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São Lourenço de Brindisi

| 10 de novembro de 2008 | Comente!

Homem providencial que marcou sua época. Exímio cruzado, pregador, apologista, diplomata, taumaturgo e sábio, amigo de Papas, do Imperador e de Príncipes, foi venerado ainda em vida pelo povo como Santo.

Júlio César –  nome de batismo do Santo – nasceu em Brindisi a 22 de julho de 1559, filho de Guilherme Russo e Isabel Masella, casal modelarmente religioso, que desde o berço lhe incutiu o temor e o amor de Deus.

Aos oito anos de idade perdeu o pai; pouco depois foi admitido na escola dos meninos oblatos, espécie de pequeno seminário dos frades franciscanos, onde sua inteligência invulgar, fidelíssima memória e aplicação ao estudo o fizeram notar por parte de mestres e condiscípulos.

Adolescente, foi morar com o tio paterno, Padre Rossi, em Veneza. Este dirigia uma escola privada para alunos que seguiam o curso na Universidade de São Marcos e logo descobriu no sobrinho o tesouro que lhe fora confiado. Não hesitou em incentivá-lo na via da santificação e no desejo de abraçar a vida religiosa.

Assim, Júlio César entrou para a Ordem dos Capuchinhos, em Veneza, tomando em religião o nome Lourenço, com o qual tornar-se-ia célebre.

Entregou-se ao estudo das línguas latina, hebraica e grega, além de aprofundar-se em História, Filosofia e Teologia. Sua memória era tão prodigiosa, que aprendeu a Bíblia de cor, confidenciando mesmo a um condiscípulo que, se por desgraça essa obra sagrada viesse a desaparecer, ele seria capaz de reconstituí-la.

Frei Lourenço foi incumbido de pregar mesmo antes de sua ordenação, obtendo muitas conversões, tanto nesse período quanto depois de tornar-se sacerdote.

Tendo o eco do sucesso de Frei Lourenço chegado aos ouvidos do Papa Clemente VIII,  incumbiu-o este das pregações aos judeus de Roma. Além de grande teólogo, familiarizado com as Sagradas Escrituras, Frei Lourenço tinha a vantagem de falar correntemente o hebreu. Cumpriu sua missão com êxito extraordinário, o que levou alguns judeus influentes, com considerável número de seus correligionários, a solicitar serem instruídos na verdadeira Religião.

Aos 30 anos, Frei Lourenço foi eleito Guardião (Superior do Convento) de Bassano del Grappa. Três anos após, Vigário Provincial da Toscana e depois de Veneza. Em 1596 elegeram-no Definidor Geral da Ordem, um dos mais elevados cargos. Mais tarde, tornou-se Guardião de Veneza e Provincial da Suíça.

Bastião da Cristandade perseguida

Do Tirol e do Império Austro-Húngaro apelaram aos Capuchinhos  para socorrer a fé ameaçada. Frei Lourenço foi escolhido para chefiar um grupo de 11 confrades e fundar Mosteiros em Praga e Viena.

O problema era delicado por causa da pusilanimidade e superstição do Imperador Rodolfo e da influência que exerciam vários de seus auxiliares protestantes — inclusive o famoso astrônomo Tyco-Brahe — os quais envenenavam as relações do monarca com os missionários. Foi necessário o apoio de influentes nobres católicos para a revogação de uma sentença de expulsão dos religiosos.

O intrépido missionário pôs-se então a pregar, “refutando com coragem e impetuosidade implacável” (*) os hereges. Começou a participar de reuniões, promovidas por damas da aristocracia, entre católicos e protestantes, para debater problemas religiosos; seus conhecimentos de Teologia e da Sagrada Escritura propiciavam-lhe sempre superioridade nas discussões.

Foi-lhe assim possível fundar três conventos no Império: em Praga, Viena e Gratz, cidade então governada pelo Arquiduque Ferdinando, futuro Imperador, que na época contava 21 anos.

Exímio cruzado, diplomata e mediador 

 Quando os turcos invadiram a Hungria e rumaram para Viena, dois capuchinhos foram solicitados para capelães das tropas imperiais. Frei Lourenço decidiu ser um deles.

No campo de combate de Alba Real, o Santo era visto em toda parte confessando e animando os soldados. No ardor da batalha, munido de um Crucifixo, foi adiante das tropas gritando: “Avancemos, avancemos!” Por mais que os inimigos se empenhassem em derrubá-lo, foi-lhes impossível. Uma como que mão invisível desviava de tal maneira todos os golpes assestados contra o capuchinho, que os soldados refugiavam-se atrás dele como da mais protetora muralha… Apesar da inferioridade de armas, os filhos da Cruz desbarataram as tropas de Mafoma, infligindo-lhes pesada derrota.

Cena semelhante repetiu-se quando Frei Lourenço exerceu missão diplomática na Espanha, propondo a Felipe III, da parte do Papa Paulo V,   nova investida contra os mouros daquele país. Estes, reorganizando-se, já constituíam uma força ameaçadora. Sob o comando de Dom Pedro de Toledo,  um reduzido número de cristãos, inflamados pelo zelo do santo capuchinho, expulsou então os mouros de suas melhores posições, apoderando-se de seus bastiões.

São Lourenço de Brindisi exerceu também papel-chave na formação de uma Liga Católica, idealizada pelo Duque Maximiliano da Baviera,  a fim de opor-se à Liga Protestante.

Visitando os Príncipes católicos e obtendo sua adesão – sobretudo a do Rei da Espanha, então a mais poderosa nação católica da Europa – tornou ele realidade esse plano.

Com sua habilidade diplomática, apoiada sobretudo em sua fama de santidade, Frei Lourenço, a pedido do Papa, conseguiu várias vezes evitar guerras fratricidas entre os Príncipes católicos, tendo reconciliado também o Arquiduque Matias com seu irmão, o Imperador Rodolfo, pois o primeiro ameaçava abrir uma cisão no Império e iniciar um conflito. Do mesmo modo, conseguiu fazer cessar uma guerra entre o Rei Felipe III da Espanha e o Duque da Sabóia, bem como outra entre o Duque de Parma e o de Mântua.

Colocando a Fé católica acima de tudo, São Lourenço de Brindisi sempre foi um paladino contra os inimigos da Igreja e um arauto da paz entre os príncipes católicos.

Polemista extraordinário e taumaturgo

Frei Lourenço polemizou com o pastor luterano Policarpo Leyser, que escrevera contra ele e os jesuítas um panfleto cheio de injúrias, no qual os desafia a refutá-lo por escrito.

Nessa polêmica, julgou melhor atacar diretamente Lutero, cabeça da heresia, do que aquele Pastor, um de seus inexpressivos membros. Com seu profundo conhecimento da Escritura em seus originais grego e hebreu redigiu uma refutação “das mais originais e das mais geniais jamais concebidas”. Isto é, um manual de “consulta rápida e de linhas-mestras claras e precisas”, no qual vê-se a “habilidade e competência impressionantes do autor no emprego dos textos originais da Santa Escritura sobre os quais os protestantes pretendiam apoiar-se”, partindo assim “para um ataque formidável contra Lutero”. Para a redação desse manual, o Santo  “compulsa pessoal e escrupulosamente as próprias obras do heresiarca”.

Suas atividades eram quase sempre apoiadas por estupendos milagres, narrados por seu primeiro biógrafo e contemporâneo, Frei Lourenço d’Aosta: cegos viam, paralíticos andavam, mudos agradeciam em alta voz. Em cada vilarejo que entrava, era recebido com uma verdadeira apoteose. Feliz época aquela, em que a virtude era popular!

Frei Lourenço ligou-se de santa amizade com o Duque da Baviera, Maximiliano, em quem via um grande zelo pela Religião. A pedido deste, obteve a cura da Duquesa, que sofria de histeria e esterilidade.

Vigário-Geral da Ordem

 Em 1602, os padres capitulares elegeram Frei Lourenço para Vigário- Geral da Ordem. Ao mesmo tempo, confiaram-lhe o cuidado de visitar as províncias transalpinas da mesma.

Viajando a pé, às vezes percorrendo até 40 milhas por dia, tanto durante o tórrido verão quanto o frígido inverno, ou enfrentando chuvas torrenciais, visitou ele, em um ano, as Províncias da França, Países Baixos e Espanha.

Nessas visitas, algumas vezes Frei Lourenço ia à cozinha lavar a louça utilizada por seus confrades. Mas esse ato de humildade não o impedia de utilizar a energia, quando necessário. Assim, num convento que dispunha de muitas comodidades, ao lado de uma igreja mal cuidada, chamou a atenção do Guardião: “Deus antes, vós depois” disse-lhe. “Não tendes vergonha de estar todos em um convento aquecido e de mesa bem guarnecida ao lado de uma capela ameaçada de ruína, com a chuva inundando o santuário?”

Seu zelo pelo cumprimento das regras pode ser avaliado pelas Ordenações que deixou em diferentes lugares e os apelos contínuos, insistentes e enérgicos em prol da austeridade tradicional da Ordem, especialmente da mais estrita pobreza.

Os dois grandes amores de São Lourenço: a Virgem Maria e a Sagrada Eucaristia

A devoção que Frei Lourenço votava à Virgem Maria representa algo de inexprimível. Era uma devoção “impregnada de reconhecimento. Ninguém mais que ele foi tão convencido de tudo ter recebido de Maria e por intermédio de Maria”. Entre outras graças insignes que o Santo Lhe atribui está a de nunca ter sido sujeito às tentações de sensualidade.

Do púlpito, dizia: “Todo dom, toda graça, todo benefício que temos e que recebemos continuamente, nós os recebemos por Maria. Se Maria não existisse, nós não existiríamos e não haveria o mundo”. “Deus queira –insistia ele – que todos, todos, todos, e desde a infância, aprendessem bem depressa essa verdade: aquele que se confia a Maria, que se entrega a Maria, não será jamais abandonado, nem neste mundo nem no outro”.

Ele transcreveu, numa obra intitulada Mariale, os sentimentos de seu coração: “É uma mobilização de toda a Escritura para defesa e exaltação da Mãe de Deus”. “É o que se escreveu de melhor e de mais completo sobre a Virgem Mãe de Deus”.

A outra grande devoção de São Lourenço de Brindisi foi à Sagrada Eucaristia. Ela se exprimia mais propriamente durante o Santo Sacrifício da Missa, que era “o centro não somente de sua vida espiritual, mas de toda sua existência”. Para poder expandir seu coração nesse sublime mistério, ele obteve do Papa as dispensas e os indultos necessários, de modo que – coisa inusitada naquela época –  podia  celebrar a qualquer hora do dia ou da noite.   O santo “prolongava a celebração [da Missa] durante seis, oito, 10 horas ou mais”. Isso se explica pelos freqüentes êxtases que o arrebatavam nas várias partes do Santo Sacrifício.

Última Missão e predição da morte

  A última missão que exerceu foi junto a Felipe III, contra o Duque de Ossuna – homem valente, mas devasso e corrompido, que oprimia seus vassalos – acobertado na Corte por seu parente, o Duque de Uceda, favorito do Rei.

Embora o soberano estimasse muito Frei Lourenço, não queria descontentar o Duque de Uceda. Em vista disso, as coisas não iam para a frente. A Santa Sé também, temendo a cólera do Duque de Ossuna, Vice-rei de Nápoles, não ousava dizer uma palavra para fazê-lo cair.

Frei Lourenço, inflamado de zelo, para provar a santidade da causa que defendia, revelou que em breve morreria e que no prazo de dois anos o Soberano espanhol e o Papa o seguiriam ante o tribunal de Deus.

Poucos dias depois, após um ataque agudo de gota seguido de febre, Frei Lourenço entregava sua alma a Deus, quando cumpria 60 anos. O Papa Paulo V seguiu-o, em  janeiro de 1621, e dois meses após, Felipe III. Três anos depois, era a vez do Duque de Ossuna, a quem Felipe IV mandara processar e prender no castelo de Almeida…

Notas

(*) – Frei Arthur de Carmignano, O.F.M. cap., Saint Laurent de Brindes, tradução francesa de Frei Flavien de Québec, O.F.M. cap., Roma, Postulation Générale des Frères Mineurs Capucins, 1959, pp. 22-23. Todos os trechos entre aspas, sem menção da fonte, foram extraídos  dessa obra.

Artigo extraído da Revista Catolicismo de Julho de 1999.

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Categoria: Vida de Santos

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