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Os 500 anos
da Antecedentes do Descobrimento |
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Antecedentes
do Descobrimento do Brasil
As grandes navegações portuguesas e o Descobrimento do Brasil não teriam sido possíveis se não fossem precedidos por uma geração excepcional de Príncipes – a Ínclita Geração – formados segundo os princípios católicos, impulsionados por um verdadeiro espírito de Cruzada e dotados de qualidades humanas invulgares, marcando a história lusa e européia. Nelson Ramos Barreto Como
pôde um pequeno país, com menos de dois milhões de habitantes, realizar
a epopéia dos descobrimentos por “mares nunca dantes navegados”?
Portugal foi o pioneiro dos descobrimentos empreendidos pela Europa
cristã nos séculos XV e XVI, seguido pela Espanha e depois por outras Nações.
Até fins do século XIV, além da Europa cristã, o conhecimento máximo
do Planeta correspondia a cerca de 1/4 de toda a Terra e encontrava-se
grosso modo na posse da civilização islâmica. Ao longo do século XVI,
o conhecimento do orbe terrestre aproxima-se da sua totalidade e passa a
ser influenciado decisivamente pela Europa cristã.
Essa epopéia começa com a conquista de Ceuta, na África,
em 1415. Depois vem a exploração das ilhas da Madeira e dos Açores,
nas décadas de 20 e 30. Segue-se o reconhecimento da costa africana, em
1434, tendo sido ultrapassado o Cabo Bojador, atingindo-se o extremo sul
do Continente pelo Cabo da Boa Esperança, em 1487. Logo depois foi aberta
a rota das Índias, em 1497, por Vasco da Gama.
O primeiro empreendimento espanhol data de 1492, com Cristóvão
Colombo, a serviço dos Reis Católicos. A expansão efetuada por outros
povos europeus é bastante posterior. As primeiras iniciativas relevantes
de franceses e ingleses surgem apenas nos anos 30 do século XVI. O Rei, a Rainha e o Condestável
“O reinado de D. João I foi mais importante na história da
Europa do que ele poderia ter sonhado, pois foi o período que preparou
Portugal para o seu grande século.”[i]
Portugal estava ainda impregnado do espírito de Fé e das santas
ousadias da Cavalaria da Idade Média – época iluminada pela filosofia
do Evangelho, como diz Leão XIII, e pelo aroma dos santos, conhecida como
a “doce primavera da Fé”. Era uma nação privilegiada, ainda
pouco contaminada pela decadência trazida pela Renascença. Esta \\gerou
um novo “tipo humano, legítimo precursor do homem ganancioso,
sensual, laico e pragmático de nossos dias, da cultura e da civilização
materialistas em que cada vez mais vamos imergindo”.[ii]
Para compreender o ambiente em que se formou a Ínclita Geração[iii],
é preciso conhecer duas figuras que marcaram essa época: a Rainha Da.
Filipa de Lancaster e o Bem-aventurado D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável.
No dia 2 de fevereiro de 1387, o Rei D. João I, Mestre de Avis,
desposou Da. Filipa, filha do duque inglês D. João de Lancaster. Senhora
bondosa e piedosa, recitava todas as manhãs as horas canônicas, às
sextas-feiras não falava a ninguém sem antes ter recitado todo o saltério,
jejuava freqüentemente e lia as Sagradas Escrituras nos tempos
convenientes.[iv]
Maior influência ainda que o Rei e a Rainha exerceu Nuno Álvares
Pereira, que era muito amado pelo povo. Além de vencer a batalha de
Aljubarrota e diversas outras, ele influenciou toda a flor da nobreza
lusitana com suas virtudes. Era um cavaleiro tão perfeito quanto se pode
encontrar em livros de cavalaria. Invicto no campo de batalha, exímio nas
virtudes cristãs, empregou sua fortuna na caridade e na construção de
mosteiros e igrejas dedicados a Nossa Senhora, terminando seus dias como
simples irmão leigo.
Com o exemplo do Rei e da Rainha nas virtudes domésticas da família
católica, e com Nuno Álvares Pereira servindo de herói-modelo à
mocidade do país, a vida nacional elevou-se a um nível de pureza que
nunca antes conhecera. A Ínclita Geração
Os seis filhos de D. João foram criados em uma atmosfera
glorificada pela piedade mística de sua mãe, fortalecida pelo pai
soldado e pelos amigos guerreiros, e tornada intelectual pela sua própria
paixão pelos livros. Rica herança foi a deles. Descendiam de grandes
campeões, como Afonso Henriques, o terror dos Mouros; dos dois Eduardos
ingleses – I e III –; e de Afonso IV, herói do Salado. Além desses
heróis, tinham por antepassados príncipes tão cultos como D. Diniz, o
Rei Trovador; Afonso, o Sábio, de Castela; e João de Lancaster, patrono
das letras. Não é de espantar que todos esses jovens infantes tivessem
uma natural inclinação para o saber.
Quando os três filhos mais velhos – D. Duarte, D. Pedro e D.
Henrique – completaram a idade para serem armados cavaleiros, D. João
comunicou-lhes que tinha pensado num grande projeto: realizaria uma série
de torneios todos os dias de um ano, para os quais seriam convidados os
campeões de todas as nações. No meio desse vistoso e magnífico
aparato, com os representantes de toda a Europa assistindo, os jovens
infantes seriam armados cavaleiros.
Mas eles não gostaram da idéia do torneio. Queriam ser armados
cavaleiros no campo de batalha. E, por sugestão de João Afonso de
Alenquer, Tesoureiro Real, pediram ao Rei, seu pai, que empreendesse a
conquista de Ceuta, a mais bela cidade, a mais florescente da Mauritânia,
ao norte da África.
Os futuros cavaleiros encheram-se de entusiasmo: conquistar Ceuta
mourisca, o porto de refúgio de todos os piratas sarracenos que
infestavam os estreitos. Isto não seria apenas um grande e útil feito de
armas, mas também um feito de Cruzada!
Sim, levar a espada da Cruzada à África seria abrir um novo capítulo
à história daquela Guerra Santa que a Cristandade vinha travando há 600
anos contra o islã. Até então, o papel dos Cristãos fora sobretudo
defender e recuperar. A tomada de Ceuta poderia ser o ponto de partida
para uma grande e nova ofensiva. Poderia atravessar o mundo, fulgurar
desde a África até o Extremo Oriente, e realizar a vitória final da
Cruz.
Depois de vencer o ceticismo do pai e os obstáculos financeiros,
ouvido os conselhos dos teólogos e do Condestável, receber a permissão
e a bênção da mãe, eles puseram-se a executar o ambicioso plano, mas
sem revelar o alvo da empresa.
As funções foram divididas entre os três infantes. D. Henrique
foi incumbido de alistar gente no Norte e concentrar-se na cidade do
Porto. D. Pedro faria o mesmo no Sul, trazendo os conscritos para Lisboa.
D. Duarte ficou com a administração das finanças e da justiça.
D. Henrique partiu então para o Porto, sua cidade natal. O povo
atendeu a seu apelo com entusiasmo. Todos os distritos ferviam com os
preparativos. Os caminhos estavam congestionados de carros de boi e fiadas
de mulas carregadas de provisões para a esquadra. Os citadinos
alimentavam-se das tripas do gado, para que todo ele, uma vez abatido,
fosse salgado para o navio. Por isso foram apelidados de tripeiros, como
até hoje se designam os nascidos no Porto. A Conquista de Ceuta
“Senhor, eu vos peço por vossa mercê que me outorgueis duas
coisas: a primeira, que eu seja um dos primeiros que pise em terra quando
a Deus aprazar chegarmos diante da cidade de Ceuta, e a segunda é que
quando a vossa escada real for posta sobre os muros da cidade, que eu vá
primeiramente nela que outro algum”, pediu D. Henrique a seu pai, D.
João.
“Meu filho, disse o Rei sorrindo a D. Henrique, bem me
lembro do pedido que me fizestes... Agora é o tempo de vos responder. Vós
requerestes que fosseis em companhia dos primeiros que pisassem em terra,
porém, a mim não me apraz que vás como companheiro, mas como principal
capitão!”.
D. Henrique beijou a mão do pai, extasiado. O momento por que
suspirava e trabalhara durante três anos seria no dia seguinte! Três
anos, a um mancebo de apenas vinte e um, parecem um bom pedaço da vida.
Na manhã seguinte, depois do sermão do capelão e da absolvição
geral, as ameaças e o desdenho de alguns mouros na praia foram o sinal
para o assalto. Saltaram tantos para o mesmo barco que ele virou
imediatamente. Começaram a batalha com as armaduras molhadas.
D. Duarte entrou na luta sem esperar a autorização do pai. Ele
encontrou D. Henrique combatendo fortemente na praia. Empurremos os mouros
até a porta – disse –, pois poderá ser que entremos junto com eles
ou, ao menos, forçaremos tanto que não possam fechá-la.
Depois que os portugueses derrubaram o gigante negro, um verdadeiro
Golias, os mouros debandaram todos. D. Henrique, seguido de quinhentos
homens, precipitou-se na cidade. A luta
estendeu-se por quase todo o dia. O sol ia já em declínio, e a
luta nas ruas quase cessara. Os mouros tinham fugido da cidade,
abandonando seus mortos.
No domingo de manhã, a mesquita foi purificada com sal e água,
tendo sido cantado um solene Te Deum. Depois de terminada a Santa
Missa, D. João armou os filhos cavaleiros – três guerreiros jovens e
altos revestidos de reluzentes armaduras, cingindo cada um,
orgulhosamente, a espada que sua mãe abençoara.
Eles não podiam imaginar que a conquista de Ceuta viria a ser um
marco na história da Europa e da Cristandade. Tal conquista foi a prova de fogo, mediante a qual a Ínclita Geração demonstrou seu exímio valor guerreiro. Valor que se manifestaria depois através de outros feitos épicos, como as grandes navegações e descobrimentos, inclusive o de nosso Pátria, em abril de 1500. [ii] Plínio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Diário das Leis Ltda, SP, 2a. ed., 1982, p. 19. [iii] Assim denominada por Camões, a geração ilustre dos seis filhos de D. João I e Da. Filipa de Lancaster. [iv] Fernão Lopes, Crônica de D. João I – Parte II, cap. XCVII, op. citado, p. 11.
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