A Anunciação do Anjo a Nossa Senhora e a Encarnação do Verbo

| 24 de março de 2012 | Comente!
Plinio Corrêa de Oliveira
No dia 25 de março se comemora uma das maiores festas da Santa Igreja que é a Anunciação do Anjo a Nossa Senhora e a Encarnação do Verbo. Devido a importância desta festa achamos que seria de grande proveito para os nossos leitores a conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 24 de março de 1984.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

[Para ouvir trechos desta conferência, clique aqui]

 

Meus caros, é com um gosto todo especial que eu vos falo a respeito desta festa [da Encarnação]. Festa da qual dizia muito bem São Luiz Maria Grignion de Montfort, citado há pouco, é um objeto de especial devoção da parte de todos aqueles que se consagram a Maria Santíssima como escravos segundo o método de São Luiz Maria Grignion de Monfort.

Para nós termos diante dos olhos um dos muitos aspectos da festa da Encarnação, eu começaria por vos pôr o seguinte problema: Nosso Senhor Jesus Cristo – fala-se tanto a respeito dEle -, tem-se bem exatamente a idéia do papel dEle na criação, do papel dEle no universo?

Se nós considerarmos o universo nós veremos que ele é constituído de maravilhas. Qualquer coisa do universo feita por Deus é uma maravilha: uma gota de água é uma maravilha, um passarinho é uma maravilha, uma pedra é uma maravilha. Mesmo certas coisas que nesta terra de exílio são feias como, por exemplo, as formigas, a gente vendo por um microscópio são uns monstros, entretanto, são maravilhas de organização, de sabedoria. Não só no modo pelo qual elas agem e que tem sido objeto de estudo de cientista, mas também na constituição física que elas tem: como é o corpo delas, como é esse corpo adequado à sua finalidade, como é que existe, como é que morre, como é que vive, etc.

Em tudo do universo, nós mexemos um pouco e encontramos uma maravilha. Como seriam essas maravilhas no Paraíso? Haveria formigas no Paraíso? Seriam belas ou seriam feias as formigas do Paraíso? Como seria uma gota de água no Paraíso? Como seria uma taça de água no Paraíso? No Paraíso haveria taças ou haveria flores magníficas, à maneira de copos de leite, nos quais os homens beberiam?

Estas são conjeturas às quais eu não me entregarei esta noite, mas que eu pretendo algum dia tratar, de mim para comigo, se Nossa Senhora me conceder a graça de ler o Cornélio [a Lapide] antes de morrer. Faz parte dos muitos aspectos da doutrina católica que eu gostaria de conhecer.

Uma coisa é positiva: é que Deus fazendo tantas maravilhas no universo, dificilmente se poderia compreender, ou seria talvez incompreensível, que Ele não coroasse todas as maravilhas com uma maravilha complementar.

Os senhores imaginam um joalheiro que tem um cofre cheio de jóias, um escrínio cheio de pedras preciosas. Mas essas pedras preciosas ainda não estão articuladas como jóias. Ele as esparrama sobre a mesa, acende sobre elas aquela lâmpada de joalheiro, tem por debaixo um lindo feltro para poder realçar a beleza e o valor de cada pedra e fica olhando… Fica encantado com todas essas pedras.

Se ele é um joalheiro inteligente, se ele não é um mero espectador ininteligente das coisas, mais cedo ou mais tarde, lhe virá a idéia seguinte: como com essas pedras constituir um conjunto? São tão belas que elas merecem ser integradas num todo mais belo do que elas! Se as pedras são belas, a jóia na qual se encaixam as pedras ainda são mais bonitas, porque o conjunto das coisas ordenadas é mais bonito que o puro monturo dessas coisas, o puro amontoamento dessas coisas; o conjunto é mais bonito do que as coisas desarticuladas; a ordem é um degrau a mais para o esplendor; a beleza propriamente dita decorre não só da beleza de cada parte, mas da ordenação com que todas as partes estão dispostas. Esta é a beleza das belezas.

E o joalheiro inteligente não poderia deixar de dizer: “essas pedras são assim-assim-assim… Eu vou constituir com elas uma jóia…” Pensa… manda fazer a jóia. Ele estuda as pedras e diz: “no centro vai aquela brilhante magnífico que eu estou… Mas para que a beleza dessa jóia irradie mais, eu vou por daquele lado rubis, mais adiante safiras, mais adiante esmeraldas…” etc., e compõe lá, segundo um bonito desejo, toda a sua jóia.

Uma vez composta essa jóia, se ele é um grande joalheiro que não tem hesitação, não tem contradição e que no primeiro plano já vê como é que tem que ser a jóia e executa, ele olha contente e diz: que bela jóia eu fiz! Manda vir um homem que tira uma fotografia daquilo e diz: diga ao ourives para me montar esta jóia. Não poupe ouro do melhor quilate, não ponha nem demais nem de menos e faça com que a beleza do metal complete a beleza das pedras. Ande e vá!

Quando, dias depois, da parte do ourives – ou ele manda alguém ou vem ele mesmo com um lindo escrínio – abre: veludos; abre: sedas; abre: tira a jóia e entrega. Ele diz: Senhor, aqui estão as pedras que vós obtivestes, aqui está a jóia que vós pensastes, aqui está a beleza que minhas mãos vos entrega! Homenagem, homenagem, homenagem!

Ora, Deus tendo feito todas essas maravilhas que estão no nosso universo visível, era impossível que Ele não procurasse pôr uma ordem nessa maravilha. E ele pôs, como centro dessa ordem, o homem. E no homem, Adão e Eva. Mas depois a partir de Adão e Eva era intenção dEle que houvesse governando todas essas maravilhas que Ele tinha posto, governando houvesse, portanto, o gênero humano. Mas depois que o gênero humano tivesse homens que o governasse.

Mas depois também que o gênero humano tivesse homens gradativamente mais perfeitos, mais perfeitos, mais santos, mais admiráveis e… no centro e no ápice um homem tão perfeito, tão inteligente, tão sábio, tão poderoso, que ele excedesse em beleza, em sabedoria, em virtude, em poder a todos os homens criados. Em torno deste homem se disporiam todas as perfeições do universo criado.

A maior parte dos teólogos se inclina a crer que logo que Deus criou o gênero humano Ele teve como intenção criar esse homem. Mas a sua intenção foi tão alta, tão alta, que além de criar esse homem, ele quis para este homem algo de incomparavelmente maior, ela quis que este homem ficasse colocado numa elevação tal que este homem fosse o Homem-Deus.

E este homem Deus que algum dia deveria nascer, filho dos homens e Deus, filho dos homens e Filho de Deus, que este Homem-Deus fosse como um hífen, como uma ponta de ouro ligando magnificamente o Céu e a Terra.

Considerem todas as grandezas que a História apresenta; tomem todos os sábios (inclusive os verdadeiros sábios da Santa Igreja Católica), tomem todos os santos, tomem todos os potentados, todos os reis, todos os magnatas, tomem o que quiserem, todos os oradores, o que os senhores quiserem, somem tudo… como é que se pode comparar sequer de longe ao Homem-Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo?

Homem-Deus, homem feito de carne e osso como nós, mas homem que está ligado à natureza divina de tal maneira que há duas naturezas nEle; uma humana e outra divina, formando uma só pessoa. Assim como nós, há a natureza espiritual, princípio espiritual e há na matéria o corpo que forma uma só pessoa, em Nosso Senhor Jesus Cristo, o homem e Deus forma uma só pessoa, o Homem-Deus Nosso Senhor Jesus Cristo.

Todas as belezas do mar, todas as belezas do Céu, todas as belezas que estão nas entranhas da Terra, todas as belezas da variedade dos animais, da variedade das plantas, todas as grandezas e belezas que tiveram os homens de todos os tempos, tudo isso não eram senão sinais precursores – ou não são senão ecos que se voltam para trás para olhar aquele que fica no centro e no ápice da história, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Santo Sudário de Turim

Valeria a pena um dia nós projetarmos aqui, o Sacro Volto [a Sagrada Face] de Turim, o Sudário Santo de Turim, que envolveu o cadáver sagrado nos três dias trágicos em que Ele esteve jazendo na sepultura e que durante esse tempo marcou com a figura de Si mesmo milagrosamente esse sudário. Ali se vê a face de Nosso Senhor Jesus Cristo como era.

Do corpo do homem o mais expressivo é a face. Na face do homem, o mais expressivo é o olhar. No Santo Sudário de Turim os olhos estão fechados, o olhar não se vê, mas que olhar transparece através dessas pálpebras fechadas! Que grandeza! Que magnificência! Que verdadeira maravilha!

Quando se olha o Sacro Volto, o Sudário de Turim, não passa pela cabeça de comparar com nenhum homem. Não tem nenhuma comparação. Não é possível. Não se diz sequer dele que Ele é incomparável, porque a idéia da comparação não passa pela cabeça. Quando se diz de alguém que ele é incomparável, a gente tentou comparar e não conseguiu. Com Nosso Senhor Jesus Cristo não se tenta comparar. Logo à primeira vista, no primeiro lance, já se esquece da possibilidade de comparação: Ele é único, Ele é supremo, Ele é divino! E Ele, entretanto, é humano.

Os senhores podem imaginar o que foi a felicidade de tantos que, na Terra, O conheceram pessoalmente, que passaram perto dEle, para quem Ele olhou, para este, aquele ou aquele outro com olhos de meiguice, com olhos de aprovação, com olhos de cólera.

Inimaginável da parte de quem é tão perfeito, com olhos de quem solicita um pouco de amor, um pouco de afeto, um pouco de pena e não consegue.

Os senhores podem imaginar o que é que aconteceu com a Verônica. Conta-se que Verônica enxugou o rosto divino num pano e que nesse pano se estampou a face dEle e que ela guardou isto como uma relíquia preciosíssima e fez disso a sua felicidade. Eu acredito bem e acredito que ela tenha feito disso a sua felicidade.

Mas os senhores já pensaram quando Ele olhou para ela agradecendo aquele bem que ela fazia a Ele, o que nesse olhar Ele deu a ela? Não é verdade de que mais do que naquele pano ficou no fundo da retina dela, no fundo do coração dela, no fundo da alma dela, aquele olhar, aqueles dois olhos aflitos, amargurados, carregando o sinal da dor, mas comprazidos e que diziam com a linguagem muda e de uma eloqüência que nenhum orador alcançou, com a linguagem do olhar divino: “Minha filha, obrigado!” Este foi Nosso Senhor Jesus Cristo.

O que dizer dEle subindo no Céu? E o último olhar, que no mais alto das alturas Ele ainda deu para o homem, e olhando para o seu Colégio Apostólico reunido aos pés dEle, para os fiéis que tinham ido ver a Ascensão no Monte Tabor, olhando para eles, olhando, olhando até onde eles podiam perceber um olhar, Ele olhou. E provavelmente olhou para o fundo dos olhos…

Os senhores podem imaginar como Ele olhou para cada um, como cada um sentiu ali uma mensagem, uma última palavra, uma recomendação suprema, um adeus. Um adeus que da parte daquele que é eterno tem o sentido de um até logo…

No meio dos Apóstolos estava alguém… a Mãe dEle. Os senhores podem imaginar essa última troca de olhar? Como Ele olhou para Ela e como Ela olhou para Ele?

Deve ter sido tal a ventura de perceber, de discernir essa última troca de olhares, que se nós tivéssemos simplesmente a ventura de estarmos ajoelhados em direção a Nossa Senhora vendo apenas o olhar dEla para Ele, nós nos julgaríamos felizes pela vida inteira!

Um olhar feito de alegria diante da glória dEle, porque Ele ia subindo cada vez mais na glória; um olhar feito de amor pela realização completa de tudo o que tocava a Ele e de tudo quanto era o destino de Deus sobre Ele; um olhar de despedida. E mais uma vez no meio de tanta alegria, algo de dor ou à maneira de dor na alma dEla dando uma certa doçura que é peculiar à dor, e que as almas que não sofreram não sabem ver.

E Ele já fora das condições de sofrer, não sofrendo mais, mas despedindo-se dEla e num olhar talvez dizendo a Ela o seguinte (é conjetura minha): “Lembrai-vos, Minha Mãe, é verdade, eu subo, mas eu estou em Vós, porque tendes em Vós as sagradas espécies, a Sagrada Eucaristia que nunca mais se corromperá em Vós até ao momento de vossa morte”.

Até ao momento da morte? Eu não sei… É uma das muitas coisas que eu gostarei de estudar de futuro no Cornélio. Eu pretendo deixar o Cornélio marcado para os senhores, de maneira que… Depois disso, podem fazer os seus Santos do Dia [conferências a respeito de um(a) Santo(a) ou uma festa litúrgica]. Mas é um ponto que eu gostaria de esclarecer.

Agradar-me-ia pensar que mesmo quando Nossa Senhora morreu, mesmo durante o período da dormição, quase se seria tentado a dizer da morte levíssima dEla, as Sagradas Espécies nEla não se deterioraram e que Ela subiu ao Céu levando consigo o Santíssimo Sacramento. Eu queria saber se isto é teologicamente possível. Se fosse teologicamente possível, que belo imaginar! Que maravilha considerar isto!

Pois bem, esta beleza toda, esta maravilha toda de santidade, de sabedoria, de pulchrum que havia de um modo inimaginável na natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, de um modo perfeito e absoluto na sua natureza divina, tudo isso Deus quis que fosse… como comparar? Qual é a comparação que está correta para isso? Talvez uma gota de orvalho nascida dentro da concha desta flor que foi Maria.

Apresentação do Anjo a Nossa Senhora - Fra Angélico

No dia 25 de março a Igreja celebra, exatamente, este fato incomparável! Nossa Senhora, os Evangelhos nos contam, Beato Angélico o pintou. Nossa Senhora colocada numa casinha pequena, modesta, limpíssima e colocada em inteira ordem. Ela no claustro composto de umas pobres arcadazinhas e a uma altura qualquer que eu não me lembro bem, em certo ponto, no chão, um vaso ingênuo do qual sai uma planta reta como uma bengala e em cima, perpendicular, um lírio que se abre a boca, ou o coração, aos olhos… não sei bem. E que é símbolo da Virgem Maria.

Ela sentada sobre um banquinho, com um material de meditação, livros ou rolos (não me lembro bem) na mão; paz em volta; uma paliçadazinha assim também muito pobre, muito ingênua, muito novinha e muito bem conservada que fecha a propriedade em relação aos vizinhos e que garante a solidão. Ela está lá e diante dela, ajoelhado, está um anjo. Ela está com a mão assim e ouvindo o anjo falar.

É o fato extraordinário que se deu naquela ocasião, quer dizer, Ela não pensava nisso. Ela não pensava nunca que poderia vir aquele anjo àquela hora, nem que aquele anjo lhe faria essa mensagem. Mas a mensagem lhe foi apresentada e a mensagem era esta: há quatro mil anos, talvez mais, a humanidade esperava aquele que deveria vir, porque havia uma tendência de todos os homens, uma tendência de todos os seres para que, afinal, nascesse a criatura perfeita que seria o centro de todas e em função da qual todas se estruturariam.

Em virtude do pecado original os homens estavam num caos, numa desordem medonha. Não só num caos e numa desordem, a pior das formas da desordem que é a desordem organizada como a do Império Romano, organizada ao revés, em que todos os princípios da ordem estão com as pernas para o ar e que constitui uma ordem.

Bem, não só assim estavam os povos pagãos, mas assim também estava o povo eleito. O povo judaico, o povo que tinha sido escolhido para a promessa, este povo estava na maior decadência e no maior afastamento de Deus Nosso Senhor. Na Terra nada mais se salvava.

Uma Virgem, concebida Ela mesma sem pecado original, expressamente para essa missão, esta Virgem nascera de Santa Ana e de São Joaquim e esta Virgem casada, virginalmente, com o esposo virgem São José, meditava. E sabendo que a única solução era a vinda do Messias, que a única solução era que viesse o redentor do gênero humano, o Salvador, ela meditava, Ela lia a Bíblia da qual Ela tinha uma inteligência maior do que jamais ninguém teve, e Ela via as promessas e Ela pensava a respeito do Messias.

Segundo eu li uma vez num livro de leitura espiritual, Ela foi levada pelo desejo de que nascesse o Messias, que Ela pedia instantemente, compondo a figura do Messias com base das Escrituras até que… com conjeturas etc… até imaginar como Ele seria. Esta obra prima da sabedoria dela, da virtude, do amor de Deus dela, essa sabedoria, apenas composta e quando Ela, na paz da sua meditação, acabava de dar o último traço para imaginar como Nosso Senhor Jesus Cristo seria… psst, uma iluminação dentro do jardim! Aparece um anjo e lhe diz: “Ave Maria, cheia de graça, bendita tu entre as mulheres.”

Ela se perturbou e não sabia qual era essa saudação. O anjo, então, explicou a Ela, nós conhecemos todo o desenrolar dos fatos, que Ela seria Mãe do filho de Deus e que o Verbo de Deus, o Messias nasceria dela.

Os senhores podem imaginar o humílimo susto dela. Ela se julgava indigna de ser a escrava da Mãe do Messias e pedia a Deus que lhe desse a graça de conhecer a Mãe do Messias e de servi-la. Era um favor ao qual Ela aspirava, considerando esse favor arrojado. De repente, recebe esse recado! Mãe do Messias? Serás tu!

Mais ainda, Mãe do Messias só? Não! Quem vai ser o pai desse Menino? A natureza humana, Ele a receberá de ti, ó Maria, mas a união com Deus como é? Tu serás a Esposa do Espírito Santo! O Espírito Santo engendrará em Ti, divinamente, espiritualmente, o filho que vai nascer.

Quer dizer, é um tal cúmulo de graças, um tal cúmulo de fatores, tanta generosidade que é difícil calcular como Nossa Senhora se sentiu confundida naquele momento, mas ao mesmo tempo elevada, porque Ela era perfeita e vendo tais obras de Deus Ela não podia deixar de se alegrar enormemente. E vendo que Deus a escolhera para tais obras, a gratidão dela não tinha limites e o prazer de se sentir unida com Deus, a alegria de se sentir unida com Deus devia ser maior na alma dela de que todos os mares e todos os oceanos.

Entretanto, a resposta humílima. Com Deus não se discute: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra. Quer dizer, Ela aceita, Deus manda nela o que Deus quer que se faça. Ela não vai discutir que Ela não é digna, Ela não vai analisar-se a si mesma, nada. Deus quer, é perfeito. Ali está Ela, faça-se.

E nesse instante um mistério divino do qual nós não temos noção – é um dos pontos que eu quero estudar no Cornélio para eu me preparar, se até lá me levar Nossa Senhora, para chegar até ao Céu – o que é tudo que se pode saber a respeito da Encarnação; tudo o que se pode saber dos desponsórios do Espírito Santo com Nossa Senhora; o que é que nos diz a doutrina da Igreja a esse respeito e como foram daí por diante as relações dela com o Divino Espírito Santo, o Esposo dela? Coisa admirável que eu gostaria enormemente de saber.

Bem, o Espírito Santo ali, no claustro de Maria, gerou a Nosso Senhor Jesus Cristo e começou, desde logo, da carne de Maria, que é carne de Cristo – caro Christi caro Mariae. Todos os homens são carne de seu pai e de sua mãe. Nosso Senhor Jesus Cristo é carne exclusiva de Maria. Não entra um esposo físico ali. O castíssimo José é apenas o pai legal, o pai adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não entra esposo físico ali.

Então, o Esposo, o Divino Espírito Santo engendra ali a Nosso Senhor Jesus Cristo; e desde o primeiro instante do ser em que esse primeiro elemento do Corpo dele começou a existir, como Ele era perfeito, começou a existir; começou a existir, começou a pensar; começou a pensar, começou a orar. E conhecendo perfeitamente de que Mãe era Filho, Ele certamente disse a Ela uma palavra de amor.

Os senhores podem calcular qual foi essa primeira palavra de amor dEle para Nossa Senhora e qual foi a resposta de Nossa Senhora, sentindo esse carinho que lhe vinha do Filho Deus… Como é que Ela disse a Ele? Ela disse: Meus Deus?… Ela disse: Meu Filho?… Ela não teria dito, Filhinho?… Que riqueza de alma era preciso ter para responder adequadamente a esse primeiro carinho! Que noção dos matizes! Que noção das situações! Que perfeita disponibilidade da alma para corresponder a tudo perfeitamente e oferecer a Ele esta primícia incomparável: o primeiro ato de amor que o gênero humano lhe oferecia!

É muito bonito na vida de Nossa Senhora fazer-se a correlação dentre as coisas. O primeiro ato de amor que Ele deu a Ela quando Ele se encarnou – 25 de Março – e o último ato de amor que Ele deu a Ela quando Ele morreu. Porque eu não tenho dúvida que Ele antes de morrer disse a Ela, ao menos com a alma, alguma coisa que Ela entendeu e que era o ato de amor último que fechava o circuito desta vida, que era o ato de amor-rei, por onde o amor que Ele tinha tido a Ela durante a vida inteira se condensava numa veneração e numa carícia suprema.

Ela também: o primeiro ato de amor dela, como terá sido? Como terá sido o último ato de amor dela? A este Filho que Ela viu morrer naquela situação tão trágica, tão terrível e que quanto mais sofredor, mais, mais e mais e mais Ela amava!… Ela não se teria lembrado naquele momento extremo e último do primeiro afago, da primeira troca de carícias? Ela não teria se lembrado: como é Este que eles estão matando? Oh!… Oh! meu adorado!…

Fazer estas correlações emite uma beleza toda especial que pelo menos a mim me encanta, eu fico entusiasmado.

Esta correlação abre, por mais magnífica que ela seja, entretanto, apenas o pórtico para uma série de maravilhas de que nós não temos idéia. Primeiro esta maravilha que está mais ao nosso alcance. O corpo Sacratíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo no claustro de Maria ia-se nutrir de todo o elemento necessário para crescer e tomar o tamanho normal para poder nascer. Houve, portanto, durante esse tempo todo, uma entrega de substância, se assim me posso exprimir, do corpo dela para o Corpo dele e de assimilação que o Corpo dele fazia do que recebia do corpo dela, que é a própria gestação que procede.

Mas não me é possível imaginar que isto se tenha passado no terreno apenas orgânico e que à medida que se ia passando assim a formação do Corpo dele pela natureza dela, não se ia passando uma união de alma cada vez maior entre Ele e Ela. De maneira que cada etapa da gestação correspondesse mais magnificamente uma etapa da união.

De maneira que quando o Corpo Sagrado de Nosso Senhor Jesus Cristo estava pronto para nascer, a alma de Nossa Senhora estava adornada com todos os adornos inexprimíveis que lhe vinham de uma união tão íntima com ele.

Esperado há quatro ou cinco mil anos – não se sabe quanto – esperado há milhares de anos por todos os homens retos, cantado pelos Profetas, glorificado pelos Anjos, Nosso Senhor Jesus Cristo estava ali. E Ele, entretanto, antes de tomar contato com os homens quis passar nove meses, exclusivamente, na companhia de Maria. E como que fazer a Ela confidências que não fez a ninguém, ter com Ela um convívio que não teve com ninguém e ser dela e Ela ser dele como jamais ninguém foi de ninguém.

Os senhores podem imaginar o que isso representa de santidade e de união. Nós não podemos aprofundar isto, nem de longe, mas nem de longe! E durante esse tempo todo em que se foi constituindo o corpo dele, o Corpo Sacratíssimo dele, em que a alma dele foi crescendo em formosura e santidade como seu corpo, e foi crescendo depois de nascido, também, Ela crescendo cada vez mais também.

E no lado da santidade da alma, algo nela se transformava e acrescia de contraditório e de magnífico. Quer dizer, Ela tinha todo o esplendor de uma Virgem, e nunca o perdeu; mas Ela foi tomando toda a majestade de uma Mãe e nunca a perdeu! Virgem como ninguém: Virgem antes do parto, durante o parto e depois do parto Ela o foi. Ela é virgem no Céu… Mas, de outro lado, é Ela Mãe como ninguém foi! De maneira que olhando para esta Mãe Virginal a pessoa não saberia o que dizer: ó Virgem, ó Mãe! O que exclamar?

Assim se foi adornando a pessoa dela. E quando Ele nasceu, Ela inteiramente Mãe o apresentou a São José. Era a apresentação ao gênero humano, estava aí o Salvador! Era o inefável e glorioso termo dos nove meses de gestação de Nossa Senhora. Quanto mistério! Quanta maravilha!

Um segredo dentro do segredo: São Luiz Grignion alude a esse segredo com a força e delicadeza de expressão que lhe é própria. Nossa Senhora disse: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra.” Ato contínuo Deus se faz escravo dela! É o inimaginável!

Mas não há maior sujeição nesta terra do que a criança à sua mãe, quando sua mãe o traz consigo. E durante nove meses consecutivos Ele quis pertencer inteiramente a Nossa Senhora. E Ela a quem Ele foi submisso durante todo o tempo, Ele teve para com Ela uma submissão estrita, literal ao pé da letra, porque tudo quanto o nascituro faz é condicionado ao que faz a mãe, ele está na dependência inteira da mãe, ele é o escravo da sua mãe. Jesus, o esperado das nações, o Homem tão perfeito que não é simplesmente homem, mas é o Homem-Deus, porque a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se uniu hipostaticamente a Ele, Jesus é o escravo de Maria; e Ela leva em si o seu próprio Deus.

Há mães que enquanto esperam a criança, sentem às vezes o movimento da criança. Quanta coisa Nossa Senhora sentiria, quando sentia o Filho mover-se dentro dela? E dizer: Deus se move em Mim! E aquele a quem o Céu e a Terra não poderiam conter, Este está no meu claustro porque Deus assim o quis. Hei-lo que se move em Mim delicadamente, amorosamente, nobremente, com uma movimentação cheia de símbolos e de mistérios e eu ouço, sinto e rezo, porque são mensagens para eu compreender, são comunicações para eu entender.

Ó recolhimento, ó oração, ó prenuncio do que deveriam ser ao longo dos séculos as almas eucarísticas que tem a felicidade sem nome de, por alguns instantes cada dia, ter no seu próprio peito a Nosso Senhor Jesus Cristo! Ó maravilha!

Esta conveniência, esta dependência inteira de Nosso Senhor Jesus Cristo em relação a Ela, São Luiz Grignion acentua muito bem: marca que Nosso Senhor Jesus Cristo, no sentido mais radical da palavra quis vir-nos por meio de Maria. Não é só que Ela tenha sido o caminho, que Ela tenha sido o meio para chegar até nós. Não! Ele foi, por assim dizer, produzido por Ela para nós.

Quer dizer, nós devemos a Maria, Nosso Senhor Jesus Cristo. E se nós queremos alguma coisa de Nosso Senhor Jesus Cristo nós devemos pedir a Maria, porque Aquela que foi o caminho para Ele vir até nós, Esta tem que ser o caminho para nós irmos até Ele.

Nosso Senhor Jesus Cristo contém em si todas as graças, Nossa Senhora medianeira de Nosso Senhor Jesus Cristo para nós, Nossa Senhora é medianeira de todas as graças para nós. E daí o fato de que tudo, absolutamente tudo, que os homens recebem na Terra, que tudo quanto os conduz ao bem e os leva à vida eterna, tudo isso é mandado, é dado por meio de Maria.

Ainda que a gente não peça, a gente suponha, que é rezando para São Tal ou para outro São Tal que nós obtivemos e é verdade que nós obtivemos por meio desse santo, mas obtivemos porque o santo rezou a Maria. Se o santo não rezasse a Maria não teria nada, porque nenhuma oração é agradável a Deus, e nenhuma oração chega a Nosso Senhor Jesus Cristo a não ser por meio de Maria.

Nossa Senhora quando conduzia a Nosso Senhor Jesus Cristo no seu claustro, dava aos homens uma lição de humildade admirável, porque Ela se deveria sentir, certamente, aniquilada pela desproporção entre Ela e o Hóspede Divino que morava nela. Mas Ela era ao mesmo tempo uma espécie de ostensório: Nosso Senhor não podia ser visto. Mas Ela era como um ostensório, como uma píxide: Ele habitava nela e por todos os séculos dos séculos olhando a Ela os homens diriam: Ela não era senão uma mera criatura, Ele quis ter a condescendência de fazer-se carne no claustro dela.

Nós cantamos no Credo, incluindo-nos: et Verbo caro factum est et habitavit in nobis. Foi São Luiz [IX, rei de França] que introduziu o hábito de se inclinarem as pessoas quando no Credo se canta isto: “E o Verbo de Deus se faz carne e habitou entre nós”. Bem, deu-se no claustro dela esse fato inenarrável, mas Deus nos deu ali uma lição de humildade também infinita. Ele que era Deus, infinitamente superior a tudo, querer ser escravo, querer estar reduzido a esta como que prisão, a esta como que sujeição a uma mera criatura.

Miseráveis revolucionários que não quereis ter senhor! Miseráveis revolucionários que não quereis ter Deus! Vós compreendeis a lição que vos dá Deus? Ele que se faz assim escravo no claustro de Maria para nos mostrar como é belo e nobre obedecer?

Os senhores vêem aí como Deus na Sua Sabedoria dispõe de meios para nos instruir que nos deixam verdadeiramente sem palavras. Ponham, em tese o problema: Deus pode dar e deve dar lições de humildade a todos os homens, porque a humildade é uma virtude, Ele dá lição de todas as virtudes, logo deve dar lição da humildade.

Agora, que Deus pode ensinar que a humildade é uma virtude, está bem… mas como pode Ele que é supremo e perfeito, absoluto, praticar a humildade em relação a uma mera criatura? Pois bem, a lição mais enérgica, mais concludente, mais desconcertante está dada: Ele deu a lição de humildade fazendo-se escravo.

Há glória em ser rei de um reino; há glória de ser imperador de um império; há glória em ser superior de um convento; ou bispo de uma diocese; ou Papa da Santa Igreja Universal. O que são essas glórias em relação à gloria de ser senhora de Nosso Senhor Jesus Cristo? Essa glória, Ele reservou a Nossa Senhora!

E daquela de quem Ele quis ser escravo, Ele quis ser filho. Não sei se os senhores notam as cambianças de cores e como tudo isto é opalescente e maravilhoso. Os senhores podem por aí ver quanta maravilha desconcertante há em tudo isto.

Mas se nós numa pequena meditação pensamos tantas coisas a respeito disto e nós não somos senão nós, eu pergunto: o que terá tudo Ela pensado durante esse tempo? E levanta-se aí mais uma pergunta que eu gostaria de saber no Cornélio – se é que o Cornélio tem material para responder a essa pergunta – eu gostaria de saber esta pergunta: no Céu aonde Nossa Senhora foi levada, não só em alma mas em corpo e alma – Ela morreu e Ela subiu ao Céu, Ela teve a sua Assunção ao Céu – no céu nós veremos Nossa Senhora de perto. Os senhores não teriam, depois desta reflexão, vontade de se aproximar dela e imaginar que Ela no seu trono, tão junto do trono do Divino Filho, se debruça para saber o que os senhores querem?

Os senhores já se imaginaram pessoalmente nessa situação? E um dos senhores, ou talvez eu, fazer a Ela esta pergunta: Minha Senhora, Minha Mãe, podeis-me contar tudo o que meditastes desde o momento da Encarnação até ao momento do nascimento do Vosso Filho? Mas eu queria saber tudo, não queria que nada me ficasse ignoto, eu queria conhecer ponto por ponto e… minha Mãe, perdoai meu atrevimento, mas eu queria contado por Vós mesma!

Os senhores, podem imaginar o que seria Nossa Senhora régia, magnífica, bondosíssima, melíflua como a chamou São Bernardo, voltar e dizer: filho, começou assim…

Se assim se pudesse dizer, dez eternidades, cem eternidades, mil eternidades para ouvir só isso… ó que maravilha! E talvez se o número fosse conectável com o conceito de eternidade (não é conectável), mil eternidades não bastariam para nós sabermos tudo isto que Ela pensou só durante esse tempo: tudo quanto Ele disse a Ela; tudo quanto Ela respondeu; todas as graças que lhe deu, todas as ações de graças dela, e Ela que rezou por este e por aquele, e por aquele outro… quem sabe se já ali Ela conheceu profeticamente a existência de todos nós e por todos nós rezou? E que surpresa vendo-a contar, de repente: e nesse passo, meu filho, eu rezei por ti!

Que alegria! Que comoção! Que agradecimento! E que cântico! Uma vez que é certo que no Céu saberemos todos cantar.

Os senhores podem ver por essas considerações rápidas… rápidas, já vai longe – os senhores podem ver a torrente de reflexões que se podem fazer a respeito só do período da Encarnação. Os senhores podem por aí imaginar como Nossa Senhora viveu intensamente esses nove meses que se abrem no momento em que nela floresceu, desde o primeiro instante, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Detalhe da Natividade - Giotto

Mas não foi só. Esses momentos não foram momentos passageiros. A Encarnação cessou quando Ele nasceu, é evidente! Os senhores podem imaginar o embevecimento dEla quando viu a face dEle? Quando Ela recebeu dEle o primeiro agrado externo sensível? Quando Ela o viu voltar-se para São José e agradar São José? E depois quando Ela viu que tinha fome e que competia a Ela, ao leite indizivelmente precioso dEla saciar a fome do Filho de Deus? E depois, quando Ela viu que Ele tinha frio, agasalhá-lo? E quando Ela viu que o conforto da manjedoura poderia ser aumentado, arranjando um pouco mais aqui, um pouco mais ali, um pouco mais lá, um pouco mais acolá. Os mil cuidados que Ela inventou? E durante esse tempo na gruta os revoares de anjos? Que ora Ela notava inteiros, ora desapareciam completamente, para, de repente, algum lúmen angélico brilhar de cá, de lá e de acolá… e era toda uma porta de anjos que passava cantando!

A chegada dos primeiros pastores, simples, glorificados pelo canto angélico e caminhando em direção a Ela, cheios de amor. E depois o bafo dos animais que aqueciam o filho dEla e Ela dizer: “Meu Deus, tão pouco para quem é tanto! E o Menino sem falar, dizer a Ela: “O que é que é pouco para mim, quando Vos tenho a Vós?”

Quem pode imaginar esse diálogo? E afinal os reis magos que chegam e que se aproximam e Ela que os mostra e começa aí a história do mundo. O povo judeu estava ali representado por Nossa Senhora, São José e os pastores – era o povo eleito. Os outros povos que chegam são todas as nações da Terra representados por aqueles e vão adorar o Menino. Ela mostra e o Menino tem palavras de alegria para cada um e Ela pensa: “é o Reino de Cristo que está começando!”

Todas essas considerações, meus caros, nós as teremos na festa de amanhã. Eu lhes recomendo muito que comungando amanhã, os senhores tenham esta reflexão: Nossa Senhora no momento da Encarnação é o modelo daqueles que comungam. No momento em que comungamos Ele entra em nós e Ele fica algum tempo em nós. E nós devemos tentar ter em relação a Ele sentimentos análogos ao que Ela teve quando Ele habitava nEla.

Então, devemos pedir a Ela, pela Santíssima Encarnação dEle, que nos dê essas disposições de alma. Não basta. Por melhores que sejam essas disposições não estão à altura da situação. A gente deve dizer: “Minha Mãe, Vós encontrastes tantas coisas para dizer a Ele quando Ele estava no vosso claustro. Vede que misérias eu digo, mas dizei por mim a Ele aquilo que eu gostaria de dizer se eu soubesse, aquilo que Vós dissestes quando Ele estava no vosso claustro. Falai minha Mãe, por mim a Ele, e dizei a Ele tudo quanto eu queria ser capaz de dizer e não sou. Adorai-o como eu queria adorá-lo e não sou capaz. Dai-lhe ação de graças que eu queria dá-las e também não sei. Apresentai-lhe atos de reparação pelos meus pecados e pelos do mundo inteiro com um calor de reparação que infelizmente eu não tenho. Só Vós o tendes como eu quereria que o meu fosse. Minha Mãe, petição, pedi por mim. Tudo o que eu preciso, tudo o que precisam todos os homens para realizar a Vossa glória, porque, Minha Mãe, o que eu mais peço do que tudo é a Vossa glória, a Vossa glória e o Vosso Reino em mim e sobre todos os homens. Amém”.

Esta é, meus caros, uma sugestão para a vossa Comunhão de amanhã. Será uma sugestão para a Comunhão de outros dias, nós trataremos disso numa outra ocasião quando falarmos de Nossa Senhora comungando pela primeira vez.

E com isso está terminado o nosso Santo do Dia!…

 

[Perguntam sobre algum episódio de sua infância e que tenha relação com o acima exposto]

 

Naturalmente estas altíssimas idéias não me estavam presentes na minha mente de menino. Estas são idéias que a leitura de coisas da doutrina católica, sobretudo São Luiz Grignion de Montfort, foram ensinando. Mas eu não as tinha em menino. Tem-nas um menino? Eu diria: sim e não. Porque se é verdade que uma criança não sabe de todas estas coisas, há, entretanto, um senso católico que habita na criança e que faz com que ela tenha uma predisposição para saber tudo isso, faz com que ela tenha assim uma tendência a saber de tudo isso, de maneira que quando lhe contam ela não só aceita, mas fica contente e encontra nisso a sua verdadeira alegria.

A Igreja do Coração de Jesus… como ela se afigurava a mim em menino? Uma ou outra vez que eu tenho voltado lá, tenho flash com a Igreja: ela me parece como no tempo em que eu era pequeno, é um reluzimento, aquilo volta. Eu diria que é quase algo de inverso que se dá: são as nossas que estão no claustro da Igreja Católica. E que ali, no claustro da Igreja, Católica, vão aprendendo coisas, vão se modelando, vão tomando jeito – não sabem como, mas de tal maneira que elas vão se adaptando e vão tocando – se eu pudesse dizer, a palavra não é correta, a embocadura para a Igreja Católica. De maneira que quando mais tarde a religião lhes é ensinada, eles têm a impressão que está explicitando uma coisa que vagamente já tinham pressentido: é assim, é assim, e assim a criança vai crendo.

A Igreja do Coração de Jesus, pequena igreja de paróquia, tão grande na São Paulinho daquele tempo, a igreja do Coração de Jesus com discretas mas expressivas harmonias de forma e, no meu tempo de pequeno, também de cor. (…) Mas há uma mistura de cores que filtram por aqueles vitrais e há um não sei o que ali que faz a criança antever mais ou menos, ou pressentir, tudo aquilo que ela saberá. Todas as belezas que eu aprendi da Santa Igreja Católica e até mesmo das que eu conto aprender no Cornélio, todas essas belezas eu tenho a impressão que estavam contidas nas harmonias inefáveis e inexprimíveis da igreja do Coração de Jesus, da imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo com o Coração mostrando aos homens, daquele quadro que tem dEle pintado no teto onde Ele diz a Santa Margarida Maria: “Eis o Coração que tanto amou os homens e que por eles foi tão pouco amado”; e do sorriso triunfante e condescendente de Nossa Senhora Auxiliadora. Este é o nexo entre uma coisa e outra.

 

Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira

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Categoria: Leitura Espiritual

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