Antecedentes do Descobrimento do Brasil

| 25 de setembro de 2008 | Comente!

As grandes navegações portuguesas e o Descobrimento do Brasil não teriam sido possíveis se não fossem precedidos por uma geração excepcional de Príncipes – a Ínclita Geração – formados segundo os princípios católicos, impulsionados por um verdadeiro espírito de Cruzada e dotados de qualidades humanas invulgares, marcando a história lusa e européia.

Este é o primeiro de uma série de artigos de nossa revista dedicados à comemoração do V Centenário do Descobrimento do Brasil. O próximo artigo abordará outros importantes antecedentes dessa Descoberta: O infante Dom Henrique, o Navegador, a Escola de Sagres e a Ordem de Cristo.

Como pôde um pequeno país, com menos de dois milhões de habitantes, realizar a epopéia dos descobrimentos por “mares nunca dantes navegados”?

Portugal foi o pioneiro dos descobrimentos empreendidos pela Europa cristã nos séculos XV e XVI, seguido pela Espanha e depois por outras Nações.

Até fins do século XIV, além da Europa cristã, o conhecimento máximo do Planeta correspondia a cerca de 1/4 de toda a Terra e encontrava-se grosso modo na posse da civilização islâmica. Ao longo do século XVI, o conhecimento do orbe terrestre aproxima-se da sua totalidade e passa a ser influenciado decisivamente pela Europa cristã.

Essa epopéia começa com a conquista de Ceuta, na África, em 1415. Depois vem a exploração das ilhas da Madeira e dos Açores, nas décadas de 20 e 30. Segue-se o reconhecimento da costa africana, em 1434, tendo sido ultrapassado o Cabo Bojador, atingindo-se o extremo sul do Continente pelo Cabo da Boa Esperança, em 1487. Logo depois foi aberta a rota das Índias, em 1497, por Vasco da Gama.

O primeiro empreendimento espanhol data de 1492, com Cristóvão Colombo, a serviço dos Reis Católicos. A expansão efetuada por outros povos europeus é bastante posterior. As primeiras iniciativas relevantes de franceses e ingleses surgem apenas nos anos 30 do século XVI.

O Rei, a Rainha e o Condestável

O reinado de D. João I foi mais importante na história da Europa do que ele poderia ter sonhado, pois foi o período que preparou Portugal para o seu grande século.”[i]

Portugal estava ainda impregnado do espírito de Fé e das santas ousadias da Cavalaria da Idade Média – época iluminada pela filosofia do Evangelho, como diz Leão XIII, e pelo aroma dos santos, conhecida como a “doce primavera da Fé”. Era uma nação privilegiada, ainda pouco contaminada pela decadência trazida pela Renascença. Esta \gerou um novo “tipo humano, legítimo precursor do homem ganancioso, sensual, laico e pragmático de nossos dias, da cultura e da civilização materialistas em que cada vez mais vamos imergindo”.[ii]

Para compreender o ambiente em que se formou a Ínclita Geração[iii], é preciso conhecer duas figuras que marcaram essa época: a Rainha Da. Filipa de Lancaster e o Bem-aventurado D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável.

No dia 2 de fevereiro de 1387, o Rei D. João I, Mestre de Avis, desposou Da. Filipa, filha do duque inglês D. João de Lancaster. Senhora bondosa e piedosa, recitava todas as manhãs as horas canônicas, às sextas-feiras não falava a ninguém sem antes ter recitado todo o saltério, jejuava freqüentemente e lia as Sagradas Escrituras nos tempos convenientes.[iv]

Maior influência ainda que o Rei e a Rainha exerceu Nuno Álvares Pereira, que era muito amado pelo povo. Além de vencer a batalha de Aljubarrota e diversas outras, ele influenciou toda a flor da nobreza lusitana com suas virtudes. Era um cavaleiro tão perfeito quanto se pode encontrar em livros de cavalaria. Invicto no campo de batalha, exímio nas virtudes cristãs, empregou sua fortuna na caridade e na construção de mosteiros e igrejas dedicados a Nossa Senhora, terminando seus dias como simples irmão leigo.

Com o exemplo do Rei e da Rainha nas virtudes domésticas da família católica, e com Nuno Álvares Pereira servindo de herói-modelo à mocidade do país, a vida nacional elevou-se a um nível de pureza que nunca antes conhecera.

A Ínclita Geração

Os seis filhos de D. João foram criados em uma atmosfera glorificada pela piedade mística de sua mãe, fortalecida pelo pai soldado e pelos amigos guerreiros, e tornada intelectual pela sua própria paixão pelos livros. Rica herança foi a deles. Descendiam de grandes campeões, como Afonso Henriques, o terror dos Mouros; dos dois Eduardos ingleses – I e III –; e de Afonso IV, herói do Salado. Além desses heróis, tinham por antepassados príncipes tão cultos como D. Diniz, o Rei Trovador; Afonso, o Sábio, de Castela; e João de Lancaster, patrono das letras. Não é de espantar que todos esses jovens infantes tivessem uma natural inclinação para o saber.

Quando os três filhos mais velhos – D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique – completaram a idade para serem armados cavaleiros, D. João comunicou-lhes que tinha pensado num grande projeto: realizaria uma série de torneios todos os dias de um ano, para os quais seriam convidados os campeões de todas as nações. No meio desse vistoso e magnífico aparato, com os representantes de toda a Europa assistindo, os jovens infantes seriam armados cavaleiros.

Mas eles não gostaram da idéia do torneio. Queriam ser armados cavaleiros no campo de batalha. E, por sugestão de João Afonso de Alenquer, Tesoureiro Real, pediram ao Rei, seu pai, que empreendesse a conquista de Ceuta, a mais bela cidade, a mais florescente da Mauritânia, ao norte da África.

Os futuros cavaleiros encheram-se de entusiasmo: conquistar Ceuta mourisca, o porto de refúgio de todos os piratas sarracenos que infestavam os estreitos. Isto não seria apenas um grande e útil feito de armas, mas também um feito de Cruzada!

Sim, levar a espada da Cruzada à África seria abrir um novo capítulo à história daquela Guerra Santa que a Cristandade vinha travando há 600 anos contra o islã. Até então, o papel dos Cristãos fora sobretudo defender e recuperar. A tomada de Ceuta poderia ser o ponto de partida para uma grande e nova ofensiva. Poderia atravessar o mundo, fulgurar desde a África até o Extremo Oriente, e realizar a vitória final da Cruz.

Depois de vencer o ceticismo do pai e os obstáculos financeiros, ouvido os conselhos dos teólogos e do Condestável, receber a permissão e a bênção da mãe, eles puseram-se a executar o ambicioso plano, mas sem revelar o alvo da empresa.

As funções foram divididas entre os três infantes. D. Henrique foi incumbido de alistar gente no Norte e concentrar-se na cidade do Porto. D. Pedro faria o mesmo no Sul, trazendo os conscritos para Lisboa. D. Duarte ficou com a administração das finanças e da justiça.

D. Henrique partiu então para o Porto, sua cidade natal. O povo atendeu a seu apelo com entusiasmo. Todos os distritos ferviam com os preparativos. Os caminhos estavam congestionados de carros de boi e fiadas de mulas carregadas de provisões para a esquadra. Os citadinos alimentavam-se das tripas do gado, para que todo ele, uma vez abatido, fosse salgado para o navio. Por isso foram apelidados de tripeiros, como até hoje se designam os nascidos no Porto.

A Conquista de Ceuta

“Senhor, eu vos peço por vossa mercê que me outorgueis duas coisas: a primeira, que eu seja um dos primeiros que pise em terra quando a Deus aprazar chegarmos diante da cidade de Ceuta, e a segunda é que quando a vossa escada real for posta sobre os muros da cidade, que eu vá primeiramente nela que outro algum”, pediu D. Henrique a seu pai, D. João.

D. HenriqueTerminados os preparativos, a esquadra parte de Lisboa. Depois de 15 dias, com uma semana de calmaria, ela chega diante de Ceuta.

“Meu filho, disse o Rei sorrindo a D. Henrique, bem me lembro do pedido que me fizestes… Agora é o tempo de vos responder. Vós requerestes que fosseis em companhia dos primeiros que pisassem em terra, porém, a mim não me apraz que vás como companheiro, mas como principal capitão!”.

D. Henrique beijou a mão do pai, extasiado. O momento por que suspirava e trabalhara durante três anos seria no dia seguinte! Três anos, a um mancebo de apenas vinte e um, parecem um bom pedaço da vida.

Na manhã seguinte, depois do sermão do capelão e da absolvição geral, as ameaças e o desdenho de alguns mouros na praia foram o sinal para o assalto. Saltaram tantos para o mesmo barco que ele virou imediatamente. Começaram a batalha com as armaduras molhadas.

D. Duarte entrou na luta sem esperar a autorização do pai. Ele encontrou D. Henrique combatendo fortemente na praia. Empurremos os mouros até a porta – disse –, pois poderá ser que entremos junto com eles ou, ao menos, forçaremos tanto que não possam fechá-la.

Depois que os portugueses derrubaram o gigante negro, um verdadeiro Golias, os mouros debandaram todos. D. Henrique, seguido de quinhentos homens, precipitou-se na cidade. A luta  estendeu-se por quase todo o dia. O sol ia já em declínio, e a luta nas ruas quase cessara. Os mouros tinham fugido da cidade, abandonando seus mortos.

No domingo de manhã, a mesquita foi purificada com sal e água, tendo sido cantado um solene Te Deum. Depois de terminada a Santa Missa, D. João armou os filhos cavaleiros – três guerreiros jovens e altos revestidos de reluzentes armaduras, cingindo cada um, orgulhosamente, a espada que sua mãe abençoara.

Eles não podiam imaginar que a conquista de Ceuta viria a ser um marco na história da Europa e da Cristandade.

Tal conquista  foi a prova de fogo,  mediante a qual a  Ínclita Geraçãodemonstrou seu exímio valor guerreiro. Valor que se manifestaria depois através de outros feitos épicos, como as grandes navegações e descobrimentos, inclusive o de nosso Pátria, em abril de 1500.


[i]  Elaine Sanceau, D. Henrique, o Navegador, Editora Livraria Civilização, Porto, 1988, p.18

[ii] Plínio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Diário das Leis  Ltda, SP, 2a. ed., 1982, p. 19.

[iii] Assim denominada por Camões, a geração ilustre dos seis filhos de D. João I e Da. Filipa de Lancaster.

[iv] Fernão Lopes, Crônica de D. João I – Parte II, cap. XCVII, op. citado, p. 11.

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Categoria: Brasil 500 anos

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