Terceira
parte do Segredo de Fátima:
visão
profética, angustiante de início,
que termina numa imagem de esperança
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Na edição anterior, Catolicismo noticiou a divulgação da terceira parte do Segredo de Fátima e forneceu aos leitores o texto completo das três partes do referido Segredo. Em cumprimento da promessa de um comentário sobre a parte ora divulgada, publicamos aqui substanciosa apreciação redigida pelo fatimólogo Antonio Augusto Borelli Machado, autor do best-seller As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia, publicado em 18 línguas e perfazendo o impressionante total de 3,7 milhões de exemplares. |
Antonio
Augusto Borelli Machado
Entre
os grandes acontecimentos já ocorridos ou por ocorrer neste ano de 2000, ocupará
certamente um lugar ímpar a revelação da terceira parte do Segredo de Fátima
feita pela Santa Sé, com grande aparato publicitário, no último dia 26 de
junho, na Sala Stampa do Vaticano. A sessão, presidida pelo próprio
Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé,
acompanhado de Mons. Tarcisio Bertone, Arcebispo-emérito de Vercelli e Secretário
da mesma Congregação, foi
retransmitida ao vivo pela rede de TV estatal italiana e outras emissoras de TV
de todo o mundo.
O
documento divulgado pela Santa Sé se intitula A mensagem de Fátima e reúne
diversas peças da maior importância, entre as quais um Comentário teológico,
feito e assinado pelo Cardeal Ratzinger, contendo uma explanação sintética
sobre o “lugar teológico” da revelação pública e das revelações
privadas na Igreja, seguido de “uma tentativa de interpretação do
‘segredo’ de Fátima”.
Na
conferência de imprensa da Sala Stampa, o Cardeal Ratzinger foi enfático
ao afirmar que de forma alguma a Santa Sé pretendia impor essa interpretação,
pelo que se deduz estar facultado aos estudiosos tentar aprofundá-la ou mesmo
oferecer novas perspectivas de interpretação. Com quanta prudência e modéstia
devem fazê-lo, é supérfluo encarecer.
De
nossa parte, é o que despretensiosamente procuraremos encetar em seguida,
aduzindo conceitos da espiritualidade montfortiana (de São Luís Maria Grignion
de Montfort), tão afins com a Mensagem de Fátima, bem como enriquecimentos
desses conceitos produzidos pelo eminente pensador e homem de ação católico,
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, falecido em 1995. Excertos de dois artigos
seus publicados em Catolicismo (de maio de 1953 e fevereiro de
1958, respectivamente) e que também transcrevemos aqui, constituem autênticas
glosas do terceiro Segredo, feitas com mais de quatro décadas de antecedência!
Para
maior facilidade de compreensão, intercalamos subtítulos no texto da terceira
parte do Segredo, que extraímos do referido documento apresentado pela Sagrada
Congregação da Doutrina da Fé. Os números colocados depois de cada subdivisão
remetem para os Nossos comentários logo abaixo.
*
* *
Terceira parte do segredo:
Visão profética de um castigo iminente,
de uma catástrofe imensa
e do grande retorno das almas a Deus
“J.M.J.
A terceira parte do
segredo revelado a 13 de Julho de 1917 na Cova da Iria — Fátima.
Escrevo em acto de
obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia Rev.ma o
Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe (1).
Primeira cena: A ameaça de castigo que pende sobre o mundo
Depois das duas
partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto
um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas
que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que
da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão
direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência,
Penitência! (2).
Segunda cena: Uma pavorosa catástrofe
que deixa o mundo
meio em ruínas e produz vítimas em todas as categorias sociais,
inclusive e maximamente o Santo
Padre, o Papa
E vimos n'uma luz
emensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho
quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o
pressentimento de que era o Santo Padre”. Varios outros Bispos, Sacerdotes,
religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma
grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo
Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio
trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas
dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado
de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe
dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros
os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares,
cavalheiros e senhoras de varias classes e posições (3).
Terceira cena: O Grande Retorno da humanidade a Deus
Sob
os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em
a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que
se aproximavam de Deus (4).
Tuy-3-1-1944”
Comentários
Nossa Senhora aparece à Irmã Lúcia no dia 2 de janeiro de 1944
1.
A Irmã Lúcia
escreve por ordem do Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, e da própria
Mãe de Deus. Em seu livro Novos documentos de Fátima, o Pe. António
Maria Martins S.J. transcreve um documento do acervo do Cônego Sebastião
Martins dos Reis, no qual se lê: “Segundo declarações escritas da Madre
Cunha Mattos, que fora superiora da Irmã Lúcia em Tuy e que recebera as confidências
mais íntimas da Vidente, Nossa Senhora apareceu à religiosa no dia 2 de
janeiro de 1944 e disse-lhe para escrever a terceira parte do Segredo. Essa
aparição deu-se porque a Vidente não sabia o que fazer, dado que o Bispo de
Leiria lhe ordenara que o escrevesse e o Arcebispo de Valladolid, que tomava
conta da diocese de Tuy, lhe dizia que não” (op. cit., Edições Loyola,
São Paulo, 1984, pp. XXV-XXVI).
O estado de afastamento da humanidade em relação a Deus
é merecedor de um castigo supremo
2.
“A Irmã Lúcia
concorda com a interpretação segundo a qual a terceira parte do ‘segredo’
consiste numa visão profética, comparável às da história sagrada”,
afirma Mons.
Bertone no relatório que fez do colóquio com a vidente em 27 de abril de 2000.
A visão se divide em
três cenas esquematicamente distintas, mas que se articulam de modo muito
coerente e profundo. Na primeira cena, como observa o Cardeal Ratzinger em seu Comentário
teológico, “o anjo com a espada de fogo à esquerda da Mãe de Deus
lembra imagens análogas do Apocalipse: ele representa a ameaça do juízo
que pende sobre o mundo”.
O Anjo — narra a
Irmã Lúcia — com o cintilar de sua espada “despedia chamas que,
parecia, iam incendiar o mundo”. É óbvio que o Anjo não iria executar
essa ação por decisão própria, mas havia recebido ordens de Deus para isso.
De onde se deduz facilmente que o mundo está numa situação espiritual e moral
tal que mereceria ser castigado por Deus por essa forma. E, ao que parece,
tratar-se-ia de uma destruição total. Assim o interpreta o Cardeal Ratzinger: “A
possibilidade que este [o mundo] acabe reduzido a cinzas num mar de
chamas, hoje já não aparece de forma alguma como pura fantasia: o próprio
homem preparou, com suas invenções, a espada de fogo”.
O
primeiro ponto a reter, portanto, é que a humanidade está de tal maneira
afastada de Deus e de sua Igreja — o que se manifesta claramente por uma
recusa teórica e/ou prática de sua Doutrina e de sua Moral — que isto
implica num ato de rebelião contra Deus, merecedor de um castigo supremo. É
fundamental frisar tal conclusão, pois muitos católicos de hoje, inclusive de
grande projeção, pensam, falam e se comportam como se a situação atual do
mundo não fosse essa.
Entretanto, Nossa
Senhora intervém, e obtém de Deus que o Anjo não leve a ação ao seu termo
normal, que seria a destruição do mundo. As chamas lançadas pelo Anjo em direção
à Terra “apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia
Nossa Senhora ao seu encontro” — descreve a Irmã Lúcia. O que
significa que Nossa Senhora tem desígnios de misericórdia em relação ao
mundo, e quer dar a este uma oportunidade de salvação. Mas para isto é
preciso que a humanidade reconheça o seu pecado e
faça penitência. Por isso, no quadro final dessa cena, “o Anjo,
apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência,
Penitência, Penitência!”.
O fato de o Anjo
clamar “com voz forte” e repetir o brado de “Penitência”
por três vezes indica que não se trata de uma penitência feita com
superficialidade de espírito, mas de uma penitência séria, que implique numa
conversão profunda. O que, mais uma vez, denota a gravidade do estado de
afastamento de Deus em que a humanidade se encontra.
A primeira cena é,
pois, de uma coerência perfeita.
Uma cena que não seria exagerado qualificar de “apocalíptica”
3.
O mundo aparece
agora semidestruído (“uma grande cidade meio em ruínas”). É forçoso
concluir que a intervenção de Nossa Senhora impediu uma destruição total,
porém não uma destruição parcial. Os homens obviamente não fizeram a penitência
necessária: o castigo desencadeou-se.
Personagem central
dessa cena é o Santo Padre que, com “vários outros Bispos, Sacerdotes,
religiosos e religiosas”, vai subindo “uma escabrosa [pedregosa,
íngreme] montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos
toscos”. Porém, antes de aí chegar, o Papa atravessa “uma grande
cidade meio em ruínas, e meio trêmulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor
e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho”. O
Cardeal Ratzinger comenta: “O Papa parece caminhar à frente dos outros,
tremendo e sofrendo por todos os horrores que o circundam. E não são apenas as
casas da cidade que jazem meio em ruínas; o seu caminho é ladeado pelos cadáveres
dos mortos”. A cena é, pois, de uma catástrofe espantosa.
Não seria exagerado
qualificá-la de apocalíptica, como apocalíptico é o Anjo que a
desencadeou (ressalvado sempre que não se trata do fim do mundo, como
prudentemente advertiu o Cardeal Ratzinger em seu Comentário teológico).
O que terá ocorrido?
Segundo a interpretação do Purpurado, “nesta imagem, pode-se ver
representada a história de um século inteiro. Tal como os lugares da terra
aparecem sinteticamente representados nas duas imagens da montanha e da cidade e
estão orientados para a cruz, assim também os tempos são apresentados de
forma contraída: na visão, podemos reconhecer o século vinte como século
dos mártires, como século dos sofrimentos e perseguições à Igreja, como o século
das guerras mundiais e de muitas guerras locais”.
Em outras palavras, aquilo que a visão
apresenta como uma cena única, é, na realidade, uma superposição de cenas análogas
de perseguições à Igreja e destruições (guerras) que se escalonam ao longo
do século, e que, infelizmente, estão longe de haver terminado. Basta ter em
mente as perseguições a católicos que ocorrem nos próprios dias de hoje, em
diversas partes do mundo, e os numerosos conflitos ainda existentes entre povos
e nações.
Essa mesma superposição
de cenas, o Cardeal Ratzinger distingue na árdua subida da montanha, onde “podemos
sem dúvida ver figurados conjuntamente diversos Papas, começando de Pio X até
ao Papa atual, que partilharam os sofrimentos deste século e se esforçaram por
avançar, no meio deles, pelo caminho que leva à cruz. Na visão, também o
Papa é morto na estrada dos mártires”.
E acrescenta: “Não
era razoável que o Santo Padre, quando, depois do atentado de 13 de maio de
1981, mandou trazer o texto da terceira parte do ‘segredo’, tivesse lá
identificado o seu próprio destino?”
Se bem que tal
correlação do terceiro Segredo com o atentado a João Paulo II não tenha
alcançado unanimidade nos meios católicos, ela não pode deixar de ser
mencionada respeitosamente aqui. Alguns, sem excluir essa hipótese
— de que o atentado esteja no contexto das perseguições à Igreja
simbolizadas pela visão — preferem ver na imagem do “Bispo vestido de
branco” mais um símbolo dos diversos Papas, do que de uma pessoa em
particular, como declarou, por exemplo, o Bispo de Leiria-Fátima, D. Serafim de
Sousa Ferreira e Silva (cfr. “Corriere della Sera”, 27-6-00). O que, aliás,
é opinião compartilhada pelo próprio Cardeal Ratzinger, no trecho citado
imediatamente acima.
De qualquer modo, a
longa série de martírios descritos no terceiro Segredo — que alcança também
“pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições”
— prossegue em nossos dias, e não se pode excluir que o ódio dos inimigos da
Fé chegue a perpetrar novos atentados de igual ou ainda maior magnitude.
Quais são os agentes
humanos desses atentados e destruições, representados na visão pelo “grupo
de soldados” que “dispararam vários tiros e setas” contra o
Santo Padre e os que o seguem, matando-os uns após outros?
Segundo indicação
da Irmã Lúcia em carta dirigida a João Paulo II em 12 de maio de 1982, a
terceira parte do Segredo deve ser interpretada à luz da segunda parte, e mais
especificamente das palavras: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se
converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo
guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre
terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas”. E ela mesma
comenta: “Porque não temos atendido a este apelo da Mensagem, verificamos
que ela se tem cumprido, a Rússia foi invadindo o mundo com seus erros. E se não
vemos ainda, como fato consumado, o final desta profecia, vemos que para aí
caminhamos a passos largos”.
Ao referir-se pela
primeira vez ao texto do terceiro Segredo, no dia 13 de maio de 2000, o Cardeal
Sodano generaliza o agente humano dessas perseguições para todos os sistemas
ateus do século XX. E o faz com fundamento, pois quer o socialismo, quer o
nazismo são velada ou claramente caudatários dos erros do comunismo, ainda
quando se apresentem como opostos a ele. E, aliás, se projetam, mais ou menos
metamorfoseados, século XXI adentro.
Assim, é todo o
mundo secularizado e amoral de nossos dias — basta pensar no aborto, no amor
livre, na união civil entre homossexuais, que se pretende legalizar por toda
parte, nas investidas contra o direito de propriedade, no igualitarismo mais
radical que recusa até as desigualdades sociais justas, proporcionadas e harmônicas
— é todo esse mundo que está de pé, em revolta contra Deus e a Santa
Igreja.
Cabe, por fim,
perguntar qual é o fruto desses holocaustos passados, presentes e futuros. A
terceira cena da visão nô-lo indica.
“A visão da terceira parte do ‘segredo’, tão angustiante
ao início, termina numa imagem de
esperança”
4.
A profecia de Fátima
só pode ter um ponto final quando a humanidade prevaricadora se reaproximar de
Deus. Mas para que essa volta se torne possível, é indispensável que seja
regada por graças especialíssimas, simbolizadas pelo sangue dos Mártires que
os Anjos derramam sobre as almas que estavam longe de Deus (se se “aproximavam”
é porque estavam longe) e para Ele retornam.
Assim parafraseia o
Cardeal Ratzinger a descrição da Irmã Lúcia: “Anjos recolhem, sob os
braços da cruz, o sangue dos mártires e com ele regam as almas que se
aproximam de Deus. O sangue de Cristo e o sangue dos mártires são vistos aqui
juntos: o sangue dos mártires escorre dos braços da cruz. O seu martírio
realiza-se solidariamente com a paixão de Cristo, identificando-se com ela.
Eles completam em favor do corpo de Cristo o que ainda falta aos seus
sofrimentos (cf. Col 1, 24). .... O sangue dos mártires é semente de cristãos,
disse Tertuliano. .... Deste modo, a visão da terceira parte do
‘segredo’, tão angustiante ao início, termina numa imagem de esperança:
nenhum sofrimento é vão, e precisamente uma Igreja sofredora, uma Igreja dos mártires
torna-se sinal indicador para o homem na sua busca de Deus. .... Do
sofrimento das testemunhas deriva uma força de purificação e renovamento,
porque é a atualização do próprio sofrimento de Cristo e transmite ao tempo
presente a sua eficácia salvífica”.
A terra purificada e
renovada pelo sangue de Mártires autênticos corresponde à noção de Reino
de Maria, do qual falou São Luís Maria Grignion de Montfort em seu célebre
Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem: “Tempo feliz
em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los
plenamente ao império de seu grande e único Jesus .... Ut adveniat regnum tuum,
adveniat regnum Mariae” (nº 217). Noção essa que se compagina
admiravelmente com as também célebres palavras que estão no fecho da segunda
parte do Segredo de Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.
Ou esse triunfo se dá
sobretudo nos corações dos homens — como ressalta São Luís de Montfort —
ou todo o enredo da terceira parte do Segredo fica completamente destituído de
sentido. Pois só com o retorno estável da humanidade a Deus — algo que se
poderia chamar de um Grande Retorno (Grand Retour em francês, noção
que tira sua inspiração de um movimento espiritual na França que tinha como
meta promover o Grand Retour
das almas a Jesus por Maria) — só com
isso será possível que o mundo alcance efetivamente “algum tempo de
paz”, conforme Nossa Senhora prometeu (cfr. texto do segundo Segredo).
“Haec
est dies quam fecit Dominus: exsultemus et laetemur in ea. - Castigans
castigavit me Dominus et morti non tradidit me”. “Este é o dia que fez o
Senhor: exultemos e rejubilemo-nos nesse dia. - Castigando, castigou-me o
Senhor, porém não me entregou à morte” (Salmo 117, 24, 18).
Assim, as
três partes do Segredo hoje conhecidas podem ser vistas como um todo único
que tem como centro a glória de Deus, a exaltação da Santa Madre Igreja e o
bem das almas neste e no outro mundo, como resultado de uma intercessão poderosíssima
do Coração Imaculado de Maria junto ao Coração de seu Divino Filho, Jesus.
A crise da fé — crise da Igreja
Para o pleno esclarecimento da matéria, resta
tratar do delicado problema da crise da fé — crise da Igreja, para o
qual apontava a última frase da segunda parte do Segredo, “Em Portugal se
conservará sempre o Dogma da Fé”.
Esta frase se encerrava, no manuscrito da Irmã Lúcia
(Memórias IV, p. 340), com um etc. ... Ao escrever esta IV Memória, a
Irmã Lúcia declara explicitamente que “excetuando a parte do segredo que
por agora não me é permitido revelar, direi tudo, advertidamente não deixarei
nada” (p. 316). Chegava-se assim facilmente à conclusão de que a
terceira parte do Segredo se inseria precisamente aqui. Feita por fim essa
revelação, no dia 26 de junho de 2000, entende-se que é preciso cancelar esse
etc. ..., substituindo-o por um ponto final.
A frase em questão
deve, pois, ser considerada, salvo ulteriores esclarecimentos, como conclusiva
da segunda parte do Segredo, e não como a frase inicial da terceira parte,
conforme se chegou a pensar. Declarou-o expressamente o Arcebispo Mons. Tarcisio
Bertone, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, na apresentação
do documento na Sala Stampa do Vaticano, na data acima referida.
O que essa frase tem
de interessante é que, colocada desse modo no final do segundo Segredo, ela
parece ficar solta no ar, o que levava os leitores à idéia de que o terceiro
Segredo seria uma explanação dela. Como o terceiro Segredo ora revelado
constitui algo de natureza bem distinta — uma visão e não um texto
discursivo — impõe-se reler o segundo Segredo tomando-a como sentença
final.
Ora, desta frase
concluíram os fatimólogos, de uma maneira praticamente unânime, ser
ela indicativa de uma grande crise da fé que afetaria o mundo inteiro,
tornando-se digno de nota o fato de que numa nação — Portugal — o Dogma da
Fé sempre se conservaria (o que, aliás, não exclui que, nessa mesma nação,
recebesse duros golpes).
Uma crise da fé de
tais proporções desemboca naturalmente numa crise da Igreja, e está na raiz
mesma dessa crise.
A infiltração esquerdista em meios católicos
O fato de a terceira
parte do Segredo, ora revelada, não conter tal explanação, em nada afeta o
acerto desta, que, ademais, basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir.
Livros volumosos já se têm escrito sobre o assunto. Para os efeitos deste
comentário é suficiente lembrar os célebres pronunciamentos de Paulo VI sobre
o processo de autodemolição instalado na Igreja durante a crise pós-conciliar
(Alocução de 7 de dezembro de 1968 aos alunos do Seminário Lombardo) e a terrível
sensação do Pontífice de que, após o Concílio, “por alguma fissura
tenha penetrado a fumaça de Satanás no templo de Deus” (alocução de 29
de junho de 1972, na comemoração da Festa dos Apóstolos São Pedro e São
Paulo). Também João Paulo II se referiu diversas vezes a essa crise, e num
documento solene denunciou os graves erros doutrinários e práticos no campo
moral que entraram a circular na Igreja, “no âmbito das discussões teológicas
pós-conciliares” (Encíclica Veritatis splendor, de 6 de agosto de
1993, nº 29).
Que ligação fazer
entre essa crise e o que vem dito no corpo da segunda parte do Segredo?
Um
dos aspectos mais espantosos da crise da Igreja é justamente o da infiltração
esquerdista em meios católicos. Esse aspecto já era tão alarmante em 1968,
que nesse ano 1.600.368 brasileiros, 266.512 argentinos, 121.210 chilenos e
37.111 uruguaios subscreveram uma mensagem a S.S. o Papa Paulo VI pedindo
urgentes medidas para conter tal infiltração (os memoráveis abaixo-assinados
foram promovidos pelas Sociedades de Defesa da Tradição, Família e
Propriedade dos respectivos países).
Seria,
aliás, muito limitativo restringir os erros do marxismo aos aspectos econômicos,
sociais ou políticos. O seu igualitarismo radical é de natureza metafísica e
afeta todas as suas concepções antropológicas, morais e, paradoxalmente, teológicas
(apesar do seu fundamental ateísmo). Por isso, em 1984, a Congregação para a
Doutrina da Fé se viu na contingência de denunciar, em documento de larga
repercussão, a infiltração de erros marxistas até em certas correntes da
Teologia da Libertação.
Ora, o comunismo é
exatamente o flagelo com que Deus quis punir o mundo de seus crimes. Nossa
Senhora diz, na segunda parte do Segredo, que “a Rússia espalhará os seus
erros pelo mundo”. Quando vemos que esses erros atingiram a nau
sacrossanta da Igreja Católica, torna-se clara a correlação entre o núcleo
do segundo Segredo e sua frase final, referente à conservação da fé em
Portugal, que desvenda aos nossos olhos a crise na Igreja.
Assim, é lícito
pensar que, se Nossa Senhora não julgou necessário explanar detalhadamente
essa crise, entretanto Ela nos deixou, em sua maternal bondade, uma simples
frase a partir da qual não só os teólogos experientes, como até os simples
fiéis instruídos podem deduzir a existência de uma crise da fé — crise
da Igreja e abrir os olhos para ela.
Desse modo, uma frase
aparentemente suspensa no ar — “Em Portugal se conservará...” —
é rica de sentido e conteúdo, e nos alerta para uma pungente realidade que,
sem essa frase, muitos talvez não soubessem avaliar em toda a sua extensão e
transcendência.
*
* *
Em vista do exposto,
conclui-se que as revelações de Nossa Senhora em Fátima, longe de ter perdido
atualidade, constituem uma luz importantíssima e até vital para orientar os fiéis
na imensa crise contemporânea.
________________
## ________________
Catolicismo, nº 29, maio 1953 (extratos)
Um
comentário sobre o terceiro Segredo feito com mais de quatro décadas de
antecedência
Fátima:
explicação e remédio da crise contemporânea
Plinio
Corrêa de Oliveira
A sociedade humana
apresentava na primeira parte deste século, isto é, até 1914, aspecto
brilhante. O progresso era indiscutível em todos os terrenos. A vida econômica
tinha alcançado uma prosperidade sem precedentes. A vida social era fácil e
atraente. A humanidade parecia caminhar para a era de ouro.
Alguns sintomas
graves, entretanto, destoavam das cores risonhas deste quadro. Havia misérias
materiais e morais. Mas poucos eram os que mediam em toda a sua extensão a
importância destes fatos. A grande maioria esperava que a ciência e o
progresso resolvessem todos os problemas.
A Primeira Guerra
Mundial veio opor um desmentido terrível a estas perspectivas. Em todos os
sentidos, as dificuldades se agravaram incessantemente até que, em 1939,
sobreveio a Segunda Guerra Mundial. E assim chegamos à condição presente, em
que se pode dizer que não há sobre a Terra uma só nação que não esteja a
braços, em quase todos os campos, com crises gravíssimas.
Em outras palavras,
se analisamos a vida interna de cada nação, notamos nela um estado de agitação,
de desordem, de desbragamento de apetites e ambições, de subversão de
valores, que se já não é a anarquia franca, em todo caso caminha para lá.
Nenhum estadista de nossos dias soube ainda apresentar remédio que corte o
passo a este processo mórbido de envergadura universal.
O elemento essencial
das mensagens de Nossa Senhora e do Anjo de Portugal em Fátima, no ano de 1917,
consiste exatamente em abrir os olhos dos homens para a gravidade dessa situação,
em lhes ensinar sua explicação à luz dos planos da Providência Divina, e em
indicar os meios necessários para evitar a catástrofe. É a própria História
de nossa época e, mais do que isto, o seu futuro, que nos é ensinado pela Mãe
de Deus.
O Império Romano do
Ocidente se encerrou com um cataclismo iluminado e analisado pelo gênio de um
grande Doutor, que foi Santo Agostinho. O ocaso da Idade Média foi previsto por
um grande profeta, São Vicente Ferrer. A Revolução Francesa, que marca o fim
dos Tempos Modernos, foi prevista por outro grande profeta, e ao mesmo tempo
grande Doutor, São Luís Maria Grignion de Montfort. Os Tempos Contemporâneos,
que parecem na iminência de se encerrar com nova crise, têm um privilégio
maior. Veio Nossa Senhora falar aos homens.
Santo Agostinho não
pôde senão explicar para a posteridade as causas da tragédia que presenciava.
São Vicente Ferrer e São Luís Grignion de Montfort procuraram em vão desviar
a tormenta: os homens não os quiseram ouvir. Nossa Senhora a um tempo explica
os motivos da crise, e indica o seu remédio, profetizando a catástrofe caso os
homens não A ouçam.
De todo ponto de
vista, pela natureza do conteúdo como pela dignidade de quem as fez, as revelações
de Fátima sobrepujam, pois, tudo quanto a Providência tem dito aos homens na
iminência das grandes borrascas da História.
Os diversos pontos
das revelações relativos a este tema constituem propriamente o elemento
essencial das mensagens. O mais, por importante que seja, constitui mero
complemento.
*
* *
Catolicismo, nº 86, fevereiro 1958 (extratos)
Primeiro
marco do ressurgimento
contra-revolucionário
Plinio
Corrêa de Oliveira
O presente artigo, escrito a propósito
do centenário das aparições de Nossa Senhora em Lourdes, foi publicado em Catolicismo (nº 86, fevereiro de 1958).
Nele, o insigne pensador e líder católico brasileiro de projeção mundial,
Plinio Corrêa de Oliveira, analisa a missão de Maria Santíssima na restauração
da civilização cristã e na derrota da Revolução (entendida tal palavra como
a define o mesmo preclaro autor em sua obra-prima Revolução e Contra-Revolução,
isto é, como o processo multissecular de afastamento do mundo ocidental dos
princípios cristãos).
Seus comentários sobre o estado de
mal-estar em que, devido ao pecado, se encontra a humanidade, e os profundos
anseios que esta tem por algo de diferente, relacionam-se intimamente com a
terceira parte do Segredo de Fátima, publicada quatro décadas depois.
Após se referir à proclamação
dos dogmas da Imaculada Conceição e da infalibilidade papal, e às medidas de
São Pio X sobre a comunhão freqüente, escreve o Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira:
O inimigo mais forte do que nunca
Mas,
poder-se-ia perguntar, o que resultou daí, para a luta da Igreja com seus
adversários externos? Não se diria que o inimigo está mais forte do que
nunca, e que nos aproximamos daquela era, sonhada pelos iluministas há tantos séculos,
de naturalismo científico cru e integral, dominado pela técnica materialista;
da república universal ferozmente igualitária, de inspiração mais ou menos
filantrópica e humanitária, de cujo ambiente sejam varridos todos os resquícios
de uma religião sobrenatural? Não está aí o comunismo, não está aí o
perigoso deslizar da própria sociedade ocidental, pretensamente anticomunista,
mas que no fundo também caminha para a realização deste “ideal”?
O mundo inteiro geme nas trevas e na
dor
Sim. E a proximidade
deste perigo é até maior do que geralmente se pensa. Mas ninguém atenta para
um fato de importância primordial. É que enquanto o mundo vai sendo modelado
para a realização deste sinistro desígnio, um profundo, um imenso, um
indescritível mal-estar se vai apoderando dele. É um mal-estar muitas vezes
inconsciente, que se apresenta vago e indefinido até mesmo quando é
consciente, mas que ninguém ousaria contestar. Dir-se-ia que a humanidade
inteira sofre violência, que está sendo posta em uma fôrma
que não convém à sua natureza, e que todas as suas fibras sadias se
contorcem e resistem. Há um anseio imenso por outra coisa, que ainda não se
sabe qual é. Mas, enfim, fato talvez novo desde que começou, no século XV, o
declínio da civilização cristã, o mundo inteiro geme nas trevas e na dor,
precisamente como o filho pródigo quando chegou ao último da vergonha e da miséria,
longe do lar paterno. No próprio momento em que a iniqüidade parece triunfar,
há algo de frustrado em sua aparente vitória.
A experiência nos
mostra que é de descontentamentos assim que nascem as grandes surpresas da História.
À medida que a contorção se acentuar, acentuar-se-á o mal-estar. Quem poderá
dizer que magníficos sobressaltos daí podem provir?
No extremo do pecado
e da dor, está muitas vezes, para o pecador, a hora da misericórdia divina...
Ora, este sadio e
promissor mal-estar é, a meu ver, um fruto da ressurreição da fibra católica
com os grandes acontecimentos que acima enumerei, ressurreição esta que
repercutiu favoravelmente sobre o que havia de restos de vida e de sanidade em
todas as áreas de cultura do mundo.
A grande conversão
Foi por certo um
grande momento, na vida do filho pródigo, aquele em que seu espírito embotado
pelo vício adquiriu nova lucidez, e sua vontade novo vigor, na meditação da
situação miserável em que caíra, e da torpeza de todos os erros que o haviam
conduzido para fora da casa paterna. Tocado pela graça, encontrou-se, com mais
clareza do que nunca, diante da grande alternativa. Ou arrepender-se e voltar,
ou perseverar no erro e aceitar até o mais trágico final as suas conseqüências.
Tudo quanto uma educação reta nele implantara de bom, como que renascia
maravilhosamente nesse instante providencial. Enquanto, de outro lado, a tirania
dos maus hábitos nele se afirmava quiçá mais terrível do que nunca. Deu-se o
embate interno. Ele escolheu o bem. E o resto da história, pelo Evangelho o
conhecemos.
Não nos estaremos
aproximando desse momento?
O ensinamento de Lourdes
O futuro, só Deus o
conhece. A nós, homens, é lícito entretanto conjeturá-lo segundo as regras
da verossimilhança.
Estamos vivendo uma
terrível hora de castigos. Mas esta hora também pode ser uma admirável hora
de misericórdia. A condição para isto é que olhemos para Maria, a Estrela do
Mar, que nos guia em meio às tempestades.
Durante cem anos,
movida de compaixão para com a humanidade pecadora, Nossa Senhora tem alcançado
para nós os mais estupendos milagres. Esta piedade se terá extinguido? Têm
fim as misericórdias de uma Mãe, e da melhor das mães? Quem ousaria afirmá-lo?
Se alguém duvidasse, Lourdes lhe serviria de admirável lição de confiança.
Nossa Senhora há de nos socorrer.
Lourdes e Fátima
Há de nos socorrer.
Expressão em parte verdadeira, e em parte falsa. Pois na realidade Ela já começou
a nos socorrer. A definição dos dogmas da Imaculada Conceição e da
infalibilidade papal, a renovação da piedade eucarística, têm seu
prosseguimento nos fastos mariais dos pontificados subseqüentes a São Pio X.
Nossa Senhora apareceu em Fátima sob Bento XV. Precisamente no dia em que Pio
XII era sagrado Bispo, 13 de maio de 1917, deu-se a primeira aparição. Sob Pio
XI, a mensagem de Fátima se foi espraiando suave e seguramente por toda a
terra. Nessa mesma ocasião, o 75º aniversário das aparições de Lourdes foi
festejado pelo Sumo Pontífice com invulgar júbilo, tendo ele delegado o então
Cardeal Pacelli para o representar nas festividades. O pontificado de Pio XII se
imortalizou pela definição do dogma da Assunção e pela Coroação de Nossa
Senhora como Rainha do Mundo. Nesse pontificado, o Emmo. Cardeal Masella, tão
caro aos brasileiros, coroou em nome do Papa Pio XII a Imagem da Santíssima
Virgem em Fátima.
São outras tantas
luzes que, da gruta de Massabielle à Cova da Iria, constituem um fio brilhante.
O Reinado do Imaculado Coração de
Maria
E este artigo se detém
em Fátima. Nossa Senhora delineou perfeitamente, em suas aparições, a
alternativa. Ou nos convertemos, ou um tremendo castigo virá. Mas, no fim, o
Reinado do Imaculado Coração se estabelecerá no mundo.
Em outros termos, de
qualquer maneira, com mais ou com menos sofrimentos para os homens, o Coração
de Maria triunfará.
O que quer dizer,
afinal, que de acordo com a Mensagem de Fátima, os dias do domínio da
impiedade estão contados.
- A História
de Jacinta Marto, uma das videntes de Fátima