Número 3 - setembro/outubro de 1998
Frente Universitária Lepanto

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A mentira com Asas de Ferro
“Um país que progrida velozmente e sem tradição é como um homem que anda rapidamente sem caminho e sem rumo!”


        Post-modernidade traz aos seus leitores um trecho muito elucidativo sobre a ilusão da modernidade. Trata-se de memórias do prof. Plinio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP, sobre um moderno trem que rasgava a noite e atravessava as terras de uma fazenda na qual ele se encontrava, quando ainda jovem.

        Nesse hipotético diálogo, o pensador católico descreve a sedução que o progresso, representado por um trem com ‘asas de ferro”, comunicava aos homens de seu tempo. Uma ilusão de um falso progresso desvinculado do passado.

        “Quando menino, passava temporadas em uma fazenda. Naquele tempo havia uma dificuldade técnica para se construir pontes e túneis. O resultado era que os trens davam voltas em torno das montanhas, para se evitar a construção de túneis; e depois andavam mais um pouco para pegar o rio num ponto de estreitamento, para se fazer uma ponte menor e atravessar por lá. Com isso os trens davam muitas voltas.

        Ouvia-se de longe, na sede da fazenda onde eu estava, o silvo do trem que rasgava o silêncio da tardinha. Dez ou quinze minutos depois, aquele apito se fazia ouvir de outro lado. Era o ziguezague em torno do ponto em que eu estava fixo. Eu ficava desagradado e aflito com aquilo. Por que este barulho rasga de um modo tão indiscreto, por assim dizer sem pedir licença, o augusto silêncio desta noite que vai descendo?

        Em determinado momento, o trem passava em frente do terraço da fazenda. Mentiroso como é o progresso moderno, para quem estava do lado de fora ele dava a impressão de um palácio. Os trens naquele tempo eram diferentes dos de hoje. Tinham cortininhas, eram iluminados por dentro, e tinha-se a impressão de que era um palácio feérico que ia levando uns privilegiados a toda velocidade para a cidade, onde um futuro feérico os esperava.

        Quando o trem acabava de passar, ele deixava a impressão de um conto de fadas que passara, depois de ter feito barulho, de ter deitado faíscas. Um conto de fadas que dizia: “Eu te darei um futuro deslumbrante, se romperes com esta calma, com este silêncio, com esta patriarcalidade, e entrares nas minhas asas de ferro. Eu te levarei para a cidade, onde serás um anônimo, mas onde um torvelinho delicioso te fará esquecer o teu passado e te embriagará de uma glória que eu te prometo, se fizeres força. Não terás passado, mas terás dinheiro. Serás um anônimo montado em milhões”.

        Mas eu pensava: “Estou vindo da cidade, conheço este trem, andei dentro dele com horror, detestei as sacolejadas dele, abominei as fagulhas que ele lança. Quantas vezes consultei o relógio para saber quanto tempo ele ainda levaria para chegar. Eu vinha para o campo com vontade de encontrar isto que eu tenho aqui, e voltarei para a cidade aborrecido por ter de deixar isto. É uma mentira, esse trem ‘blasfemando’ contra a natureza. Ele é mentira com asas de ferro, levando para uma aventura que é uma loucura. Isto é a morte da sabedoria. Nesse corre-corre desvairado não há continuidade, não há pensamento, não há calma, não há tradição. E onde não há nada disto não pode haver futuro. Há transformações, mas transformação não é sempre futuro. Transformação pode ser decadência. Transformação pode levar facilmente para a morte”.

        Eram estas as considerações que eu fazia, para diferenciar-me daquilo e manter o meu direito de não ser assim, de querer outra coisa e caminhar para um outro rumo.”


(Texto extraído de uma reunião gravada em fita magnética, sem revisão do autor)
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