Psicose Ambientalista
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São Jerônimo

| 7 de novembro de 2008 | 3 Comentários

Fortaleza da Cristandade em face da heresia. Padre da Igreja Latina, autor da Vulgata, tradução oficial em língua latina da Sagrada Escritura.

Numa era muito conturbada para a Igreja – como foi o final do século IV e a primeira

metade do século V – surgiram simultaneamente na Cristandade grandes luzeiros de santidade e ciência, tanto no Oriente quanto no Ocidente: Santo Hilário, Bispo de Poitiers, Santo Ambrósio, de Milão, e a “Águia de Hipona”, o grande Santo Agostinho. Com São Jerônimo – cuja festa comemoramos no dia 30 – formam eles o ilustre grupo dos chamados quatro Padres da Igreja latina daquela época.

 

A vida de São Jerônimo é tão extraordinária, que se torna impossível resumi-la em poucas páginas. Dele diz o eminente jesuíta, Pe. Pedro de Ribadaneira, discípulo e biógrafo de Santo Inácio de Loyola: “Foi nobre, rico, de grande engenho, eloqüentíssimo; sapientíssimo nas línguas e ciências humanas e divinas; na vida, espelho de penitência e santidade; luz da Igreja e singular intérprete da divina Escritura, martelo dos hereges, amparo dos católicos, mestre de todos os estados e condições de vida e luzeiro do mundo” (1).

Nos confins da Dalmácia e Panônia (na atual Hungria), nasceu Jerônimo, de pais cristãos, nobres e opulentos. Dotado de precoces aptidões para o estudo, o pai enviou-o, quando adolescente, para Roma, então a capital do mundo civilizado.

Na Cidade Eterna, Jerônimo dedicou-se ao estudo da gramática, da retórica e da filosofia. Tal era seu amor pelos escritores clássicos, que formou para si rica biblioteca, copiando à mão os livros que não podia obter.

Com dor, reconheceria depois, que em sua inexperiência tornou-se vítima do ambiente mundano da grande e decadente metrópole, extraviando-se do bom caminho. Porém, ao mesmo tempo declara que seu passatempo aos domingos consistia em visitar as catacumbas e as relíquias dos mártires, além de ser catecúmeno, pois, na época, a pessoa  recebia o santo batismo já quase adulta.

Tentações diabólicas e consolações celestes

Depois de batizado, Jerônimo, juntamente com Bonoso, seu irmão de leite, empreendeu uma viagem de estudos às Gálias. Em Treveris, onde havia uma das academias mais doutas do Ocidente, decidiu entregar-se inteiramente ao serviço de Deus. Continuou entretanto sua viagem de estudos pela Grécia e cidades do Oriente Médio, detendo-se numa região desértica perto de Antioquia, onde viveu alguns anos na solidão.

Aproveitou então para aprender o hebreu com um judeu converso, a fim de poder estudar as Sagradas Escrituras em seu original. Afirma ele em uma de suas cartas: “As fadigas que isto me causou e os esforços que me custaram, só Deus sabe. Quantas vezes desanimei e quantas voltei atrás e tornei a começar pelo desejo de saber; sei-o eu que passei por isso, e sabem-no também os que viviam na minha companhia. Agora dou graças ao Senhor, pois que colho os saborosos frutos das raízes amargas dos estudos” (2).

Deus permitiu que o demônio o assaltasse constantemente com tentações da carne; e, para combatê-las, Jerônimo dilacerava seu corpo e entregava-se a jejuns que duravam às vezes semanas inteiras. Mas, em meio às tentações, tinha também consolações inefáveis: “Mas disto é o Senhor testemunha: depois de chorar muito e contemplar o céu, sucedia-me, por vezes, ser introduzido dentro dos coros dos anjos. Louco de alegria, cantava então: ‘Ó soledade, soledade embelezada pelas flores de Cristo! Ó soledade que mais familiarmente gozas de Deus’” (3).

Juízo de Deus antecipado e amor às Escrituras 

Quatro anos depois partiu para Jerusalém, a fim de venerar os lugares santificados pela presença do Salvador e aperfeiçoar-se na língua hebraica. São Dâmaso, Papa, consultava-o constantemente a respeito de passagens difíceis dos Livros Sagrados. Mas não se pense que para o santo exegeta era um gáudio essa leitura. Porque, acostumado à eloqüência e elegância de estilo dos clássicos latinos e gregos, sentia muita aridez na leitura da Bíblia, cujo texto julgava simples demais e desprovido de ornato. Foi preciso que o próprio Deus o castigasse por isso, como ele próprio narra em carta à sua discípula Santa Eustóquia: devido às suas austeridades, chegara então a tão extrema fraqueza, que seus discípulos julgaram que a qualquer momento fosse exalar o último suspiro. Foi então arrebatado em espírito e viu-se diante do Juízo de Deus. Cristo Jesus, que o presidia, perguntou-lhe sobre sua condição e fé. “Sou cristão”, respondeu Jerônimo. “Mentes, respondeu-lhe o Juiz, pois não és cristão, mas ciceroniano”. E mandou açoitar violentamente o réu, que só podia implorar perdão. Finalmente, alguns que estavam assistindo ao juízo juntaram suas vozes à do infeliz pedindo clemência para ele, pois era ainda jovem, e corrigir-se-ia do erro. Jerônimo jurou emendar-se, e com isso foi deixado livre, voltando do arrebatamento muito compungido. Durante muito tempo trouxe em seu dorso os sinais dos açoites. “Desde aquela hora eu me entreguei com tanta diligência e atenção a ler as coisas divinas, como jamais havia tido nas humanas”, conclui o Santo (4).

Luz da Igreja 

Na idade de 30 anos, recebeu em Antioquia a ordenação sacerdotal, sob a condição de não ficar sujeito a nenhuma diocese e continuar monge como antes.

Dirigiu-se depois a Constantinopla para ver e ouvir São Gregório Nanzianzeno, conhecido, por sua erudição, como o Teólogo. Lá permaneceu três anos, travando amizade também com os grandes luminares da Igreja no Oriente, São Basílio e seu irmão São Gregório de Nissa.

As heresias pululavam, principalmente no Oriente, e tal era a confusão que o Imperador Teodósio e o Papa São Dâmaso resolveram convocar um sínodo em Roma. São Jerônimo foi convidado a dele participar, e  escolhido para desempenhar a função de secretário, no lugar de Santo Ambrósio, que adoecera.

Terminado o sínodo, São Dâmaso conservou Jerônimo como seu secretário, dando-lhe ordem de rever o texto latino da Sagrada Escritura, comparando-o com o original hebreu. Esta tarefa  viria a dar na tradução conhecida como Vulgata (do latim “vulgare”, que significa uso comum). Foi encarregado também pelo Pontífice “de responder a todas as questões que se referissem à religião, de esclarecer as dificuldades das Igrejas particulares [dioceses], das assembléias sinodais, de prescrever àqueles que voltavam das heresias o que eles deveriam crer ou não, e de estabelecer, para isso, regras e fórmulas” (5). Na tradução que São Jerônimo empreendeu  da Bíblia, afirma Clemente VIII que ele foi assistido e inspirado pelo Espírito Santo. Tal tradução substituiu todas as outras que havia até então, tornando-se a tradução oficial da Igreja.

Enquanto viveu São Dâmaso, Jerônimo permaneceu em Roma. “Todos acorriam a ele, e cada qual procurava ganhar-lhe a vontade: uns louvavam sua santidade, outros a doutrina, outros sua doçura e trato suave e benigno, e finalmente todos tinham postos os olhos nele como em um espelho de toda virtude, de penitência, e oráculo de sabedoria”(6).

Um grupo de matronas e virgens romanas da mais alta aristocracia pôs-se sob sua direção espiritual, entre elas Santa Paula e suas filhas Paulina, Estóquia, Blesilla e Rufina; Santa Marcela, Albina, Asela, Leta e outras. Para elas fundou um convento em Roma. Converteu e atraiu também alguns varões, para os quais fundou um mosteiro.

Nessa época combateu vários hereges, como Helvídio e Joviniano.

Na terra onde nasceu o Salvador 

Em 384 faleceu  São Dâmaso, e os inimigos de São Jerônimo iniciaram uma campanha de difamação que fez com que o santo deixasse definitivamente Roma e voltasse para a Terra Santa, estabelecendo-se em Belém. Seguiram-no Santa Paula e sua filha Eudóxia. Com o rico patrimônio de que dispunham, fundaram, sob a direção do Santo, um mosteiro masculino e um feminino, este dirigido por Santa Paula.

Os 34 anos em que São Jerônimo viveu em Belém, passou-os escrevendo obras notáveis, combatendo os hereges, e dirigindo, por correspondência, inúmeras almas.

Por um mal-entendido, houve um princípio de polêmica entre os dois grandes Doutores da Igreja, Santo Agostinho e São Jerônimo. Mas, estabelecidas as coisas em seu lugar, uma amizade cheia de respeito os uniu. São Jerônimo dizia que Santo Agostinho era “seu filho em idade, e seu pai em dignidade”, uma vez que era Bispo. Por seu lado, o Bispo de Hipona escreveu-lhe: “Li dois escritos vossos que me caíram nas mãos, e achei-os tão ricos e plenos que não quereria, para aproveitar em meus estudos, senão poder estar sempre a vosso lado” (7).

Baluarte da Cristandade perseguida 

Entretanto, os bárbaros começaram suas grandes invasões. Em 395, os ferozes hunos, vindo pela Armênia, espalharam o terror no Oriente, chegando até o Egito. Em 410, Alarico, rei dos godos, destruiu várias cidades da Grécia e  pilhou Roma. Muitas famílias fugiram para a Terra Santa e foram socorridas por Jerônimo e Paula. “Belém, escreve o primeiro, vê todos os dias mendigar em suas portas os mais ilustres personagens de Roma. Hélas! Não podemos socorrer a todos; damo-lhes, pelos menos, nossas lágrimas, choramos juntos” (8).

Todos se espantam pelo fato de São Jerônimo, tão enfermo que tinha que ditar suas obras, pudesse produzir tanto em tão pouco tempo. Em três dias,  traduziu ele os livros de Salomão, e num só verteu para o latim o livro de Tobias que estava em caldaico. Em 15 dias ditou os comentários sobre São Mateus. Ao mesmo tempo escrevia apologias do Cristianismo contra os erros dos hereges do tempo, e refutação meticulosa de suas doutrinas.

Que doutor da Igreja há que trate as coisas sagradas com tão grande majestade, as chãs com tanta erudição, as ásperas com tanta eloqüência, as obscuras com tanta luz, que assim se sirva de todas as ciências, divinas e humanas, para explicar e pôr aos nossos olhos os mistérios de nossa santíssima religião?” (9), pergunta um autor.

O empenho insuperável de São Jerônimo na tradução das Escrituras foi por ele mesmo assim descrito: “Cumpro o meu dever, obedecendo aos preceitos de Cristo que diz: ‘Examinai as Escrituras e procurai e encontrareis’ para que não tenhais de ouvir o que foi dito aos judeus: ‘Estais enganados, porque não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus’. Se, de fato, como diz o Apóstolo Paulo, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, aquele que não conhece as Escrituras não conhece o poder de Deus nem a sua sabedoria. Ignorar as Escrituras é ignorar  Cristo” (10).

São Jerônimo faleceu no dia 30 do mês de setembro do ano 420, muito avançado em idade e virtude. No mesmo dia, aparecia a Santo Agostinho e desvendava-lhe o estado das almas bem-aventuradas no Céu.

*   *   *

1 – Dr. Eduardo María Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañía, Barcelona, 1897, tomo III, p. 640.

2 – Pe. José Leite, Santos de Cada Dia,   Editorial Apostolado da Oração, Braga, 1987, vol. III, p. 104.

3-  Id., p. 105.

4 – Pe. Ribadaneira, in La Leyenda de Oro, op. cit., p. 644.

5 – Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo XI, p. 565.

6 – Pe. Ribadaneira, op. cit.  p. 645.

7 – Edelvives, El Santo de Cada Día, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1955, tomo V,  p. 307.

8 – Les Petits Bollandistes, op. cit. p. 575.

9 – Pe. Ribadaneira, op. cit. p. 644.

10 – Pe. José Leite, op. Cit., p. 106.

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Categoria: Vida de Santos

Comentários (3)

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  1. luiza disse:

    e bem legal eu adoro historia

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