à primeira vista simpático, de "anti-globalização" não corresponde à realidade. A esse propósito convém aduzir aqui alguns significativos comentários veiculados pela imprensa francesa: O Fórum de Porto Alegre pretende "apresentar propostas teóricas e práticas que permitam visualizar uma globalização de novo tipo", "numa iniciativa que não pode deixar de ser qualificada como revolucionária"; e "o Fórum Social Mundial irá tentar lançar os alicerces de uma outra globalização", tanto mais quanto "as preocupações com os direitos humanos também são temas globais" (4). O Ministro francês do Comércio Exterior, François Huwart, presente em Porto Alegre, declarou querer defender a visão do governo socialista "de uma globalização equânime e solidária"; e que se tivesse ido para Davos, ali "defenderia com a mesma determinação a visão de uma globalização solidária" (5). Segundo outro analista, a disputa se dá "entre os dois grandes modelos da chamada globalização" e Porto Alegre visa "promover uma globalização, com imagem humana" (6). Não se trata de eliminar as instituições supranacionais, mas de fazer que esses motores da globalização adotem os critérios que permitirão a construção de uma "nova sociedade"; assim, por exemplo, o Fórum Social Mundial "pretende também levantar alternativas às políticas do FMI e do Banco Mundial e encaminhá-las à reunião de abril do FMI, em Washington" (7); ainda, na mesma linha, "o diretor nacional da ONG ATTAC, do Rio de Janeiro, Carlos Tibúrcio, diz que o Fórum ambiciona a construção progressiva de um `contra-poder planetário'" (8). Enfim, Bernard Cassen, diretor do "Le Monde diplomatique", participante do Fórum de Porto Alegre enquanto dirigente da ATTAC, aponta: "A anti-globalização segue em frente, porque adota a mesma lógica da globalização". E acrescenta: "Trata-se, portanto, de uma frente unitária, um novo internacionalismo que, progressivamente .... vai se firmando em escala mundial" (9) . Os "novos Mestres do Mundo" confessam: "encorajados" pelos "anti-globalização", trabalham para a mesma causa De outro lado, vêm se multiplicando declarações de dirigentes de instituições mundiais no sentido de que a oposição os ajuda a caminhar, devendo a resultante do confronto constituir a direção a ser tomada. Assim, Rubens Ricupero, Secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento convidou, de Oslo, os oponentes à globalização a reformá-la `de dentro', em vez de enfrentá-la: "Do mesmo modo que a social-democracia se resignou a trabalhar de dentro do sistema capitalista e de melhorá-lo, creio que é possível reformar a globalização sem rejeitá-la inteiramente". Ricupero declarou-se "encorajado" pelos movimentos de contestação (10). O ex-Diretor-geral adjunto do FMI, Stanley Fischer, "admitiu, no seminário anual do Banco Central americano, realizado em agosto de 2000, em Kansas City, que muitos dos ataques desfechados por adversários da globalização contra os governos, as grandes empresas e as instituições internacionais são justificáveis" (11). "Mark Malloch e John Ruggie, ambos representando a ONU em Davos, disseram que a organização trabalha por algumas das mesmas causas da outra mesa, e lembraram que a proposta da taxa Tobin e os dados sobre desigualdade na economia mundial saíram de dentro da própria ONU" (12). Até o Diretor-geral do Fórum de Davos, Claude Smajda, "lembrou já ter advertido há muito tempo, citando artigo publicado pelo `Herald Tribune', para `os perigos de um excesso da globalização'" (13), expressão esta parecida com os slogans de Porto Alegre. Enfim, o Presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, disse que as manifestações de protesto contra a globalização econômica, iniciadas em Seattle em 1999, estão tendo um impacto positivo nas discussões sobre os efeitos da atual estrutura da economia mundial. `Essas manifestações estão incluindo na agenda temas importantes e, além disso, é preciso haver mais diálogo' acrescentou Wolfensohn, que participou ontem de um seminário sobre o tema no Fórum Econômico Mundial, em Davos (14). "E o próprio Alan Greenspan, Presidente do Banco Central norte-americano (Federal Reserve), chegou a afirmar: `As sociedades não podem ser bem-sucedidas quando setores significativos entendem o seu funcionamento como injusto'" (15) .
Repetição de um embate de superfície ocorrido 280 anos atrás? Tendo em vista o estabelecimento de uma República Universal igualitária, denunciada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em sua obra-mestra Revolução e Contra-Revolução, o confronto entre os chamados anti e pró-globalização parece ter um precedente histórico: o embate, na França de 1789, que opôs os jacobinos sedentos de sangue nos Estados Gerais, à nobreza e ao Clero, classes estas já então bastante minadas pelas idéias revolucionárias. Muitas cabeças de nobres, clérigos e jacobinos foram cortadas, mas a resultante das duas correntes, que não se opunham verdadeiramente quanto ao objetivo último, foi a vitória da Revolução Francesa. Convém ainda lembrar que, em essência, a História hoje se repete, embora variem dados acidentais - os protagonistas, os lugares e as circunstâncias... Notas: |
|
|
1) Introdução:
Porto Alegre - Davos: Cidades-símbolo da
manobra anti-Civilização Cristã |
|
| Extraído da Revista Catolicismo de Março/2001 | |
|
Voltar à Seção de
Estudos
Variados
|