Frederico R. de Abranches Viotti
Apresentação
Este trabalho consiste em uma pequena narração de hábitos
comuns no período histórico conhecido como Ancien Régime
(Antigo Regime), período da França anterior à Revolução
Francesa.
Durante alguns séculos, esses fatos foram sistematicamente
omitidos pela historiografia oficial, influenciada profundamente pelos
princípios e justificativas da Revolução Francesa.
Exporemos textos de historiadores atuais, tanto franceses como
de outras nacionalidades, descrevendo a vida quotidiana no interior da
França.
Esses textos mostrarão um lado desconhecido de um período
marcado pelo absolutismo dos Reis. Absolutismo esse, diga-se de passagem,
muito menor do que buscaram alegar os arautos da revolução
de 1789.
É sabido que o poder do Rei, mesmo no ápice do
absolutismo, era profundamente limitado pelos diversos "privilégios"
(leis privadas) do sistema feudal, baseadas no direito consuetudinário.
Sendo, portanto, necessário desfazer alguns preconceitos
históricos em relação ao Ancien Régime, transcreveremos,
como introdução, alguns estudos recentes sobre a realidade
social, econômica e política da França do século
XVIII.
Entretanto, não pretendemos - e nem é o objetivo
deste trabalho - traçar um quadro completo sobre o período
histórico marcado pela Revolução Francesa.
Nosso objetivo é apenas o de expor, resumidamente, alguns
tópicos da realidade viva da França daquela época.
Essa realidade, nós a buscamos em memórias, biografias, cadernos
de viagens, cartas familiares, etc.
Introdução
A) A Revolução Francesa
Laicidade do Estado, soberania popular, direitos humanos, "Liberdade
- Igualdade - Fraternidade": 1789 assinala o início da Revolução
Francesa, cujos princípios doutrinários definiriam os rumos
do Ocidente nos séculos XIX e XX .
Há duzentos anos, sua história vem sendo escrita
e interpretada segundo o prisma das mais diversas correntes ideológicas,
cuja a discussão sistemática não interessa a este
trabalho. Entretanto, para que se possa fazer uma análise mais consistente
do que foi a Revolução Francesa, seguem-se alguns trechos
de historiadores recentes retratando a época anterior à revolução,
chamada de Ancien Régime.
B) O Desconhecido Ancien Régime
Esta descrição viva e penetrante é de Henri
Robert, da Academia Francesa:
"[Quem lê as memórias dessa
época] não pode defender-se de um pesar furtivo por não
ter conhecido, e compreende melhor, então, toda a inefável
melancolia desta frase do Príncipe de Talleyrand: "Não conhece
a doçura de viver, quem não viveu na França antes
de 1789!"
É que nunca, efetivamente, a sua
sedução fora tão viva, o seu encanto mais fascinador,
o seu prestígio mais incontestado.
Paris era verdadeiramente a capital da
humanidade civilizada. ... Quanto a Nova-York, não era então
mais do que um mercado de madeira, sebo e alcatrão.
A língua francesa não só
era adotada por todas as nações como a língua oficial
internacional dos tratados, como também era conhecida e falada pela
aristocracia de todas as capitais da Europa, de modo que um francês
se sentia como em sua casa em Haia, em Viena, em Berlim ou em São
Petersburgo.
O luxo e a elegância nunca tinham
atingido um nível tão alto."
Mesmo em relação à fartura, que os revolucionários
dizem que não havia, seguem transcritos alguns trechos do relato
do Dr. Poumiès de la Siboutie, médico em Paris, simpatizante
de revolucionários fanáticos, como dos jacobinos que votaram
a morte de Luís XVI.
Por toda parte reinava a ordem....
A grande habilidade dos senhores das casas
consistia em consumir no seu meio e na família os produtos da terra,
e em comprar o menos possível os objetos do consumo. (...)
A vida simples e afanosa desse tempo tinha,
outrossim, seus prazeres, suas diversões. Em cada casa burguesa
era praxe reunir três ou quatro vezes por ano os vizinhos à
sua mesa. Daí que acabavam por ocorrer duas ou três reuniões
dessas por mês. O almoço era servido precisamente ao meio-dia.
Mas que almoços! (...) Contei na
mesa nove travessas de assado, no segundo serviço, de carnes do
matadouro, de caças e aves. (...) Bebia-se vinho da casa, e do melhor,
que fora posto em reserva nos bons anos. (...) A sobremesa se compunha
de frutas, conservas e doces. E assim dava-se um belo e bom almoço
sem ter que recorrer à cidade. Tudo fora produzido na propriedade.
Saiam da mesa às três da tarde...".
Alguns poderiam dizer, erradamente, que esse relato se refere
apenas àquela minoria de grandes burgueses possuidores de propriedades
rurais. Ao contrário do que se espalhou pelo mundo, dados da historiografia
moderna, informa Florin Aftalion, PhD em Economia Financeira pela Universidade
de Northwestern, indicam que "os camponeses (...) possuíam quase
40% das terras (contando 5% dos bens comunais). O restante do solo pertencia
à nobreza (25%), ao clero (10%) e à parte rica da burguesia (25%)."
Da mesma forma comenta o conceituado historiador e jornalista
René Sedillot:
"Os nobres não eram mais proprietários
senão de um quinto (avaliação de Albert Soboul), com
grandes variações regionais. (...) As propriedades nobres
cobriam, em média, 150 hectares (avaliação de Ernest
Labrousse)."
Segundo François Bluche, professor na Universidade de
Paris-Nanterre, "A França de 1774 e de 1789 era o país
mais opulento que existia no mundo".
O regime corporativo - pondera o renomado historiador Pierre
Gaxotte, da Academia Francesa: "muito menos opressivo e muito menos generalizado do que se tem
dito, não impedira o aparecimento da indústria nem se opusera
a que ela ocupasse o devido lugar."
Diversos são os historiadores que demonstram a inconsistência
das teses históricas dos revolucionários; entretanto, a narração
que se segue se sobressai às demais. Diz ela respeito aos "cahiers",
relatórios que todas as paróquias de França foram
autorizadas a redigir em 1789, para expor a el-Rei suas necessidades e
formular seus desejos de reformas.
Delas - papeleira imensa que se tem hoje o prazer de exumar,
erguem-se, de fato, lamentações e gritos de angústia
capazes de arrancar uma lágrima aos olhos mais endurecidos. É
o que propriamente se chama: "história oficial".
Com efeito, destacado pela Assembléia, o Conde Beugnot
examinou atentamente esses "cahiers" ....
"Todos, escreve ele, tinham sido
copiados de modelos impressos e em circulação. O escriba
local apenas fazia alguns acréscimos, que contrastava extravagantemente
com o resto. Assim, depois de exigirem a separação dos poderes
legislativo, executivo e judiciário, a liberdade de imprensa, o
julgamento por júri, a abolição da servidão,
"les habitants" insistiam para que seus cães fossem libertos do
"billot", espécie de trave pesada que, por ordem dos senhores, eram
dependurados no pescoço desses bichos a fim de impedi-los de caçar
lebres. Solicitavam a permissão de conservar fuzis em suas casas
para poderem defender-se contra os lobos".
Mas o mais surpreendente nos revela François-Yves Besnard,
cura da paróquia de Nouans. Bem colocado para conhecer a miséria
de seu rebanho, ele a descreveu, no relatório ao Rei, da seguinte
forma:
"Nouans, expõe o ‘cahier’, contém
mais ou menos 150 famílias. Uma parte é tão pobre
que não consegue senão com dificuldade os mais parcos meios
de subsistência. A outra, exceção feita de três
ou quatro famílias cuja abastança não oferece nada
de especial, mantém-se por seu trabalho e sua economia".
Seguem-se as recriminações contra a milícia,
os impostos, o preço alto do fumo, as corvéias, etc...
Alguns meses mais tarde, entusiasmado com as novas idéias,
Fraçois-Yves Besnard renúncia ao sacerdócio - o que
o torna insuspeito de exageradamente indulgente para com o "Ancien Régime".
Ora, nos "Souvenirs"
[memórias] de sua longa vida, Yves Besnard
nos apresenta, de sua paróquia, um retrato de todo em todo diferente
daquele que em outros tempos endereçara "à Messieurs des
États Généraux".
Conta-nos que, chegando a Nouans, observou surpreso: pomares
com árvores frutíferas, hortas, campos com trigo, com cânhamo,
com feijões, com trevo, e bois e cavalos pastando "com erva até
o ventre". Nenhuma nesga de terra vazia. As casas não eram confortáveis,
mas os terreiros estavam bem povoados. Qualquer pequena propriedade contava
comumente seis bois de serviço, seis vacas leiteiras, seis novilhas,
seis touros, duas éguas para criação, sessenta ou
setenta carneiros e quatro ou cinco porcos...
A alimentação dos campônios, mesmo a dos
menos abastados, era "substancial e abundante". O pão, muito
bom. E a cidra não faltava a ninguém.
"No almoço e no jantar, após
a sopa, seguia-se um prato de carne ou de ovos ou de legumes. No desjejum
e na colação, havia sempre queijo, manteiga e, freqüentemente,
frutos crus ou cozidos. Em mesas recobertas com toalhas, cada conviva,
munido de um prato, de um garfo, e de uma colher, servia-se à vontade".
(...)
Eis um exemplo da contradição entre a história
real e a história revolucionária.
Pouco difundido, também, é o movimento popular
que teve origem na Vandéia, região noroeste da França,
em que camponeses, chamados de "Chouans", pegaram em armas contra
a I República, em 1793, a favor do "Antigo Regime".
Vie de Mon Père
Retif de la Bretonne, camponês, deixou-nos um retrato indelével
de um desses interiores franceses de outrora, ricos de conteúdo
metafísico, que constituirão para sempre uma glória
da França e um encanto para os espíritos isentos de preconceitos.
A) Uma Refeição em Família
Retif de la Bretonne, em sua "Vie de Mon Père",
conta-nos que sua família era da vila de Nitri, "dans le Tonnerrois",
na Borgonha.
"Todas as noites, no jantar, meu pai, como
velho patriarca, presidia à mesa de uma casa numerosa. Uma só
mesa e vinte e duas pessoas. Numa ponta, junto ao fogo, meu pai. A seu
lado, minha mãe, sempre ao alcance dos pratos a servir, porque nessa
hora quem se ocupava da cozinha era só ela. Depois vinham os filhos
da casa, segundo a idade. Em seguida, o mais velho dos empregados, o empregado
da charrua e seus auxiliares. E, sucessivamente, os vinhateiros, o vaqueiro
e o pastor. Por fim, as duas criadas, de frente para sua senhora, fechavam
a mesa. Todos comiam o mesmo pão. O pai bebia vinho velho; a mãe
e as crianças, água; os criados um vinho que lhes parecia
bem melhor do que o de seu senhor... Terminado o jantar, o pai levantava-se,
tomava a Sagrada Escritura e lia três ou quatro capítulos,
que, comentados curta e pouco freqüentemente, constituíam assunto
de conversa para o outro dia. Logo após, o catecismo. Se era inverno,
como as noites são longas, o pai contava histórias antigas
ou modernas, fazendo entrar a propósito as mais belas sentenças
dos Antigos. Feita a oração em comum, todos iam deitar-se
em silêncio, porque, depois da oração, o riso e as
conversas em voz alta eram severamente proibidos".
É importante notar que os empregados comem junto com os
patrões. Pouco conhecida é, atualmente, a origem da expressão
"criada" para designar a empregada doméstica ou similar. Trata-se,
entretanto, de uma expressão surgida naturalmente, pois a empregada
era criada pela família e era como que mais uma da casa.
Esse patriarca, que se assentava assim à frente dessa
numerosa mesa de que nos conta Rétif de la Bretonne, chamava-se
Edme e era filho único de Pedro, outro camponês, homem autoritário,
severo e distante.
B) Um Chicote
Certo dia, muito de manhã, quando Edme já estava
pronto para partir a cavalo para o trabalho com a charrua, Pedro, seu pai,
aproximou-se e disse-lhe.
- Dá-me teu chicote!
- Ei-lo, meu pai!
E três vergastadas cortaram em três lugares a camisa
e as carnes de Edme até o sangue. À noite, de volta, a mãe
perguntou-lhe o que era aquilo.
- Não é nada, minha mãe!
Mas ela soube-o pelos agregados. Edme conversara três vezes
com uma jovem da paróquia sem a permissão do pai. Todavia,
compadecida porque o filho era um modelo de correção, não
resistiu de dizer ao marido:
- Como é que você foi fazer aquilo?
Ele, virando o rosto, respondeu:
- É assim que eu trato os apaixonados!
O filho de Pedro não se descuidava de nada. Assim que
a mãe terminou de curá-lo, tomou uma enxada e distraídamente
se pôs a limpar o jardim. Pelas tantas, percebeu o pai que, sem o
ver, enxugava lágrimas encostado a uma árvore. Edme aproximou-se,
ajoelhou-se e disse-lhe:
- Ah! Meu pai, eu lhe custo lágrimas ! Mas eu sei que
me amais e isto me faz feliz!
A um gesto do pai, levantou-se e continuou o trabalho. Pedro,
que nunca tinha usado a expressão "meu filho", nem nunca arrancara
uma erva do jardim, nem jamais lhe dera uma enxada desde que tivera alguém
em idade de o fazer, achegou-se e pegou a enxada de Edme, dizendo:
- Meu filho, é trabalho demais para um dia! Vá
repousar, eu acabo o serviço!
De longe, maravilhados, todos presenciavam a cena: os criados,
as filhas, a mulher. Esta, comovida, não se conteve:
- Ah! É um bom pai! É um bom pai! Eu sempre lhes
disse!
C) O Casamento de Edme
De acordo com o costume do interior, segundo o qual pelo menos
uma vez na vida se devia ir à Paris, Edme, obedecendo ao pai, aprontou
sua mala de couro de cabra, e partiu a pé. Dois anos depois recebeu
uma carta. O pai mandava lhe dizer que estava às portas da morte.
Edme acorre. Era uma esperteza. Antes de chegar em casa, um amigo o conduziu
a uma propriedade vizinha. O pai estava lá.
- Meu filho, eu recebi a tua carta pedindo-me autorização
de casamento. As moças de Paris são vivas. Eu temi por ti.
Aqui estão as filhas do Sr. Dondaine. Escolhe uma. O casamento deverá
ser dentro de três dias.
- Eu teria vergonha de ser pai, se neste passo tão decisivo
eu não lhe obedecesse...
- E saindo da casa do Sr. Dondaine, continuaram a conversa. O
pai:
- O camponês é um dos homens mais excelentes...
- E é nessa classe tão preciosa, tão querida
dos bons reis, meu pai, que eu quero viver e morrer.
- Fica, pois, aqui, meu filho. Aqui tudo está cheio de
nós, tudo te lembrará a nossa honra. Teu avô era conhecido
como "O homem justo". Lá na cidade, perdida no meio do populacho
(populace), o que será de nossa descendência? ... Uma das
artes mais dignas do homem é a agricultura... Fiquemos, pois, na
fonte. Ela é mais pura que o rio.
Três dias depois, Pedro morria. Edme, para testemunhar-lhe
sua obediência, casou-se diante do seu corpo.
D) Meu pai era para mim a imagem viva de meu Deus
As palavras de Edme a seus descendentes: "Sem aquelas vergastadas
eu me teria libertado como tantos outros. Meu pai cortou o mal pela raiz.
O vigor tinha sido necessário porque meu apego já ia longe..."
Essas palavras explicam bem a aceitação humilde
do castigo merecido. Mas elas já não explicam que ele obedecesse
tão forte, pronta e respeitosamente à ordem de casar-se que
lhe dera o pai, quando é sabido que a parisiense tinha maior dote,
alguma ilustração e lhe agradava imensamente mais que a filha
desgraciosa do Sr. Dondaine. Sobretudo, não explicam aquelas palavras
de sua mãe! "- Ah! É um bom pai! É um bom pai!
Eu sempre lhes disse!", quando ela mesma padecia as conseqüências
dos defeitos dele e até de suas infidelidades.
Embrutecimento de camponês?
Não! Inteligência profunda, que sabia transcender
as aparências e penetrar as verdadeiras realidades das coisas. Prova-o
esta afirmação de Edme:
"- Meu pai era para mim a imagem viva de meu Deus".
Aqui termina a narração de um trecho do livro de
Retif de la Bretonne, "Vie de Mon Père", que julgamos interessante
transcrever pela sua riqueza em expressar, de forma palpável, a
mentalidade e a cultura de uma época histórica.
Conclusão
"Reportar todas as coisas deste mundo para um mundo que nós
não vemos; perceber as relações secretas das coisas
visíveis com as coisas invisíveis; ver nas realidades inferiores
o espelho de realidades superiores; distinguir nos seres, nas situações,
"símbolos e encarnações de princípios eternos
e brilhantes"; admirar na natureza e na sociedade "un grand et magnifique
spectacle d’apparences"; explicar e julgar tudo de acordo com essa
impostação, e, finalmente, construir, edificar e, até,
destruir segundo ela, com muito equilíbrio, com muito senso de harmonia,
era um espírito, um sangue, uma vida que, em maior ou menor proporção,
de um modo mais profundo ou menos profundo, percorriam de alto a baixo
o corpo da velha frança."
Deste enfoque metafísico brotaram os matizes monárquicos
e aristocráticos do espírito francês, que produziram
esta "féerie" arquetípica e civilizadora.
Na perspectiva deste trabalho, a realidade da França,
muito mais do que fruto de fatores econômicos, sociais ou políticos,
foi marcada por esse espírito metafísico, por essa realidade
cultural profunda, que buscava transparecer, na sociedade, aquilo existia
na alma francesa.
Apesar dos detratores do Antigo Regime ocultarem essa realidade
profunda em que se manifesta todo um modo de ser e de viver, a memória
dessa época subsiste e subsistirá, consignada que está
em inúmeros documentos que nem os revolucionários - e nem
o tempo - conseguiram sepultar nas sombras do esquecimento.
Ainda há muito o que se estudar e o que se escrever. Todavia,
já foi feito o mais difícil, isto é, enfrentar a história
contada pela Revolução Francesa, implantada sobre o sangue
de Maria Antonieta e Luiz XVI!
Obs: As notas de rodapé
e a Bibliografia encontram-se no arquivo franca.doc,
para download
- Para pegar o arquivo franca.doc em formato zip (14,9 Kb), click
aqui