Número 2 - junho/agosto de 1998
Frente Universitária Lepanto
O jogo e a Máfia
      No pais dos "reformecos e reformalhos, reformengos e reformeiros, reformilhos e reformocas" (expressões de Ramalho Ortigão), continua-se à procura de soluções mágicas.
     Na "Feira das Vaidades", de Thackeray, um grupo de pessoas excogita os mais variados meios para escapar da penúria. A única saída que não ocorre a ninguém é trabalhar.
     Com a projetada liberação dos cassinos, não se procura combater a pobreza pela produção, mas pelo jogo! Que não cria no país um parafuso!
     O jogo de azar não produz. Mata o tempo. Desvia do trabalho.
     Estimula o desgaste, em atividade socialmente inútil, de uma parte de nossa capacidade laborativa! E ainda: a esterilização de capitais num investimento não-produtivo!
     Certo é que se atrairiam capitais estrangeiros para que explorassem o vício também aqui.
     O cassino é o lugar ideal para a lavagem do dinheiro - para disfarçar a origem inconfessável da riqueza não produzida pelo fazer, mas pelo tomar.
     Por isso é que o cassino se torna o sustentáculo do crime organizado.
     Que, num país sem organização, encontraria o caldo de cultura ideal.
     Há trinta ou quarenta anos, cassinos de nossas estâncias hidro-minerais eram explorados por malandros do lugar. Hoje, em que o mundo se tornou aldeia global e as comunicações são fáceis e rápidas, a Máfia está, certamente, à espera da abertura aqui dos cassinos, para neles instalar filiais.
     Como transferiu sua sede principal da Sicília para os Estados Unidos, seu destino natural é algum país onde prevaleça a impunidade. Falta apenas um ponto de apoio. Um habeas corpus preventivo. A legalização de alguma de suas atividades, que encubra as outras.
     Impedir o funcionamento dos cassinos, que subornam policiais de muito poder e pouco salário, é difícil! Regular o seu funcionamento, isto é, impedir que funcione desta ou daquela maneira, é impossível! Se o cassino está aberto e recebe o povo, só não vê quem não quer. Se funciona com algumas restrições legais, como verificar se esses limites são respeitados? É mais fácil descobrir a entrada do público do que aquilo que se faz lá dentro.
     A propalada regulamentação do jogo não eliminaria "a batota clandestina, escreveu Nelson Hungria, do mesmo  modo que a regulamentação oficial das loterias não conjurou a praga das loterias furtivas."
 Estas consomem o dinheiro mas não o tempo do povo. Não afastam do trabalho.
    No cassino, quem perde ou ganha grandes quantias, à noite, se desanima de trabalhar, o dia inteiro, para ganhar muito menos.
     Os jogos de cassino dissolvem o estímulo para o trabalho. E "a ociosidade é a mãe de todos os vícios".
     Várias vezes se tentou, no Brasil, com o dinheiro do povo, atrair jogadores estrangeiros. Parece que a volúpia, que as roletas nossas produziam, não era diferente da que produziam as deles, mais acessíveis. O certo é que não vieram de tão longe.
     Os viciados vão ser daqui mesmo.
     E mais numerosos se o vício, ao invés de ser ilegal, arriscado, infamante, for autorizado por lei e praticado às escâncaras.
     Não é possível impedir os jogos de azar, como não é possível impedir os assassinatos. Mas é preciso puní-los, para que sejam menos praticados.
     Há tempos um deputado federal, que depois teve seu mandato cassado, por seus colegas, por falta de decoro parlamentar, conseguiu fosse inserida, numa lei a favor do esporte, a permissão do bingo. Que é jogo de azar, definido como aquele em que o resultado decorre exclusiva ou principalmente da sorte.
     Quando o povo clama contra a onda crescente de crimes, pretende-se, com a liberação total dos cassinos, incentivar um fator notório de criminalidade.
     Lembremo-nos da advertência de Rui Barbosa, em página imortal, cujo ritmo tem a grandeza das ondas do mar:
     "Permanente como as grandes endemias que devastam a humanidade, universal como o vício, furtivo como o crime, solapado no seu contágio como as invasões purulentas, corruptor de todos os estímulos morais como o álcool, ele zomba da decência, das leis e da polícia, abarca no domínio das suas emanações a sociedade inteira... inutiliza gênios; emudece oradores, atira... à concorrência do trabalho diurno os náufragos das noites tempestuosas do azar...
      ... sacudidos continuamente pelas emoções do inesperado, se alimentam das suas surpresas, se estiolam com as suas decepções, e, vendo a felicidade repartir-se às cegas pela superfície do tabuleiro verde, acabam por supor que a sorte de todos, neste mundo, se distribui com a mesma casualidade, com a mesma desproporção, com a mesma injustiça, acabam por ver no merecimento, no esforço, na economia, na perseverança, coisas fictícias, estranhas, ou hostis...
      ... reina sob a sua manifestação completa em esconderijos... onde o menos que se gasta é o equilíbrio da alma, o menos que se arruína é o ideal, o menos que se dissipa é o tempo, estofo precioso de todas as obras-primas, de todas as utilidades sólidas, de todas as ações grandes.
      ... presas da vasa, que nunca mais os larga, rolam e imergem nela de decadência em decadência... até que a piedade infinita do termo de todas as coisas lhes recolha ao seio do eterno esquecimento os restos inúteis de um destino sem epitáfio...
      Eis o jogo, o grande putrefator. ... É a lepra do vivo e o verme do cadáver."
 Dario Abranches Viotti
 foi Promotor de Justiça de Lambari (MG) e é Juiz Federal aposentado
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