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Afonso de Souza
Festa litúrgica em 4 de junho
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No caos provocado na Europa dos séculos IV e V pela invasão
dos bárbaros e a queda do Império Romano do Ocidente, um
povo começou a tomar relevo, liderado por um soberano adolescente
ainda pagão, Clóvis. A conversão deste povo representaria
uma grande vitória para o cristianismo, povo este que se tornaria
a nação que foi denominada Filha Primogênita da Igreja,
a França. O papel de uma princesa, Clotilde, como instrumento da
Providência nessa obra, foi primordial.
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O invicto Clovis encontra-se face aos poderosos alamanos no campo de batalha
situado na planície de Tolbiac. De repente vê seu exército
recuar aos poucos em tal pânico que, na fuga, uns guerreiros
atropelam os outros. Desesperado, o monarca pagão começa
a clamar aos seus deuses, pedindo-lhes ajuda. Em vão. Lembra-se
então de Clotilde. Caindo de joelhos, eleva seus olhos ao Céu,
e brada com toda a alma: "Ó Jesus Cristo, Deus de Clotilde. Se me
concederdes vencer esses inimigos, eu crerei em Vós e serei batizado
em vosso nome". Daí nasceu a França católica, a tantos
títulos glória da Santa Igreja.
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Quem era essa Clotilde, cujo Deus era tão poderoso? É o que
veremos neste artigo.
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Lírio em meio ao lodo da heresia
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Gundioch, rei da Borgonha, morrera numa batalha contra os bárbaros,
em defesa da Fé e de seus Estados. Seus quatro filhos, desejando
governar, dividiram o pequeno reino. Entretanto, pouco tempo depois,
dois deles, mais gananciosos e belicosos, uniram-se aos ferozes
alamanos para invadir os reinos dos outros dois irmãos. Um destes,
Chilperico, com seus dois filhos, teve a cabeça decepada, e a mulher
foi atirada a um rio com uma pedra ao pescoço. Impossibilitadas
de governar pela lei de sucessão, as duas filhas de Chilperico foram
poupadas. Gondebaldo – um dos irmãos invasores -- levou-as para
sua corte e apesar de ariano (1), permitiu às duas sobrinhas
que continuassem a professar a verdadeira religião.
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A mais velha das irmãs, Fredegária, tomou o véu
religioso num mosteiro, onde terminou seus dias em odor de santidade. Clotilde,
a mais nova, por "sua doçura, piedade e amor pelos pobres,
fazia-se bendizer por todos aqueles que viviam a seu redor" (2).
"Essa jovem princesa demonstrou uma constância admirável em
meio a seus infortúnios, e começou a brilhar, como um milagre
de honra e de virtude, pela santidade de suas ações....
Seu porte era belo, suas maneiras agradáveis, seu rosto bem feito
e de uma beleza tão regular, que não se podia ver nada de
mais bem acabado" (3) .
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Zelo apostólico na corte dos bárbaros francos
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A fama de tal virtude e beleza chegou ao vizinho reino dos Francos
(depois França), onde seu jovem e fogoso rei, Clóvis
pensou em desposar a virtuosa princesa, apesar de ser ela católica.
Certamente influiu nessa decisão o Bispo São Remígio,
no qual o rei franco depositava inteira confiança.
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As bodas realizaram-se no ano de 493 em Soissons, com toda a suntuosidade
da época.
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"No palácio do rei franco instalou-se um oratório católico,
onde diariamente se ofereciam os Sagrados Mistérios, aos quais a
Santa assistia com singular devoção" (4).
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Um ano após o casamento, Clotilde deu à luz um herdeiro,
e obteve de Clóvis licença para batizá-lo. Poucos
dias depois, o pequeno inocente foi para o Céu. O rei, irado, alegou
que se ele tivesse sido consagrado aos
seus deuses, não teria morrido. A rainha protestou com firmeza
dizendo que se alegrava pelo fato de Deus os ter julgado dignos de que
um fruto de seu matrimônio entrasse no Céu. E que, em vez
de entristecer-se, eles deveriam rejubilar-se. Isso aplacou o rei.
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No ano seguinte, Clotilde deu à luz outro menino que, apenas
batizado, correu perigo de vida. A rainha lançou-se aos pés
do altar e, por suas súplicas e lágrimas -- que visavam mais
a conversão do marido do que evitar essa segunda morte -- obteve
de Deus que ele se restabelecesse.
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Grandiosa missão de converter o rei
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As qua lidades da esposa começaram a impressionar vivamente a Clovis.
Mas ele tinha um temperamento modelado pela barbárie, e portanto
refratário à Religião católica. Para obter
a conversão do marido e do reino, a piedosa rainha entregava-se
em segredo a grandes austeridades, prolongadas orações, e
especial caridade para com os pobres. Ao mesmo tempo, "honrava seu real
esposo, e procurava suavizar seu temperamento belicoso com sua mansidão
cristã" (5).
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Quando Clóvis vinha fazer-lhe confidências a respeito de planos
de combate e sonhos de grandeza, ela aproveitava para falar-lhe do verdadeiro
Deus. "Enquanto não adorares o verdadeiro Deus - dizia-lhe ela -
temerei que voltes das batalhas vencido e humilhado. Até agora não
enfrentaste inimigos dignos de teu valor. Se, por desgraça, fores
cercado e acossado por um exército mais numeroso, em vão
pedirás a ajuda de teus falsos deuses". Clóvis contentava-se
em desviar a conversa para não magoar a esposa com blasfêmias.
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Sempre disposta a procurar e incentivar o bem, Clotilde tornou-se amiga
de Santa Genoveva, que então resplandecia em Paris por suas virtudes
e milagres. A ela e a São Remígio recomendou também
a conversão do marido. Enquanto isso, punha-se a catequizar suas
damas, domésticos e mesmo alguns dos nobres francos que viviam no
palácio, falando-lhes da abundância de seu coração.
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Conversão alterou a História
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Chegou finalmente, na planície de Tolbiac, a hora da Providência.
Vimos como Clóvis obteve a reversão da batalha com o auxílio
divino, e prometeu converter-se.
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Essa conversão foi pronta e sincera. Não querendo esperar
chegar a Soissons para instruir-se "na fé de Clotilde", mandou chamar
um virtuoso eremita, São Vedasto, para que marchasse a seu lado,
instruindo-o na Fé católica. Quis Deus que o rei bárbaro
comprovasse mais uma vez, com os próprios olhos, a santidade da
Religião que lhe estava sendo pregada. Ao passarem pela vila de
Vouziers, um cego aproximou-se para pedir esmola, e só ao tocar
a túnica de São Vedasto, adquiriu imediatamente a visão
(6).
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À rainha – que o esperava ansiosamente pois Clóvis já
mandara notícia de sua conversão – disse ele: "O Deus de
Clotilde deu-me a vitória. De hoje em diante será meu único
Deus!"
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"Curva a cabeça, Sicambro"
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No dia de Natal do ano 496, Clóvis, com três mil de seus mais
valentes guerreiros, ingressaram pelo batismo na milícia do Deus
de Clotilde. Receberam-no igualmente suas duas irmãs e seu filho
bastardo, Thierry. Ao entrar o rei dos francos com o Bispo de Reims no
batistério, disse-lhe este as palavras que se tornaram famosas:
"Curva a cabeça, altivo Sicambro; adora o que queimaste e queima
o que adoraste".
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No momento em que São Remígio ia proceder à
unção do rei com o óleo do Santo Crisma, baixou da
abóbada do templo uma pomba trazendo no bico uma ampola com azeite.
O Bispo, vendo naquilo uma ordem celeste, ungiu com ele a cabeça
de Clóvis (7). Com esse azeite seriam ungidos depois praticamente
todos os reis franceses, até ser quebrada a ampola durante a nefanda
Revolução Francesa.
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"Em poucos dias, todo o reino dos francos entrava na Igreja, pondo à
cabeça de seu Código nacional aquele grito entusiasta que
é uma confissão de fé: ‘Viva Cristo, que ama os francos!’"
(8).
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Após a conquista do marido, a conquista de Paris para a Cristandade
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Clóvis enviou embaixadores ao Papa Anastácio e fez colocar
sua própria coroa diante do túmulo do Apóstolo São
Pedro, iniciando assim a aliança entre a França e a Igreja.
Encorajado por Clotilde, o rei mandou destruir os templos dos ídolos
e construir em seu Estado igrejas dedicadas ao verdadeiro Deus. Favorecido
também nas armas, Clóvis conquistou a inexpugnável
Paris, crescendo assim seu reino.
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O amor que unia os dois esposos tornou-se, a partir de então, muito
mais forte e sobrenatural, concedendo-lhes a Providência mais dois
filhos e uma filha. Esta última, Theodechilde, é também
honrada como Santa, comemorando-se sua festa no dia 7 deste mês.
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Clotilde levou seu esposo a empreender uma guerra contra Alarico, rei dos
visigodos, que tentava disseminar a heresia ariana na região de
Guyenne. Clóvis perseguiu esses perniciosos hereges, enquanto Clotilde
– que o acompanhara nessa cruzada – qual novo Moisés, rezava com
os braços elevados para o céu pelo êxito da batalha.
O rei visigodo foi morto e desbaratado seu exército.
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Enfim, Clóvis, extenuado pelas fadigas e trabalhos do governo, viu-se
atacado por mortal doença em Paris. Clotilde acorreu junto a ele,
tendo antes feito chamar São Severino, Abade. Este, apenas tocando
a ponta de seu manto no soberano, fez-lhe recuperar totalmente os sentidos
para receber conscientemente os sacramentos e preparar-se para a morte.
O rei franco faleceu em 27 de novembro de 511, aos 45 anos de idade, 30
desde que subira ao trono e 20 depois do casamento com Clotilde. A santa
rainha, após copioso pranto, exclamou como verdadeira cristã:
"Senhor, de Vós eu o recebi pagão; por vossa misericórdia,
eu vo-lo entrego cristão. Que vossa vontade seja feita!"
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Na viuvez, virtude heróica diante dos sofrimentos
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Parecia que a missão de Clotilde na Terra estava encerrada. Quis
viver só para Deus e fez dividir o reino entre
seus três filhos e o enteado. Mudou-se depois para junto do túmulo
de São Martinho, em Tours, onde, diz São Gregório
de Tours, "viu-se uma filha de rei, sobrinha de um rei, esposa de um rei,
e a mãe de vários reis, passar as noites em oração,
servir os pobres e proteger as viúvas e os orfãozinhos" (9).
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À santa rainha restavam mais de 30 anos de provas e sofrimentos
cruéis. Alentada por sua própria experiência, Clotilde
tinha dado sua filha, que recebera seu nome, como esposa a Amalrico, rei
dos visigodos, visando a conversão desse monarca. Mas um herege
é sempre pior que um pagão. A reação do soberano
ariano foi, pelo contrário, de proporcionar toda sorte de
perseguições à esposa, devido à fidelidade
desta à verdadeira religião. Seus vassalos, com permissão
do rei, chegavam a atirar-lhe lama quando ela ia à igreja.
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Tomando conhecimento desses ultrajes, seus irmãos declararam
guerra a Amalrico, que foi morto. Trouxeram então consigo a segunda
Clotilde. A virtuosa mãe, contudo, não voltaria a ver
a filha senão no Céu, pois esta, acabrunhada de dor,
faleceu a caminho da pátria.
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Milagres em vida, santa morte
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Santa Clotilde operou vários milagres ainda em vida, como curas,
mudança de água em vinho, fez surgir uma fonte em campo árido.
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Sentindo aproximar-se a morte, mandou chamar seus dois filhos, exortando-os
da maneira mais viva a servir a Deus e a guardar sua lei, a proteger os
pobres, a viverem juntos em perfeita harmonia, e a tratar seus povos com
bondade paternal. Tendo depois feito profissão pública de
fé católica e recebido os Sacramentos que a prepararam para
a eternidade, entregou docemente sua alma ao Criador.
Notas:
1 – Ariano: seguidor das doutrinas do heresiarca Ario, (250-336), sacerdote
de Alexandria que caiu em heresia negando que as três Pessoas da
Santíssima Trindade são absolutamente iguais quanto à
natureza e coeternas. A heresia ariana alastrou-se por quase todo o mundo
já cristianizado de então. Foi condenada pelo Concílio
de Nicéa I ( 325) e por vários outros Concílios.
2 - Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Mgr Paul Guérin,
Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, t. VI , p. 416.
3 - Pe. Simão Martin, Vie des Saints, Bar-le-Duc, Imprimerie
de Madame Laguerre, 1859, vol. II, p. 826.
4 - Edelvives, El Santo de Cada Día, Editorial Luis Vives,
S.A., Saragoça, 1947, tomo III, p. 345.
5 - Pe. Jean Croiset, Año Cristiano, Saturnino Calleja, Madri,
1901, t.II, p. 751.
6 - Cfr. Edelvives, op. cit., tomo III, p. 348.
7 - Cfr. Bollandistes, op. cit, tomo VI, pp. 421, 422; Edelvives,
op. cit, tomo III, p. 349).
8 - Fr. Justo Pérez de Urbel, OSB, Año Cristiano, Ediciones
Fax, Madrid, 1945, tomo II, p. 525.
9 - Bollandistes, op. cit., tomo VI, p. 422.
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