Brasil - 500 anos

Balanço de uma comemoração que envergonhou o Brasil


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Uma onda de manifestações e invasões, realizadas por uma minoria articulada, procurou convulsionar o país e desmerecer a obra evangelizadora e civilizadora


   Frederico R. de Abranches Viotti

            Tudo parecia preparado para um grande acontecimento, próprio a relembrar os 500 anos de lutas e desafios, dores e alegrias, derrotas e vitórias que formaram o nosso Brasil. Um país que soube reunir povos de todas as origens, acolhendo-os em suas terras e formando-os nessa esplêndida harmonia de raças e culturas.

            Sim! Nosso país completou 500 anos!

            Todavia, acontecimentos variados surpreenderam todos aqueles que aguardavam a celebração do maior fato de nossa história, isto é, a chegada do Evangelho e da Civilização às terras onde antes imperava o paganismo e a barbárie.

 

Os acontecimentos do dia 22 de abril

            Logo no início da manhã do dia 22 de abril, ocorreram os primeiros confrontos entre manifestantes e a polícia. Um grupo de estudantes, sem-terras e anarquistas entrou em choque com a polícia, fechando uma das rodovias de acesso a Porto Seguro. Mais de 100 pessoas foram presas.

            Às 10:00 horas, um comboio de manifestantes foi retido na BR 367, por uma das barreiras policiais. Os manifestantes desceram dos ônibus e começaram a gritar palavras de ordem e a bloquear a estrada.

            Por volta das 11:00 horas, outro grupo de manifestantes iniciou uma marcha pacífica pelos Outros 500 anos. Novamente, houve choque com a polícia. Os índios foram retirados pela FUNAI e colocados em ônibus que partiram para suas aldeias.

            No início da tarde, um grupo de sem-terras iniciou um protesto na entrada de Eunápolis, na BR 101, queimando pneus e fechando a rodovia.

            Por volta das 17:00 horas, temendo novas manifestações, a entrada de Coroa Vermelha foi interditada pela Cavalaria e pela polícia de choque.

            Vários eventos que estavam programados foram cancelados e a própria Nau Capitânia, réplica da embarcação utilizada por Cabral em 1500, não conseguiu zarpar por problemas técnicos, apesar de ter consumido uma fortuna de quatro milhões de reais.

            O Engenheiro naval inglês, Ralph Nicholson, que construiu a réplica da caravela Niña, de Cristóvão Colombo, para as comemorações de 1992, afirmou que foram cometidos erros elementares na réplica construída no Brasil, sendo um deles, a falta de lastro, imperdoável: “Creio ser uma coisa superbásica e fácil de calcular o peso necessário do lastro numa embarcação”.[i]

            Os acontecimentos em Porto Seguro, relativos aos 500 anos da Terra de Santa Cruz, parece terem sido feitos sob medida para criar no país uma má impressão de sua história.

            A articulista Dora Kramer, do Jornal do Brasil, faz uma afirmação contundente sobre isso: “A intenção era verdadeiramente esta, criar uma situação de confronto... O confronto foi buscado e o governo correspondeu às expectativas. Simples como isso e nada mais.[ii]

 

Por que desmerecer a história do Brasil?

            Nossas terras foram invadidas, nossas terras são tomadas, os nossos territórios invadidos... O Brasil não foi descoberto não... o Brasil foi invadido e tomado dos indígenas do Brasil. Essa é a verdadeira história...”.[iii]

            Esse refrão, publicado na revista Missões sob a orientação do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), parece esclarecer um pouco os acontecimentos do dia 22.

            De forma aparentemente espontânea, vozes se levantaram afirmando uma suposta “invasão” de um país (que, diga-se de passagem, ainda nem existia), dizimação de seus habitantes, exploração de suas riquezas, extermínio de suas religiões etc.

            Não se tratam, como veremos, de vozes contrárias aos abusos que possam ter ocorrido na evangelização do Brasil, mas sim de pessoas interessadas em realizar uma verdadeira “revolução” social no país.

 

A revolução nas estruturas sociais

            Afirma o CIMI: “A luta articulada é alicerce para a construção de um projeto comum que (...) revolucione as estruturas sociais desse país”.[iv]

            Para tanto, eles buscam “articular nosso movimento com as lutas sociais já existentes em âmbito local, regional e nacional e projetá-lo no âmbito internacional, tanto na América Latina, como na Europa (...)”.[v]

            Sobre essas metas, comenta o presidente da Comissão Pastoral da Terra, D. Tomás Balduíno: “O Governo acha que o movimento é político; e é. O governo pode teme-lo, porque é feito para as mudanças. Coincide com os rumos do movimento zapatista, no México, e dos índios, do Equador. Os índios brasileiros, como os sem-terra, vão dizer que não querem só resolver o problema da falta de terras; querem resolver os problemas do país”.[vi]

            Em outros termos, o que deseja essa ala dita progressista do clero é “revolucionar” as estruturas sociais do Brasil nos rumos do movimento zapatista do México!

            Desde o início das comemorações, ainda no dia 21, afirma o Estado de S. Paulo: “um dos refrões que podiam ser ouvidos um dia antes da repressão era: ‘che [Guevara], zumbi, Antônio Conselheiro, na luta por justiça nós somos companheiros”.[vii]

            Na mesma matéria, o periódico paulista lista os grupos articulados contra os 500 anos: índios, MST, anarquistas, estudantes, punks, bolcheviques, bispos da ala progressista etc.[viii]

 

A Missa do dia 26 de abril

            Como parte das comemorações oficiais pelos 500 anos do descobrimento, foi organizada uma missa em memória da primeira missa celebrada quando da chegada dos portugueses ao Brasil, no dia 26 de abril de 1500.

            Como representante oficial do Papa João Paulo II, o Vaticano enviou o Cardeal Ângelo Sodano.

            A diferença de posicionamento entre o Cardeal Sodano e o CIME pode bem ser expressada pelo tom de sua homilia: “Quem mais ajudou a civilizar as populações indígenas que o trabalho missionário? Quem melhor amalgamou as populações dispersas em pequenos núcleos da costa e do interior, que o vigário e o cura? Quem mais fez pela instrução do povo que a Igreja? Quem mais envidou esforços na moralização da família, na paz e concórdia dos cidadãos?[ix]

            Não foi por acaso que alguns bispos se recusaram a participar da Missa presidida pelo enviado do Papa.[x]

 

O índio pataxó e o discurso preparado

            A imprensa deu muito destaque ao discurso do índio Matuluê, cujo nome verdadeiro é Jerry Adriani e é filho de pataxós, neto de negro e casado com uma “branca[xi], feito na ocasião da missa e considerado um “espontâneo desabafo” por alguns setores do clero progressista.

            Todavia, esse discurso parece que foi encomendado. Sobre isso, declarou o Bispo de Eunápolis: “Ele foi usado. (...) Essa agressão foi exagerada e a pessoa que fez isso (escrever o discurso) não demonstrou fidelidade ao cargo que ocupa na CNBB. Foi uma traição.[xii]

            O que disse, afinal, esse índio Pataxó? Disse que “não perdoava” a “invasão” das suas terras e o “massacre” dos índios... Esquece, o índio Matuluê, que aquela terra, hoje pertencente aos Pataxós, pertencia originalmente aos Tupis (na época do descobrimento), que as haviam conquistado dos Tapuias.[xiii]

            Atualmente, 11 % do território nacional são reservas indígenas, onde habitam menos do que 0,2 % da população do Brasil.[xiv]

  O uso político dos índios

            Cabe citar um antropólogo contrário às comemorações dos 500 anos, mas que reconheceu, em entrevista ao jornal do Brasil, como os índios podem ser manipulados. Ao saber que os índios do Alto Xingu fariam homenagens ao Presidente Fernando Henrique, o sertanista Orlando villas Boas criticou as ONGs de áreas indígenas e afirmou: “Os índios nem sabem que podem homenagear autoridade (...) Temo muito essas forças estranhas que atuam por trás das ONGs”.[xv]

            Ora, se não sabem que podem “homenagear”, como é possível afirmar que seu movimento de “contrariar” tenha sido espontâneo após todas essas denúncias publicadas em tão numerosos jornais?

 

A obra benéfica da Igreja

            Sobre todos esses acontecimentos, comentou a ex-deputada Sandra Cavalcanti: “... os festejos dos 500 anos do Descobrimento viraram um pedido de desculpas aos índios. Viraram um ato de guerra. Viraram a invasão de um país. Viraram a conquista de uma nação. Viraram uma verdadeira catástrofe.

            “Um grupo de brancos teve a audácia de atravessar os mares e de se instalar por aqui. Teve a audácia de acreditar que irradiava a fé cristã. Teve a audácia de querer ensinar a plantar e a colher. Teve a audácia de ensinar que não se deve fazer churrasco dos seus semelhantes. Teve a audácia de garantir a vida de aleijados e idosos. Teve a audácia de ensinar a contar e a escrever. Teve a audácia de pregar a paz e a bondade. Teve a audácia de evangelizar[xvi]

            E completa: “Mais tarde, vieram os negros. Depois, levas e levas de europeus e orientais. Graças a eles somos hoje uma nação grande, livre, alegre, aberta para o mundo, paraíso da mestiçagem (...) Para o Brasil, o índio é tão brasileiro quanto o negro, o mulato, o branco e o amarelo. Nas nossas veias correm todos esses sangues. Não somos uma nação indígena. Somos uma nação brasileira”.[xvii]

            Mais do que descobrir o Brasil, Portugal converteu povos e salvou almas. Mais do que expandir o Império, Portugal expandiu a Fé, irradiando o lumen Christi (a luz de Cristo) pelos quatro cantos da Terra.

            Como afirmou certa vez o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira: “implantando a primeira Cruz, erguendo o primeiro altar, rezando a primeira”.

            Combater a evangelização da América ou do Brasil não é defender a cultura indígena, mas combater o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo que ordenou a evangelização do mundo inteiro (cfr. Mt. 28, 19). É condenar os índios ao paganismo mais primitivo, à escravidão mais selvagem, ao desconhecimento da Redenção.

            Sejamos fiéis ao Brasil autêntico, a Terra de Santa Cruz, que soube reunir vários povos em uma única nação sob as luzes do Cruzeiro do Sul e as bênçãos da Mãe de Deus, Nossa Senhora Aparecida.  



[i] Talento, Biaggio, Erros na construção da nau serão apurados, in O Estado de S. Paulo, 27/4/00, p. A14.

[ii] Kramer, Dora, Coisas da Política: prisioneiros do passado, in Jornal do Brasil, 25/4/00.

[iii] Brasil: outros 500, publicado na revista Missões, 3 de abril de 2000, p. 11.

[iv] Op. Cit. p. 14.

[v] Idem, p. 14

[vi] Gazeta Mercantil, 2/5/2000 – A-10.

[vii] Arruda, Roldão, Manifestação reuniu leque de movimentos de oposição”, in “O Estado de S. Paulo”, 24/3/2000, p. A13.

[viii] Idem Ib.

[ix] Arruda, Roldão, Cardeal enfatiza papel positivo da Igreja no País, in O Estado de S. Paulo, 27/4/2000, p. A14.

[x] Foram eles D. Tomás Balduíno (presidente da CPT), D. Franco Masserddotti (presidente do CIMI) e D. Heriberto Hermes (Cfr. Jornal do Brasil, 26/4/00, p. 7).

[xi] Um Pataxó que resume o Brasil, in O Globo, 28/4/00.

[xii] Antenore, Armando, CNBB teme reação do Vaticano a ato, in Folha de S. Paulo, 29/4/00, p. 9.

[xiii] Jaguaribe, Hélio; A questão indígena, in Jornal do Brasil, 4/5/00.

[xiv] Id. Ib.

[xv] Giraldi, Renata, É preciso pedir perdão, in Jornal do Brasil, 24/4/2000, p. 4

[xvi] Cavalcanti, Sandra; Brasil nunca pertenceu aos índios, in Jornal do Brasil, 21/4/00

[xvii] Id. Ib.


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