|
Padre Davi
Francisquini
|
|
Numa época como
a nossa, na qual se afirma estarem sendo eliminados todos os "preconceitos",
em que as minorias discriminadas se emancipam e adquirem seus direitos,
poucos se dão conta de um fato: em muitos lugares, retornou-se praticamente
à época das grandes perseguições religiosas. Isso não é exagero. Basta
ler uma resenha do que está ocorrendo em várias partes do mundo, para que
se comprove essa afirmação.
É o escopo
deste artigo: levar ao conhecimento dos leitores notícias que atestam a
verdadeira perseguição de cunho religioso promovida hodiernamente em várias
partes do globo. Tais notícias, foram coletadas em sua maioria no ano
findo, extraídas da imprensa diária e de agências noticiosas fidedignas.
Quando não for mencionada a fonte, tratar-se-á sempre de notícias da Agência
Vaticana Zenit.
Ásia
em geral
Sri
Lanka
Apagavam-se as
luzes do ano de 1999 quando a Agência Zenit noticiou o massacre de
35 católicos, com um saldo de 60 feridos, numa igreja em Sri Lanka, vítimas
dos rebeldes da Frente de Liberação Tamil Tigres do Eelam –FLTTE
(21-11-99).
Timor
Também no final
de 1999 foram encontrados, em três valas comuns no Timor, os corpos de 25
católicos, sendo três de sacerdotes assassinados a tiros e facadas. A
mortandade teria ocorrido em 6 de setembro. “De acordo com o relato de
testemunhas, naquele dia muitas pessoas estavam refugiadas nas igrejas de
Santa Maria e de Nossa Senhora de Fátima, em Oeuli, fugindo de um grupo de
milicianos, quando outro, mais numeroso e apoiado por policiais indonésios,
invadiu os dois locais. Segundo o Vaticano, mais de 100 pessoas morreram no
ataque às duas igrejas” (“Jornal do Brasil”, 27-11-99).
|
|
Indonésia
Na ilha turística
de Lombok, 600 cristãos fugiram por temor do ressurgimento da onda de violência
perpetrada pelos muçulmanos, que resultou na semana anterior em cinco
mortos e no incêndio de igrejas, moradias e comércios de cristãos
(23-1-00).
l
Centenas de cristãos, fugitivos da perseguição maometana, morreram em
naufrágio na Indonésia (“O Estado de S. Paulo”, 30-6-00).
l
Vários carros-bomba explodiram em frente às cinco principais igrejas de
Jacarta e outras localidades na noite de Natal, ocasionando um triste saldo
de 10 mortos e dezenas de feridos (“Jornal da Tarde”,
25-26/12/00).
|
|
Fanáticos islâmicos preparam-se para a
"guerra santa" nas Ilhas Molucas.
|
Ilhas
Molucas
l
Pelo menos 44 pessoas morreram e centenas ficaram feridas em ataques de muçulmanos
a populações cristãs (“Folha de S. Paulo”, 31-5-00).
l
Em mais um ataque dos muçulmanos, cerca de 160 cristãos, incluindo
mulheres e crianças, foram massacrados. A igreja e as casas foram
incendiadas. O total de mortos eleva-se já a três mil (“Folha de S.
Paulo”, 21-6-00).
l
Arrasada a aldeia cristã de Waai. Há pelo menos 22 mortos (10-7-00).
l
Cristão é decapitado, e igreja queimada. Testemunhas dizem que os ataques
islâmicos são dirigidos por oficiais do Exército (16-7-00).
l
93 cristãos, que se negaram a abraçar o islamismo, foram assassinados. As
vítimas dos choques entre cristãos e muçulmanos, desde que começaram as
hostilidades em janeiro de 1999, já atingem a 4 mil. Mais de meio milhão
de pessoas tiveram que emigrar (6-12-00).
|
|
Dom Alan de Lastic, Arcebispo de Nova
Delhi:"Forças [anticristãs] tentam intimidar os cristãos"
|
Índia
l
O Bispo de Verapoly denunciou que em Kerala – o Estado de maior
população católica da Índia e apontado como exemplo de convivência
interconfessional – aumentavam os ataques contra casas religiosas e
escolas católicas (21-3-00).
l
O Arcebispo de Nova Delhi, D. Alan de Lastic, denunciou o incremento
de hostilidades contra a comunidade católica na Índia, que sofreu
nas últimas semanas diversos ataques por parte de grupos radicais
nacionalistas.
“Definitivamente há
uma estratégia e um plano em nível nacional
.... estas forças
buscam intimidar os cristãos”,
afirmou a respeito o Prelado, também Presidente da Conferência
Episcopal Indiana. Num só dia, quatro igrejas católicas foram objeto
de atentados a bomba em Andra Pradesh, Goa e Karnataka. Um sacerdote
aparecera morto dois dias antes (“Noticias Eclesiales”,
9-6-00).
l
No Estado de Bihar, o
sacerdote Remiz Karketta, de 46 anos, foi assassinado com um tiro e
depois atropelado. “O assassinato do padre Karketta constitui o
mais recente da série de atos de cruel violência que nestes meses
golpearam expoentes das comunidades cristãs da Índia”, explica
em sua primeira página a edição italiana do “L’Osservatore
Romano” (14-7-00).
l
O Padre Victor D’ Souza, Administrador diocesano de Nova Delhi,
denuncia violação de residências de sacerdotes, agressões a
religiosas e profanações de locais de culto. A Conferência
Episcopal da Índia também expressou sua preocupação pelos contínuos
ataques que sofrem as instituições cristãs em todo o país
(10-9-00).
lA
organização fundamentalista indiana mais radicalmente anticatólica
propôs que o clero rompa com Roma, expulse os missionários
estrangeiros e funde uma Igreja Patriótica como existe na
China. Os Bispos indianos rejeitaram indignados tal proposta.
(12-10-00).
l
O Arcebispo de Nova Delhi, em carta ao Primeiro-Ministro indiano,
denunciou os contínuos e ferozes ataques contra os católicos na Índia:
no domingo, 26 de novembro, à noite, uma centena de fanáticos
apedrejaram os cristãos em Kolar, distrito de Karnataka. No mesmo
domingo, fanáticos armados saquearam o Convento de St. Mary, em
Jwalapur, próximo de Haridwar, na Diocese de Merut, em Uttaranchal,
depois de manter seqüestradas as monjas dessa casa religiosa. Em
outro incidente, uma capela de pequena comunidade de 100 fiéis de uma
minoria étnica em Surat, distrito de Gujarat, foi saqueada no domingo
à noite.
De outro lado, o Bispo
de Gwalior, Joseph Kaithathara, em mensagem à Conferência Episcopal
da Índia, revelava que o padre C. Alphonse, de 64 anos, havia sido
brutalmente atacado por uma turba na terça-feira, cerca da uma hora
da manhã. Segundo o Prelado, um grupo entrou na casa do sacerdote e o
golpeou selvagemente com paus e varas de ferro. A vítima foi ferida
na cabeça e teve fraturas nos braços e pernas, além de quebrados vários
dentes. Foi levada ao Hospital Médico Universitário de Gwalior.
Por sua vez, o
“Hindustan Times” informa a ocorrência de um incidente em
Bokaro, Jharkhand, em que
“algumas dezenas de fanáticos assaltaram uma igreja de Bokaro e
saquearam seu interior” (10-12-00).
China
É detido pela polícia
o Bispo Han Dingxiang, bem como o sacerdote Zhao Hongxi, ambos membros
da Igreja clandestina católica, perseguida pelo regime (26-1-00).
l
Segundo a agência vaticana Fides, em “dezembro as
autoridades chinesas incendiaram e dinamitaram duas igrejas que não
tinham sido autorizadas pelo governo chinês, na Diocese de Wenzhou.
Ainda de acordo com a agência, dezenas de sacerdotes foram seqüestrados
pela polícia nos últimos meses” (“O Estado de S. Paulo”,
1-2-00).
l
Segundo a agência da Santa Sé, a perseguição na China “assumiu
proporções espantosas”. Dezenas de sacerdotes foram seqüestrados,
seis Bispos estão “desaparecidos”, as famílias católicas
são discriminadas e seus filhos excluídos das escolas. Membros da
Igreja Católica em Hong-Kong afirmam que documento secreto do Governo
revela que, se a repressão não der certo, os católicos serão
sumariamente exterminados (31-1-00).
l
Foi detido o Arcebispo católico Yang Shudao (14-2-00).
l
Foram presos dois Bispos, um deles com 81 anos, e um sacerdote, fiéis
ao Papa; a polícia torturou selvagemente outro padre, arrasou o
altar, espancou fiéis e aprisionou catequistas e religiosas. A Fundação
Cardeal Kung informou que é a terceira vez em três semanas que
ocorrem prisões e maus tratos contra membros da Igreja Católica
clandestina, tanto de Bispos quanto de sacerdotes, religiosas e leigos
(18-9-00).
lO
governo proíbe cerimônias públicas em honra dos novos santos
canonizados pela Igreja. Os fiéis de Hong-Kong desafiaram o regime,
realizando as comemorações (31-10-00).
l
O regime comunista destruiu 1.200 igrejas na província de Zhejiang. O
alvo principal foram as católicas (13-12-00).
lCentenas
de igrejas de Wenzhou, no sul da China, foram fechadas ou destruídas.
Nessa cidade reside uma das comunidades católicas mais importantes da
China, cuja origem remonta à chegada dos missionários estrangeiros
no século passado (“O Globo”, 24-12-00).
Filipinas
Um sacerdote claretiano
e três acompanhantes foram as novas vítimas da guerrilha islâmica
nas Filipinas.
Vietnã
O Pe. Tadeo Nguyen Van
Ly, da cidade de Hué, lançou um apelo público aos Bispos para que
cessem as reuniões com o governo vietnamita,
os pedidos sistemáticos de autorizações às autoridades
comunistas, e denunciou a falta de liberdade religiosa. Entre o período
do paganismo e o advento do comunismo houve mais de 130 mil mártires
católicos no Vietnã.
E mais recentemente —
por ter denunciado violações à liberdade religiosa no Vietnã — o
referido sacerdote foi preso por agentes do governo da província de
Thua Thien Hue.
Segundo a Agência ACI,
de 8 de março p.p., o comitê do governo comunista do Vietnã
declarou: “O cidadão (sic!) Nguyen Van Ly cometeu ações
que violam as leis e atentam contra a segurança nacional”. E
mais tarde acrescentou: "Ao senhor (sic!) Ly daremos
tempo para educar-se e condições favoráveis para corrigir-se de
seus erros”.
Tal declaração merece
um comentário. Desde quando propor a cessação de reuniões com um
Governo marxista, além de lançar denúncias, constituem motivo para
se efetuar uma prisão? E que tipo de regime é este que trata um
sacerdote de “cidadão”? Só mesmo num país comunista isso
sucede.
E onde estão os
denominados defensores dos direitos humanos? Eles não têm
sequer uma palavra de protesto contra regimes marxistas como o
vietnamita, que violam os
mais elementares direitos humanos? E não são eles, junto com toda a
coorte de inocentes úteis, que insistem em repetir que o
comunismo morreu? Ao que parece, o seu discernimento e sua memória são
seletivos: eles “ignoram” o comunismo metamorfoseado do
Ocidente e “esqueceram-se” da existência de países como
China, Vietnã, Coréia do Norte e Cuba...
|
|
Católicos sudaneses, persguidos pelo
regime islâmico de Cartun, reúnem-se para rezar ao ar livre,
no sul do país.
|
África em geral
Sudão
l
De acordo com o boletim Corrispondeza
Romana (18-12-00), o governo islâmico sudanês expulsou a Christian
Solidarity International, organização que havia
resgatado 15.447 escravos sudaneses (na maioria católicos) desde
1995.
l
Bombardeio aéreo lançou quatro bombas sobre escola católica no sul
do país, matando 14 crianças e ferindo inúmeras outras (“Folha de
S. Paulo”, 12-2-00).
l
Aviões da Força Aérea sudanesa bombardearam mais uma escola católica
no sul do país. Foram lançadas 40 bombas de metralha quando estavam
reunidos 700 alunos. Esse ataque foi o quarto bombardeio em nove
meses, lançado pelas forças de Cartum, capital do Sudão, que busca
islamizar todo o país (1-12-00).
l
O regime islâmico sudanês pratica largamente a escravidão de moças
cristãs do sul do país (“Jornal do Brasil”, 10-12-00).
Nigéria
lO
Estado de Kano adotou projeto instituindo a lei islâmica (25-1-00).
l
Em Kaduna, norte da Nigéria, a luta iniciada com protestos dos cristãos
contra a adoção da lei islâmica em vários Estados já deixou 300
mortos no país, em dois meses (“Jornal do Brasil”, 23-2-00).
l
Conflito étnico‑religioso entre os cristãos Ibos e os muçulmanos
Hausas, em guerra desde a semana passada ao norte da Nigéria,
estendeu‑se ontem para o Sudeste, onde pelo menos 50 pessoas
morreram em tumultos na cidade de Aba (“Jornal do Brasil”,
29-2-00).
Burundi
l
Assassinado missionário leigo católico
italiano (4-10-00).
l
A religiosa italiana Sor Gina Simionato, 55
anos, foi assassinada no domingo passado por guerrilheiros, quando se
dirigia com três Irmãs burundianas para participar da missa
dominical. Nos últimos 15 dias já foram assassinados quatro missionários
italianos (17-10-00).
Ruanda
O regime ruandês
promoveu uma caçada contra sacerdotes católicos acusados de
participar de “genocídio” (26-11-99).
Congo
Guerrilheiros seqüestram
o Arcebispo Emanuel Kataliko, descontentes com seu sermão de Natal
(“O Globo”, 16-2-00).
Egito
Na véspera da chegada
de João Paulo II ao país, islamitas assassinam pelo menos 19 cristãos.
A um deles, de 24 anos, “os agressores disseram que parariam de
espancá-lo se dissesse que era muçulmano. Ele respondeu que
preferiria ser assassinado, e então esmagaram sua cabeça e depois
cortaram seus braços” (“O Estado de S. Paulo”, 25-2-00).
Católicos
perseguidos em Cuba
Não nos alongaremos em
relatar as perseguições que ocorrem em Cuba, pois o noticiário a
respeito é mais freqüente. Mencionaremos apenas algumas breves e
recentes notícias. Uma delas, distribuída pela Agência Católica
de Informações (ACI), narra que membros do Departamento de
Assuntos Religiosos do Partido Comunista Cubano, de Palma Soriano,
invadiram a casa de uma católica,
Elena Macías, agrediram-na e destruíram uma imagem de Nosso Senhor
Jesus Cristo, lançando
os pedaços desta no rosto da Sra. Macías.
A
Agência Zenit denuncia que o Ministério da Educação de Cuba
proíbe que os alunos de escolas primárias usem objetos religiosos,
como medalhas, santinhos, cruzes, escapulários e outros símbolos católicos.
Segundo esse ministério marxista, tal medida foi adotada com a
finalidade de que as expressões religiosas não obstruam o
trabalho político-ideológico desenvolvido com os alunos (sic!).
Encerramos este relato
com uma afirmação do Bispo de Verona, Mons. Flavio Roberto Carraro,
Presidente da Comissão para a Evangelização dos Povos, da
Conferencia Episcopal Italiana. Regressando de Cuba o Prelado declarou
ao diário italiano “Avennire”: "A situação da Igreja em
Cuba, é de sofrimento”. Ele cita um documento confidencial do Comitê
central do Partido Comunista de Havana, do qual constam instruções
para destruir o sentimento religioso latente em muitos cubanos.
Rezemos também pela
perseverança de nossos irmãos católicos perseguidos e martirizados
na ilha-prisão de Fidel Castro. Muitos deles
jazem nas sórdidas masmorras comunistas, seviciados, sem
qualquer assistência espiritual, pois em Cuba ela é proibida.
|
Martírio
de Santo Estêvão - Annibali Carracci (1603), Museu do
Louvre, Paris. |
Algumas
considerações sobre o martírio
Em face desse sinistro
quadro, uma pergunta vem à mente: serão mártires todos os católicos
mortos nessas lutas e perseguições?
Para responder a tal
pergunta, é útil resumir brevemente aqui a doutrina católica sobre
a matéria.
Noção geral
A palavra “mártir”
provém do grego e significa “testemunha”. Ela foi
empregada nos primeiros tempos do Cristianismo para indicar os Apóstolos
e os primeiros discípulos que, tendo presenciado os milagres e a
Ressurreição de Jesus, derramaram seu sangue para dar testemunho
disso. Posteriormente, o termo foi utilizado num sentido mais amplo,
para designar todos os cristãos que preferiram a morte a renegar sua
Fé.
Na linguagem eclesiástica,
a palavra “martírio” refere-se, pois, ao testemunho da
verdade cristã, selada com o sangue, até o sacrifício da própria
vida.
Tendo sido Nosso Senhor
Jesus Cristo o Mártir por excelência, mártir é todo aquele que, à
semelhança de Cristo, dá o testemunho da verdade com a
própria vida. Assim sendo, Santo Estêvão foi o primeiro mártir.
“A história de Estêvão é uma repetição da história de
Cristo. Ser santo (ou mártir), para os primeiros cristãos,
era morrer não só por Ele mas como Ele .... Assim como o batismo
significava morrer com Ele e ressurgir para a plenitude da vida
eterna, o martírio era o selo de uma total conformidade do santo com
Cristo” (1) .
O martírio constitui um
ato supremo da virtude da fortaleza e o mais perfeito ato de caridade.
Características
De acordo com os teólogos,
três são as condições para que haja verdadeiro martírio:
1
- Que se sofra verdadeiramente a
morte corporal.- O mártir é considerado a perfeita testemunha da
Fé cristã, aquele que deu a prova absoluta de seu amor a Cristo.
Ora, a vida é o maior bem natural do homem. Logo, dar a vida por
Cristo é a maior prova de amor a Ele. Aquele que conserva a vida do
corpo ainda não demonstrou de modo absoluto que despreza todas as
coisas terrenas por amor de Cristo. Assim, antes de ter dado a vida
pelo Senhor, ninguém pode ser chamado verdadeiro mártir. Por isso,
aqueles que sofreram tormentos por amor a Deus, mas não até a morte,
não podem ser chamados mártires no sentido perfeito e completo do
termo. A Igreja não chama mártires senão aqueles que morreram por
Cristo, e reserva o título de confessores àqueles que sofreram o exílio,
a prisão, a perda dos bens, e mesmo a tortura para confessar sua Fé.
2
- Que a morte seja infligida por ódio
à verdade cristã.- A verdade da Fé cristã exige não só a
adesão interna às doutrinas reveladas, mas também a profissão
externa, por meio de palavras e de atos, mediante os quais se
demonstra a própria fé. Todos os atos de virtudes, por se reportarem
a Deus, são, de algum modo, profissões de fé, pois é através da fé
que sabemos que Deus premia alguns atos e castiga outros.
Por isso, não somente a
fé pode ser causa do martírio, mas toda virtude, contanto que se
relacione com Deus; assim São João Batista é honrado como mártir
por haver sustentado os direitos da fidelidade conjugal. Do mesmo
modo, São João Nepomuceno foi canonizado como mártir por se recusar
a violar o segredo da Confissão; e Santa Maria Goretti, para
preservar a pureza.
Requer-se, portanto, que
a morte seja infligida por um inimigo da Fé divina ou da virtude
cristã. Por conseguinte, não são mártires, no sentido próprio do
termo:
a -
aqueles que suportaram a morte em virtude de moléstia
contagiosa, contraída de
doentes dos quais tratavam por amor a Deus (estes podem vir a
ser considerados “confessores”);
b
- os que sofreram a morte na defesa de uma verdade natural;
c -
os que sofreram a morte na defesa da heresia.
Também é necessário,
da parte do perseguidor, o ódio à Fé ou a toda outra boa obra,
desde que ordenada pela Fé de Cristo. E quanto a isso, pouco importa
que o perseguidor seja pagão, herege ou mesmo católico; basta que
ele inflija a morte por ódio a uma virtude que se pode relacionar com
a Fé; assim Santo Estanislau de Cracóvia, São Tomás de Cantuária
e São João Nepomuceno foram postos à morte respectivamente por
Boleslau, Rei da Polônia, Henrique II da Inglaterra e Wenceslau, Rei
da Boêmia, que no entanto eram católicos.
Contudo, não é necessário
que o perseguidor reconheça expressamente que age por ódio à fé;
basta que este seja seu verdadeiro motivo, mesmo quando ele invocar um
outro pretexto. É o que confirma a História, pois Nero começou a
perseguição pretextando o incêndio de Roma em 64 dC., que ele
atribuía caluniosamente aos cristãos.
3
- Que a morte seja aceita
voluntariamente.- Um adulto que é morto durante o sono, por ódio
à Fé, normalmente não é verdadeiro mártir. Porém, muitos autores
ensinam que um adulto que tenha abandonado tudo para seguir o Senhor,
e é morto pelos inimigos da Religião enquanto está dormindo, em ódio
à Fé cristã, é verdadeiro mártir, porque em sua entrega total
estava implícita a aceitação voluntária de tudo o que viesse em
conseqüência dessa entrega, inclusive a morte.
Na aceitação voluntária
da morte está compreendida a ausência de resistência. Pois se a
pessoa se defende, pode ser que tenha querido salvar a vida, não
entregá-la. Defender a própria vida é legítimo (e em muitos casos
é até obrigatório), mas não caracteriza o martírio.
Essa exigência faz
levantar uma pergunta: se o soldado que morre numa guerra em defesa da
Fé pode ser considerado mártir. Santo Tomás de Aquino parece
indicar que se pode considerar como mártir o soldado que morre em uma
guerra movida para a defesa da Fé.
Para que haja martírio, entretanto, é necessário uma guerra
entre fiéis e infiéis, não por motivos políticos, mas por causa da
Religião; então aqueles que lutam em prol da Religião católica,
contra os infiéis, morrem mártires, porque a morte lhes é infligida
por ódio à Fé . E sua resistência não é um obstáculo a seu título
de mártir, porque, dizem os teólogos, eles lutaram primariamente não
para defender suas vidas, mas por causa da Igreja e da verdadeira Fé
contra os adversários de Cristo; eles não defendem sua vida senão
secundariamente, na medida em que esta é necessária à Igreja e à Fé
cristã.
Pode uma criança, ainda
não dotada do pleno uso da razão, ser mártir? A resposta é
positiva. Para que sejam mártires, basta que sejam mortas por Cristo,
e isso mesmo no seio materno. Nesse sentido, convém lembrar o caso célebre
dos Santos Inocentes, que a Igreja sempre honrou como mártires.
Nas causas de beatificação
e canonização dos mártires são examinados todos esses elementos.
Uma vez que eles sejam comprovados, fica dispensado o exame de
heroicidade das virtudes e, algumas vezes, também a prova
complementar dos milagres.
Eficácia
e efeitos do martírio
1 -
Justifica o pecador. - O martírio confere o estado de graça
ao pecador, seja ele adulto ou criança. Para o adulto, entretanto, é
preciso que venha unido pelo menos a uma atrição ou contrição
imperfeita dos pecados cometidos. Na aceitação voluntária da morte
por amor de Deus ou da virtude já está implícita a dor pelos
pecados.
Pessoas adultas não
batizadas, mortas por ódio à Fé, são igualmente justificadas e vão
para o Céu.
Explica-se isso porque
o martírio supre o batismo de água e produz os mesmos
efeitos: apaga o pecado original, e os pecados atuais quanto à culpa
e à pena. É o chamado “batismo de sangue” (cfr. Mt 10, 32
e 39). Entretanto, se o adulto é catecúmeno (em fase de preparação
para ser batizado), ele deve, tanto quanto possível, receber o
batismo de água antes do martírio.
Se se trata de um adulto
já batizado, deve ele, se possível, confessar seus pecados a um
padre, ou pelo menos lamentá-los e receber a Sagrada Comunhão,
porque esses preceitos obrigam, em decorrência do direito divino, no
momento da morte, e o mártir não pode ser dispensado. Ressaltamos
que isso é requerido só quando há possibilidade, ou seja, no caso
em que já se prevê o martírio e existem condições de se preparar
para ele. Por exemplo, antes de ir a uma batalha, numa guerra de
Religião.
2
- Destrói a culpa venial e a pena
temporal de todos os pecados – Sendo um perfeito ato de
caridade, o martírio destrói nos justos (ou seja, nos que estão em
estado de graça) toda a culpa venial e toda a pena temporal devida
pelos pecados passados. Por isso, todos os mártires entram
imediatamente no Céu, sem passar pelo Purgatório.
3
- Produz um aumento na graça e na glória
– O martírio confere ainda aos justos um aumento notável na graça
e na glória.
4 - Merece
especial recompensa no Céu – Por fim, o martírio merece uma
recompensa especial no Paraíso celeste, a que Santo Tomás chama uma
alegria, um prêmio privilegiado, correspondente a uma privilegiada
vitória.
Martírio
espontâneo
Sendo o martírio um ato
de virtude, é louvável oferecer-se espontaneamente para ser
martirizado? Como explicar que a Igreja tenha visto nessa atitude uma
pretensão e um perigo?
A razão dada pela
Igreja é que não é permitido oferecer aos outros a ocasião de agir
com injustiça; seria um pecado de cumplicidade. Entretanto, a Igreja
aceitava como martírio esse fato quando se tratava daqueles que
tinham tido a fraqueza de abjurar a Fé e queriam reparar sua falta.
Os teólogos admitem que uma especial inspiração do Espírito Santo
pode explicar essa iniciativa, assim como muitas outras causas, entre
as quais Santo Tomás cita o zelo pela fé e a caridade fraterna.
São Gregório
Nazianzeno resume numa sentença a regra a ser seguida nesses casos:
procurar a morte é mera temeridade, mas recusá-la é covardia.
Tendo isso em vista,
pode-se habitualmente desejar o martírio e pedi-lo a Deus? A resposta
é que o próprio Nosso Senhor nos encorajou a isso. Por outro lado,
os teólogos não têm trabalho nenhum em demonstrar que o desejo do
martírio não compreende de nenhum modo a aceitação do pecado
cometido pelo perseguidor, nem a menor cumplicidade com ele.
Em sentido contrário,
é lícito fugir da ocasião de martírio? Sim, dizem os teólogos, e
também disso nos deu exemplo Nosso Senhor Jesus Cristo fugindo dos
fariseus, quando queriam apedrejá-Lo. Em certas circunstâncias, uma
fuga dessas não pode, de nenhum modo, ser assimilada a uma negação
da Fé; é mais bem uma confissão virtual, pois que é a aceitação
de grandes males, como o exílio, por apego à Fé. Entretanto, os
Bispos e aqueles que têm o encargo de almas não podem fugir, se sua
fuga importa no risco de provocar a dispersão do rebanho.
Não se pode também
provocar os perseguidores. Por isso é que quebrar ídolos foi
condenado pelo Concílio de Elvira (ano 306). A provocação é lícita,
caso pareça que ela venha de uma inspiração do Espírito Santo, ou
se as circunstâncias mostrarem que o servidor de Deus devia agir
desse modo pelo bem da fé e da Religião, ou por mandado da
autoridade pública.
|
|
Martírio de Santo Inácio de Antioquia
|
Exemplo
de um grande Santo
Sobre o desejar o martírio
e mesmo procurá-lo, convém lembrar o
magnífico exemplo de Santo Inácio de Antioquia, no século
II, discípulo de São João Evangelista. Estando preso em Roma para
ser executado, soube que cristãos eminentes tentavam libertá-lo e
estavam rezando nessa intenção. Escreveu-lhes então no sentido de
que desistissem de tal intento, estas belas palavras: “Peço-lhes
que não dispensem uma bondade inoportuna em meu favor. Deixem que eu
seja devorado pelas feras, através das quais chegarei à presença de
Deus. Eu sou o trigo de Deus e é preciso que eu seja triturado pelos
dentes dos animais selvagens para tornar-me puro pão de Cristo”
(2). O que realmente se realizou.
*
* *
Não poderíamos
terminar este artigo sem externar uma lamentação: o Coliseu, local
do martírio de tantos cristãos, verdadeira relíquia da Cristandade,
foi recentemente restaurado e reaberto... para espetáculos! Esse
imponente monumento romano, erigido pelo Imperador Tito por volta do
ano 80 dC., assistirá agora a outra sorte de espetáculos; não mais
os proporcionados pelos milhares de homens, mulheres e crianças que
enfrentaram as feras, derramando seu sangue por Cristo, mas por
artistas de teatro encenando peças mundanas... (3)
Notas:
1 - Kenneth L. Woodward, A Fábrica de Santos, Editora
Siciliano, 1992, p. 53.
2 - Kenneth L.
Woodward, op. cit., p. 53.
3 - Cfr. “Folha de S. Paulo”,
20-7-00.
Outras obras consultadas:
- The
Catholic Encyclopedia, verbete “martyr”, p. 736 e ss.
- Dictionnaire de
Théologie Catholique,
Librairie Letouzey et Ané, Paris, 1928, tomo X, verbete “Martyre”,
p. 221.
- La Grande
Encyclopédie, Paris, Société Anonyme de la Grande Encyclopédie,
tomo XXIII, verbete “Martyr”, E-H.V., pp. 350-351.
- Les Petits
Bollandistes, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo II, pp. 165.
- Dizionario
di Teologia Morale, Francesco Roberti-Pietro Palazzini,
Editrice Studium, Roma, 1957, verbete “Martirio”.
|
Plinio Corrêa de Oliveira, quando
Diretor do "Legionário"
|
A Igreja
não pode ficar indiferente à perseguição anticatólica
A propósito de
perseguições contra católicos, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira
escreveu vibrante artigo, em 16 de março de 1930, no
“Legionário”, sobre perseguições
que ocorriam então
na Rússia comunista. Transcrevemos a seguir um excerto dele
para ilustração dos leitores:
“Se em circunstâncias
como a atual a Santa Sé não tomasse posição ao lado de seus filhos
aflitos e perseguidos, se não procurasse consolá-los em suas
amarguras e diminuir seus padecimentos, ela daria grande argumento a
seus adversários.
De fato, por que se
intitularia ela Mãe, se deixasse, indiferente, perecer seus filhos?
De que lhes valeria
patrocinar no mundo inteiro a fundação de hospitais, se, indiferente
aos seus próprios mártires, desprezasse, soberba, o sangue derramado
pela Fé Católica e que, segundo a Bíblia, brada aos Céus?
Poder-se-á, é certo,
objetar que a perseguição é tão pequena, que não mereceria uma
tão enérgica repulsa. Tal argumento, porém, mal merece as honras de
uma resposta.
Admitindo (posto que
não concordemos com esta asserção) que a perseguição seja
minúscula, admitindo mesmo que apenas um fiel tivesse sido morto por
causa de sua Fé, perguntamos: não teria a Igreja o direito de
protestar com todas as suas forças?
Merecerão os seus
filhos menos carinho, pelo fato de serem humildes e pouco numerosos?
Não, o mesmo direito
que lhe assiste, de protestar contra o massacre de um país inteiro,
lhe assiste de protestar contra a morte de um só de seus fiéis, pois
que por todos vela a Igreja, com igual e carinhosíssima
solicitude”.
|
|