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Plinio Maria
Solimeo
A arquesa de Castiglioni, Laura
de Gonzaga, estava em trabalhos de parto, com grande perigo de vida para
si e para a criança que ia nascer. Todos já desesperavam de vê-la a
salvo, quando ela resolveu fazer uma promessa a Nossa Senhora de Loreto,
de consagrar-Lhe esse primeiro filho de suas entranhas e de levá-lo em
peregrinação ao seu santuário, tão logo ambos se recuperassem.
Imediatamente deu à luz o primogênito de seus oito filhos, a quem pôs
o nome de Luís.
Esse feliz acontecimento foi
providencialmente comemorado em Castiglione com o júbilo de um
nascimento real. E muito a propósito, pois o recém-nascido haveria de
ser a maior glória da dinastia dos Gonzaga, uma das mais ilustres de
toda a Itália. Com domínios de Mântua a Bréscia, e de Ferrara à
fronteira da Lombardia, ao longo dos anos a dinastia acumulara riquezas,
altos cargos eclesiásticos e principados em sua aristocrática
linhagem.
Dona Laura era casada com um
dos mais salientes membros dessa estirpe, Fernando, Marquês de
Castiglione e Príncipe do Sacro Império. Conhecera-o na corte da
Espanha, onde era dama da Rainha Isabel de França. Esta soberana,
secundada por seu esposo, o grande Felipe II, estimando a virtude e as
qualidades morais de Dona Laura, a escolhera para sua dama.
Se o Marquês tinha no sangue o
espírito combativo e militar de seus ancestrais, a Marquesa completava
a belicosidade do marido com uma profunda piedade. E Luís recebeu a
influência dos dois.
Desde muito pequeno, gostava de
ouvir, falar e pensar em Deus. Teve assim, quase desde o berço, um dom
muito elevado de oração, sendo Deus seu único mestre.
“Conversão”
aos sete anos...
Unido a essa feliz propensão
de seu caráter e à sua piedade precoce, podia-se perceber nele o
borbulhar belicoso do sangue ancestral. Assim é que o Marquês deu-lhe
uma pequena armadura, elmo, espadinha e um pequeno arcabuz de verdade. E
o levou ao acampamento de Casal-Major, onde deveria passar em revista as
tropas que levava consigo para a guerra do rei espanhol contra Túnis.
Um dia Luís, disparando seu
arcabuz, chamuscou o rosto. O pai então proibiu-o de utilizar pólvora.
Mas ele, travesso e valente, noutro dia, na hora do repouso após o almoço,
conseguiu escapar à vigilância de seu tutor, aproximar-se de um canhão
e acender-lhe o pavio. O acampamento todo foi despertado com o estrondo,
e encontraram o pequeno príncipe estirado ao solo, vítima do coice que
recebeu da possante arma.
Luís gostava de estar junto
aos tercios espanhóis — das mais famosas tropas de infantaria
então existentes — imitando seu passo marcial. Mas muitas vezes
repetia seu jargão e as palavras às vezes inconvenientes de alguns
deles. Seu tutor chamou-lhe a atenção, dizendo-lhe que aquela não era
a linguagem de lábios limpos. Embora o menino de cinco anos não
entendesse seu sentido, chorou amargamente essa involuntária falta, que
acusará sempre como uma das mais graves de sua vida. E disse que a
partir desse episódio teve início sua “conversão”!
Altar de São Luís Gonzaga na Igreja de
Santo Inácio, em Roma |
Objetivo:
alcançar vida de perfeição
Desde então, essa criança
começou um processo de sério afervoramento espiritual. Segundo o
parecer de outro Santo, São Roberto Belarmino, Doutor da Igreja e
futuro confessor do primogênito do Marquês de Castiglione, “na
idade de sete anos é que Luís começou a conhecer mais a Deus,
desprezar o mundo e empreender uma vida de perfeição. Ele mesmo com
freqüência me repetia que o sétimo ano de sua idade marcava a data da
sua conversão”.
Aos oito anos o pai levou-o com
seu irmão Rodolfo para viverem na corte do Grão-duque da Toscana,
Francisco de Médicis. Já não se estava mais na austeridade vivida
pelos príncipes medievais, pois a decadência renascentista invadia
tudo. Em meio aos divertimentos mundanos e às solicitações dessa
brilhante corte renascentista, Luís buscava auxílio nAquela a quem
fora consagrado ao nascer. Aumentou então seus atos de devoção à
Santíssima Virgem, de tal modo que fez, aos nove anos de idade, voto de
castidade perpétua.
Quando tinha 10 anos, numa ausência
do pai, recebeu certo dia em Castiglione o Cardeal-Arcebispo de Milão,
São Carlos Borromeu. Este ficou encantado com sua pureza e santidade,
tendo declarado “que jamais encontrara jovem que em tal idade
atingisse tão elevada perfeição”. Ele mesmo administrou-lhe a
Primeira Comunhão, aconselhando-o a praticar a comunhão freqüente e a
leitura do Catecismo Romano.
Sua infância transcorreu de
castelo em castelo, de corte em corte, de festa em festa, mantendo,
contudo, sempre o coração ancorado em Deus. Provou, assim, que era
perfeitamente possível cultivar a santidade em meio aos esplendores da
nobreza. Com efeito, aos 12 anos já atingira alta contemplação. Para
isso lhe fora de muita ajuda um livro de São Pedro Canísio, apóstolo
da Alemanha. A meditação contínua tornou-se para ele quase uma
segunda natureza.
Um de seus criados poderá
afirmar: “Todos seus pensamentos estavam fixos em Deus. Fugia dos
jogos, dos espetáculos e das festas. Se dizíamos alguma palavra menos
decente, chamava-nos e repreendia-nos com toda doçura e gentileza”.
Luís afirmaria mais tarde: “Deus me deu a graça de não pensar
senão no que quero”. E por isso tinha um domínio total de si
mesmo.
Vivendo em plena época do
Renascimento, estudou as línguas clássicas, chegando a escrever
elegantemente em latim. Foi nessa língua que fez um discurso de saudação
ao monarca espanhol Felipe II quando suas armas foram vitoriosas em
Portugal. Espírito alerta, perspicaz e sério, triunfou facilmente nos
estudos. Ele alia va magnificamente a nobreza, a cultura, a inteligência
e a santidade.
Para
o cumprimento da vocação, vitória sobre sérios obstáculos
Em 1581 Luís foi levado pelo
pai para a Espanha, para ser pajem dos infantes naquele país. Mas Deus
tinha sobre ele outros desígnios. Na corte de um dos mais poderosos
soberanos da Terra, afirma-se no coração de Luís o desejo de
apartar-se do mundo e dedicar-se totalmente a Deus. Tendo cumprido já
os 16 anos, decidiu falar sobre isso com seu pai. O marquês, que
encantado com as qualidades do filho augurava-lhe um brilhante porvir no
mundo, respondeu-lhe com um rotundo não.
Para dissuadi-lo disso,
enviou-o de volta à Itália, com missão junto a vários príncipes.
Esperava que, em meio àquela vida brilhante da Itália renascentista,
arrefecesse no filho o desejo de fazer-se religioso. Luís
desincumbiu-se com tanto êxito das várias tarefas, que o pai mais se
firmou no desejo de tê-lo como seu sucessor.
Mas, à força de muitas súplicas,
o marquês cedeu. E Luís — tendo também, como príncipe do Sacro-Império,
obtido a permissão do Imperador — pôde abdicar de todos seus
direitos dinásticos em favor de seu irmão Rodolfo, e assim entrar no
noviciado da Companhia de Jesus em Roma, aos 18 anos incompletos.
Alto
grau de santidade em plena juventude
Dentro do noviciado jesuíta,
Luís continuou a ser motivo de edificação para todos, como sucedera
quando estava no século. Seus superiores não tiveram senão que
moderar o seu fervor e pôr limites às suas grandes penitências. Para
ele, era uma alegria sair pelas ruas de Roma, com um saco às costas,
pedindo esmolas para o convento. Era também enviado a ajudar na cozinha
e na limpeza da casa. A alguém que lhe perguntou se não sentia repugnância
em fazer atos tão humildes, respondeu que não, pois tinha diante dos
olhos a Jesus Cristo humilhado pelos pecados dos homens, e a recompensa
eterna que Ele dá àqueles que se rebaixam por amor a Deus.
Visitava os doentes e os
encarcerados. Mesmo nessas ocasiões, mantinha seu recolhimento em Deus
e cumpria seus atos de devoção. Dizia que “aquele que não é
homem de oração não chegará jamais a um alto grau de santidade nem
triunfará jamais sobre si mesmo; e que toda a tibieza e falta de
mortificação que se via em almas religiosas não procediam senão da
negligência na meditação, que é o meio mais curto e eficaz para se
adquirir as virtudes”. A tal ponto se tornara senhor de sua
imaginação, que no espaço de seis meses, segundo ele mesmo
reconheceu, suas distrações não haviam durado o tempo de uma
Ave-Maria.
Uma de suas devoções
especiais era a Paixão de Nosso Senhor, a qual tornou-se objeto contínuo
de suas meditações. Sua devoção à Santíssima Virgem era terna e
filial. Tinha também especial devoção aos Santos Anjos, especialmente
a seu Anjo da Guarda, e escreveu mesmo um pequeno estudo sobre eles.
Também o Santíssimo Sacramento era objeto de suas afeições. Passava
horas diante do tabernáculo, entretendo-se com o Deus escondido sob as
aparências eucarísticas.
Caso seus superiores não o
tivessem moderado, as penitências físicas que praticava teriam
abreviado seus dias. Alguns diziam que ele lamentaria, na hora da morte,
esse excesso. Bem pelo contrário: nesse momento ele fez questão de
dizer a seus irmãos, reunidos em torno de seu leito, que se ele tinha
alguma coisa a lamentar nesse sentido eram as penitências que ele não
havia feito, e não as que fizera.
Seu pai, que levara uma vida
muito voltada às coisas do mundo, preparou-se tão bem para a morte,
que atribuiu esses sentimentos às orações do filho.
Na
morte, caridade heróica
Pouco depois do falecimento de
seu progenitor, Luís teve que ir a Castiglione resolver uma áspera
disputa entre seu irmão Rodolfo e seu tio, a propósito de terras. Sua
mãe, que o venerava muito, e com sentimentos de verdadeira nobreza,
recebeu-o de joelhos.
Quando estava hospedado no colégio
da Companhia, em Milão, teve a revelação de que em breve morreria.
Exultante, voltou para Roma e empregou seus últimos dias cuidando dos
empestados numa terrível epidemia que devastava a Cidade Eterna. Com
isso, ganhou mais méritos. Vítima do contágio, faleceu santamente a
21 de junho de 1591.
Que São Luís Gonzaga
interceda por nós, em meio ao neopaganismo e à decadência moral de
hoje em dia, e nos obtenha do Criador pelo menos uma parcela de seu
abrasado amor de Deus e zelo apostólico, bem como de sua pureza angélica.
Obras consultadas:
Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après
le Père Giry, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo 7º,
pp. 192 a 203.
Pe. Jean Croisset, S.J., Año Cristiano, tradução
espanhola, Saturnino Calleja, Madrid, 1901, tomo 2º, pp. 907
a 919.
Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano,
Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, pp. 665 a 675.
Pe. José Leite, S. J., Santos de Cada Dia,
Editorial A.O., Braga, 1987, tomo II, pp. 275 a 278.
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