Valdis Grinsteins


![]() Anunciação de Nossa Senhora |
Justamente estava eu lendo uma série de perguntas que ele formula inicialmente, segundo seu método de tratar os temas, a respeito de Nossa Senhora. E a primeira delas chamou-me a atenção pelo modo curioso como é formulada na Parte III, questão XXX, art. 2. Resumirei assim o problema para os leitores de Catolicismo: Deus faz tudo levando em consideração a hierarquia, respeitando os direitos daquele que é mais. Ora, Maria Santíssima, por ser a Rainha dos anjos, logicamente era mais do que eles. Logo, para comunicar a Maria Santíssima que Ela seria a Mãe de Deus, não deveria ter sido enviado um anjo — portanto, um inferior, súdito da Rainha — mas deveria tê-lo feito o próprio Deus. Assim se respeitaria a hierarquia, segundo a qual são os superiores que instruem os inferiores.
Essa primeira pergunta já me deixou sem saber qual a maneira de encaminhar uma solução. Numa consideração inicial, a dúvida tem seu fundamento, conduzindo a uma conclusão muito evidente. Mas a segunda pergunta foi ainda mais incisiva, talvez mais complicada: É conveniente que se respeite a hierarquia na família, na qual Deus pôs o marido como cabeça, conforme ensina: se as esposas quiserem saber algo, perguntem-no aos maridos (cfr. I Cor., 14-35). Portanto, o anjo deveria ter feito a anunciação a São José, pois este, como esposo da Virgem, é quem deveria tê-lo comunicado a Ela. Além do mais, o próprio São José foi instruído por um anjo (cfr. Mt 1, 20-21).
Ao terminar a leitura das perguntas de Santo Tomás, pensei: agora é que as coisas ficaram complicadas! Se eu não tivesse a certeza de estar lendo o próprio Doutor Angélico, julgaria ter apanhado por engano o livro de algum malvado “teólogo” encarregado de matar a fé, servindo-se para isso das próprias evidências e da Sagrada Escritura.
O desígnio de Deus
Coroação da Virgem |
E aqui vem a parte mais interessante. Santo Tomás usava um sistema para ensinar seus alunos, que consistia em apresentar lado-a-lado dúvidas que, na realidade, consistem em objeções à tese defendida. O primeiro tipo de argumento constitui, muito bem formulado, uma dedução; e o segundo tipo, fatos ou evidências, algo que não pode ser nem deformado nem interpretado de outra maneira. Quando consideramos de um lado um fato inegável, e de outro algo que deduzimos, mas que se opõe ao fato, nossa dedução é errada sob algum ângulo, quer gostemos ou não.
Nesse caso concreto, as duas deduções que ele apresenta — mostrando que a anunciação deveria ter sido feita por Deus, ou diretamente a São José — se opõem a um fato concreto: a Sagrada Escritura diz com todas as letras que um anjo fez a anunciação a Maria. Ponto final.
Logo, por mais bela que possa parecer a argumentação em contrário, ela contém algo errado.
Confesso que tive muita curiosidade para adivinhar como seria a refutação do grande teólogo aos seus próprios argumentos, pois ambos me pareciam sólidos como uma rocha. Mas na refutação, antes de mais nada, ele mostra como foi conveniente o plano de Deus, e como Ele atuou com sabedoria infinita ao enviar um anjo a Maria. Isto por três motivos:
1. Porque há um desígnio divino geral, segundo o qual as coisas do Céu devem chegar aos homens por meio dos anjos. Eles foram os primeiros a ser instruídos sobre a Encarnação, e encarregados de instruir tanto São Zacarias, de quem viria o precursor (São João Batista), quanto Nossa Senhora sobre o plano de Deus.
2. Porque, assim como o início da decadência humana se deu por meio de um anjo, quando Eva caiu — pois um anjo decaído, um demônio, falou-lhe e a tentou —, assim também convinha que fosse através de um puro espírito, falando com uma mulher, que se desse o início da restauração humana, anunciando a vinda do Salvador.
3. Porque Maria Santíssima era virgem, e a virgindade é uma virtude angélica — associada aos anjos por fazer da vida terrena uma vida de espírito, celestial.
As regras e as exceções
Uma vez esclarecida genericamente a beleza do plano divino, passa Santo Tomás a refutar os argumentos contidos nas duas questões acima, e que parecem à primeira vista tão sólidos. Vou apresentar essa refutação resumidamente.
Sim, Nossa Senhora era Rainha dos anjos, por motivo da dignidade a que tinha sido chamada, e enquanto tal superior a eles. Mas no estado de vida mortal, enquanto ainda vivendo nesta Terra antes de ir ao Céu e ver a Deus, Ela ainda tinha que ser instruída, pois não conhecia todos os planos de Deus. Por isso mesmo, não era contrariar a ordem hierárquica o fato de Ela ser instruída por um anjo.
Quanto ao segundo argumento, resume-se assim: Santo Agostinho nos ensina, num sermão sobre a Anunciação, que Nossa Senhora esteve isenta de algumas leis gerais que se aplicam a todas as mulheres (basta pensar que foi preservada do pecado original). Ela concebeu Jesus Cristo por obra do Espírito Santo, sem intervenção do seu marido, São José. E foi desejo do próprio Deus que Ela tivesse conhecimento da conceição antes de seu marido, a quem somente depois esse fato foi revelado, em sonhos, por um anjo.
Pareceu-me interessante tratar desse tema, tão bem apresentado por Santo Tomás, pela beleza de sua complexidade. Deus é autor das regras gerais, mas Ele mesmo deseja que haja exceções. Por um lado, isso ressalta a beleza da regra; e por outro, ressalta uma majestade enquanto Deus, para dispensar da regra. Ele quer o matrimônio para a propagação da espécie; mas ao mesmo tempo, para o nascimento terreno de seu próprio Filho, desejou que isso ocorresse mediante uma virgem, por ação direta do Espírito Santo. Ele quer que na família o pai venha primeiro, depois a mãe, e em seguida os filhos; mas determinou que na Sagrada Família –– a família por excelência! –– o Filho fosse superior, por ser Deus; após vinha a Mãe, imaculada, e finalmente o pai. Mas nessa disposição não há lugar para revoltas, não há nada que tenha qualquer laivo de luta de classes. É a exceção da regra, que confirma o poder de Deus, mas sempre mantendo a beleza do plano inicial.
Nessas questões e explanações de Santo Tomás, fica claro que, como regra ou como exceção, Nossa Senhora é sempre um verdadeiro modelo para nós, digno de nossa admiração e de nosso amor.
(Artigo concedido pela revista Catolicismo, Março/2009)
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