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Teologia da Libertação no poder? Plinio
Vidigal Xavier da Silveira
Disse o Bem-aventurado Papa Pio IX, em 1873: “Um grande número [dentre os católicos] parecem querer caminhar de acordo com nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniqüidade. [...] São eles muito mais perigosos certamente e mais funestos do que os inimigos declarados”.1 Como ninguém ignora, a Igreja atravessa em nossos dias a maior crise de sua venerável existência vinte vezes secular. (vide quadro à p. 17). Impulsionando essa crise está uma corrente de teologia, dita da libertação, que procura perverter a doutrina imutável da Santa Igreja, transformando-a em uma cartilha de luta de classes marxista. Um dos principais expoentes brasileiros dessa teologia, o religioso dominicano Frei Betto, chegou a declarar: “O que propomos não é teologia dentro do marxismo, mas marxismo (materialismo histórico) dentro da teologia”.2 Conhecido por suas posições teológicas contrárias à doutrina social católica tradicional, Frei Betto tornou-se um dos principais assessores de Lula da Silva, e foi designado como consultor especial do Presidente, chegando a ser apresentado como seu orientador espiritual .3 Com ele, subiram ao poder
diversos nomes da ala progressista da Igreja, conforme
afirma, em significativo artigo intitulado Planalto abre vagas
para radicais da Igreja, o articulista Roldão Arruda: “O
prestígio da Igreja Católica no atual governo está em alta. Mais
precisamente, o prestígio da ala progressista, seguidora da
Teologia da Libertação [...]. O Presidente Luiz Inácio Lula da
Silva já teria dito a amigos e assessores que considera positiva a
influência dos progressistas em seu governo”.4
Na mesma linha, o jornal
“Valor” publicou um longo estudo sobre o fim do ostracismo a que
estava relegada essa ala progressista, demonstrando a íntima
ligação do novo Governo com a chamada Teologia da Libertação,5
que propõe “uma interpretação inovadora do conteúdo da fé
e da existência cristã, interpretação que se afasta gravemente
da fé da Igreja, mais ainda, constitui uma negação prática dessa
fé” (Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia
da Libertação”, de 6-8-1984, da Congregação para a Doutrina da
Fé, VI, 9). A
Teologia da Libertação no Governo A doutrina da Teologia da
Libertação foi condenada por João Paulo II em sua Alocução de
Puebla, em 1979.(6) Apesar dessa condenação, ela continuou a ser
amplamente difundida através da esquerda católica em seminários
e sacristias.7 Com o advento do Governo do
Partido dos Trabalhadores — que nasceu nas sacristias
progressistas ao lado do MST (Movimento dos Sem-Terra) — ela alcança
postos de grande influência no Governo Federal. Em artigo recente,
publicado no jornal “Correio Braziliense”, Frei Betto faz afirmações
reveladoras nesse sentido. “[...] Contemplo a
Esplanada dos Ministérios. Ali está a ministra Marina Silva,
seringueira, analfabeta até os 14 anos, militante das CEBs
(Comunidades Eclesiais de Base) do Acre. [...] Ao lado, Benedita da
Silva, ministra da Assistência e Promoção Social, líder comunitária
no morro Chapéu Mangueira, atrás do nosso convento dominicano do
Leme, no Rio. Conhecia-a casada com Bola, participante do Movimento
Fé e Política. José Fritsch, ministro da Pesca, integrante das
CEBs de Chapecó, é discípulo de dom José Gomes. No monolito preto do
Banco Central, reencontro Henrique Meirelles, militante da JEC
(Juventude Estudantil Católica) de Anápolis, movimento do qual fui
dirigente nacional nos anos 60. [...] No ministério de Minas e
Energia está Dilma Roussef, minha vizinha de rua na infância,
companheira de cárcere no Presídio Tiradentes, em São Paulo, nos
anos 70. José Graziano, à frente do Ministério Extraordinário
de Segurança Alimentar e Combate à Fome, também foi meu
companheiro de JEC, responsável pela coordenação estadual em São
Paulo [...]. "Olívio Dutra,
ministro das Cidades, militante da Pastoral Operária. [...] Dentro
do Palácio do Planalto, a viagem ao passado me traz de volta José
Dirceu, líder estudantil que se escondeu em nosso convento de São
Paulo, nos anos 60 [...]. "O gabinete pessoal do
presidente da República é comandado por meu parceiro de Pastoral
Operária, Gilberto Carvalho, que foi dirigente nacional do
movimento Místico. [...] À frente da Secretaria de Imprensa está
Ricardo Kotscho, com quem fundei Grupos de Oração, ativos há 23
anos. Ao lado de minha sala está o gabinete presidencial [...]
agora, na Esplanada dos Ministérios, somos uma comunidade responsável
pelo governo do Brasil”.8 Pouco depois, Lula ainda
nomeou outros nomes ligados à esquerda católica, como o ex-membro
da CPT (Comissão Pastoral da Terra) para Presidente do INCRA,
Marcelo Resende, que chega a usar “na mão esquerda um anel escuro
feito de tucum, palmeira típica da região Norte do País. É um
ornamento que [...] é usado por padres, freiras e leigos vinculados
à ala progressista da Igreja Católica. Destina-se sobretudo a
mostrar o compromisso radical com as causas populares”. É preocupante ver que uma corrente teológica, condenada pela Santa Sé por alterar a doutrina católica e pregar a revolução social, possa ter uma influência tão grande na vida pública do País e na elaboração das políticas governamentais. Não foi por acaso que outro dos expoentes da Teologia da Libertação, o ex-frei Leonardo Boff, declarou ao “Jornal do Brasil”, pouco antes das eleições: “O palco para esta revolução necessária, a revolução brasileira, está montado nestas eleições presidenciais”.10
CEBs: sovietes para o programa Fome Zero? Como braço organizado da Teologia da Libertação, surgiram as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), que são pequenos grupos formados por iniciativa do clero e de agentes pastorais, em torno das paróquias e capelas. Sobre elas, a TFP publicou um esclarecedor estudo intitulado As CEBs... das quais muito se fala, pouco se conhece – A TFP as descreve como são. O termo Comunidade de Base, segundo D. Miguel Balaguer, Bispo de Tacuarembó (Uruguai) na década de 80, tem uma curiosa explicação: “[...] Agora elas foram batizadas com o nome de ‘comunidades de base’; expressão inspirada na terminologia marxista, equivalente a soviete”.11 Recentemente foi noticiado que Frei Betto está articulando a ajuda dessas CEBs ao Programa Fome Zero. Não se sabe ainda como será esse auxílio, mas há algumas informações preocupantes a respeito. Em entrevista à imprensa, o ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e de Combate à Fome, José Graziano, afirmou: “Na nossa concepção, não importa a fiscalização de como foi feito o gasto. O que importa é a organização popular que uma ação como a do Cartão-Alimentação promove. [...] Cria um embrião de organização local: os comitês gestores”.12 Esses objetivos do Governo valeram um editorial da “Folha de S. Paulo”, que apontou o caráter autoritário do projeto Fome Zero: “Seria mais simples e digno reconhecer como desastrosa a idéia de que os pobres que fazem jus ao benefício têm de ser tutelados por conselhos gestores (de inspiração cubana?) ou por quem quer que seja”.13 * * * O Brasil encontra-se diante de um novo e apreensivo panorama: a presença ostensiva de alguns dos mais exacerbados próceres da Teologia da Libertação em posições importantes do novo governo. O eleitorado brasileiro, cujo conservadorismo foi reconhecido até por políticos e jornalistas dos mais variados matizes, vê agora a mais esquerdista tendência do progressismo católico assumir uma posição de grande destaque na direção do País. Não era isso que ele esperava. Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, proteja nossa Pátria, preservando-a dos erros da Teologia da Libertação.
Notas: 1. Carta ao Círculo Santo Ambrósio, de Milão, de 6-3-1873, apud Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Diário das Leis Ltda., S. Paulo, 1982, 2ª. ed. p. 27. 2. Marxismo na Teologia, in “Jornal do Brasil”, 6-4-80. 3. Frei Betto passou quatro anos na prisão, condenado pela justiça por envolvimento com a guerrilha urbana de Carlos Marighela, e é, juntamente com o ex-frei Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação. 4. “O Estado de S. Paulo”, 23-2-03. 5. O frade e o Presidente, Vivas ao irmão Lula, “Valor”, S. Paulo, 27, 28 e 29/12-02. 6. Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Libreria Editrice Vaticana, vol. II, 1979, pp. 192-193, apud. Plinio Corrêa de Oliveira, G. A. Solimeo, L. S. Solimeo, As CEBs... das quais muito se fala, pouco se conhece – A TFP as descreve como são, Ed. Vera Cruz, 4ª ed., 1983, p. 75. 7. A esquerda católica poderia ser definida como uma seita progressista encastoada no seio da Igreja, inspirada na Teologia da Libertação. 8. “Correio Braziliense”, 23-1-03. 9. “O Estado de S. Paulo”, 8-3-03. 10. Quem faz a revolução?, “Jornal do Brasil”, 23-8-02. 11. As CEBs..., op. cit., p. 122. 12. Marta Salomon, Graziano indica que Vale-Gás e Bolsa-Renda podem acabar, “Folha de S. Paulo”, 2-2-03. 13. Pai dos pobres, “Folha de S. Paulo”, 2-2-03. * Cientista político pela Universidade de Brasília. (Publicado pela Revista Catolicismo, em abril de 2003) |
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