Psicose Ambientalista
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Cerimônia que exprime um grande ideal

| 15 de fevereiro de 2013 | Comente!
Gregório Vivanco Lopes

Neste ambiente hostil a celebrações grandiosas, constitui um bálsamo para nossos contemporâneos a bela descrição do estupendo cerimonial que cercou a partida de Vasco da Gama para sua epopeia marítima.

Vasco da Gama parte para a Índia

Vasco da Gama parte para a Índia

Igualitário e sensual, o mundo moderno oprime e vergasta toda aspiração para o que é moralmente elevado e sublime, embora não consiga aniquilá-la. Prova recente foi o entusiasmo ocorrido no mundo inteiro a propósito do cerimonial do casamento do Príncipe William da Inglaterra.

O leitor encontrará abaixo, resumidamente, a descrição de outro cerimonial, acontecido no final do século XV. Trata-se da partida de Vasco da Gama para descobrir o caminho das Índias (anteriormente, Bartolomeu Dias havia dobrado o Cabo da Boa Esperança, mas não fora adiante). Extraída do livro Por Mares Nunca Dantes Navegados, de Ronald J. Watkins, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 2004.

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“Foi escolhido para a partida o sábado, 8 de julho de 1497. Em 7 de julho, o Rei D. Manuel recebeu Vasco da Gama, capitão-mor da frota de quatro navios, e seus capitães em cerimônia solene. Reunidos em torno do soberano estavam os mais importantes nobres e outros personagens da corte, incluindo os mais elevados membros do clero, todos adornados com os melhores trajes e atavios cerimoniais. A multidão, dentro e do lado de fora, também estava engalanada, formando uma exuberante colcha de retalhos de vestuário.

Vasco da Gama e seu irmão mais velho, Paulo, o dedicado amigo deles, Nicolau Coelho, e outros altos oficiais da expedição, todos envergavam sua mais vistosa armadura. Capacetes, peitorais e os punhos elaborados de suas espadas foram polidos até ganhar um lustro muito brilhante. Um por um foram levados à frente, apresentados ao rei e à corte, e ficaram em posição de sentido.

Em seu discurso, D. Manuel ressaltou que o propósito dessa busca [das Índias] era difundir a palavra de Jesus Cristo e com isso obter sua recompensa no Céu, e em acréscimo adquirir reinos e novos Estados com muitas riquezas.

Com isso, Vasco da Gama ajoelhou-se e, no silêncio solene que se seguiu, beijou a mão do soberano em agradecimento pela grande honra que lhe fora concedida. O estandarte de seda da Ordem de Cristo foi apresentado por um oficial. Vasco da Gama pôs as mãos sobre ele e fez seu juramento de lealdade, em voz alta e clara, para que todos ouvissem.

‘Juro pelo símbolo desta Cruz, sobre o qual pouso minhas mãos, que no serviço de Deus e por Vós a defenderei e não capitularei à visão do mouro, pagão ou qualquer raça de gente que possa encontrar e, diante de qualquer perigo de água, fogo, ou espada, juro sempre defendê-la e protegê-la, até a própria morte’.

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Vasco da Gama

Vasco da Gama

Em procissão, acompanhados pelo próprio rei, Vasco da Gama a cavalo e seus homens seguiram solenes para o porto, que ficava próximo. A grande multidão recebeu os homens com vivas e lágrimas. Os homens subiram a bordo dos navios ao rufar contínuo dos tambores e ao toque festivo de trompetes. Cada nave estava adornada com flâmulas coloridas e penachos esvoaçantes.

Ao longo da margem do Tejo estava reunida uma multidão acenando alegre para os navios que dispararam os canhões em resposta e tocaram as trombetas em fanfarra. As naves passaram em fila diante da multidão empolgada, para a curta viagem até Belém, onde lançaram âncora. Lá, há uma longa geração, o príncipe Henrique, o Navegador, construíra uma capela nacionalmente venerada, dedicada a todos os que seguiam para o mar. Uma ordem de freiras mantinha um hospital próximo, onde cuidavam de marinheiros trazidos doentes ou agonizantes de navios que acabavam de chegar de viagens longínquas.

Vasco da Gama, seu irmão, Paulo, e Coelho, ainda ataviados em suas armaduras, foram para a praia e passaram pelo meio da multidão que os esperava, engrossada pelas inúmeras pessoas que haviam seguido os navios, a cavalo e em carruagem. Outros, viajando a pé, continuaram chegando durante o decorrer da noite.

Era costume dos marinheiros portugueses que partiam, rezar para Santa Maria de Belém. Dentro da pequena capela, os três capitães principais assumiram seus lugares, acompanhados de outros, e passaram a longa noite ajoelhados, junto a sacerdotes do mosteiro vizinho. Os homens se confessaram e cumpriram suas devoções.

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Ao nascer do sol no sábado, 8 de julho, D. Manuel chegou à capela, e os três capitães foram encontrar seu soberano do lado de fora. Ali Vasco da Gama se comoveu até as lágrimas, que prontamente enxugou. Ele então voltou para acompanhar o rei até a capela para a Missa final. Dobraram os sinos da capela e do mosteiro próximo, anunciando à multidão que chegara o momento havia tanto esperado.

Do lado de fora, os oficiais e dignitários reuniram-se para a curta procissão até a margem. O reitor da capela ia à frente, seguido pelos padres e monges, as cabeças baixas e as mãos cruzadas à frente do corpo, caminhando a passos medidos, entoando um cântico em uníssono. Em seguida iam os acólitos, sacudindo incensórios ornamentados, soltando uma pungente fumaça azul que rodopiava por suas batinas e seguia flutuando para a multidão. Depois os portadores de cruzes e outros sacerdotes.

Vasco da Gama, segurando um círio aceso, o capacete e o peitoral reluzindo ao brilhante sol de verão, seguia devagar, não olhando nem para a esquerda, nem para a direita, a cabeça erguida. Atrás dele estavam os oficiais e os homens de sua frota em fileiras de dois, cada qual portando uma vela acesa.

Na praia o reitor fez uma pausa e ajoelhou-se, e todos se ajoelharam onde estavam. A multidão ficou em silêncio. O padre, de acordo com a bula papal obtida muito tempo antes pelo príncipe Henrique, e aplicável a todos que morressem na conquista ou descobrimento de terras distantes, concedeu a absolvição plenária aos homens da expedição que viessem a perder a vida.

Todos se ergueram e, com deliberação, Vasco da Gama deu ordem para que as tripulações subissem a bordo dos navios à espera. Houve um momento final para um abraço, um aperto de mão, uma troca de olhares.

Perto da praia, o jovem rei dirigiu-se à tripulação, em conjunto e individualmente, dando-lhes sua bênção e seus bons votos, e então despediu-se quando eles tomaram os botes que os esperavam.

Ao ritmo de um antiquíssimo cântico marítimo, os marinheiros ergueram âncora do fundo lamacento do rio. As novas velas brancas, imensas, adornadas com a enorme Cruz escarlate da Ordem de Cristo, foram estendidas e enfunaram-se com a brisa. Os navios partiram, lentos a princípio e depois mais velozes em direção ao mar aberto. O próprio rei tomou um pequeno barco, para acompanhar os navios até onde fosse possível, gritando-lhes repetidas vezes suas bênçãos e votos de felicidades.

No convés, os marinheiros se amontoavam contra as muradas ou se penduravam no cordame, cada homem tentando uma última visão dos entes queridos, que acenavam com mantilhas de cores vivas ou com as mãos nuas e lançavam um último adeus.

O estandarte real foi novamente erguido no navio, ao clamor de uma fanfarra de trompetes. Os tambores rufavam em um rufo marcial constante, acompanhados por flautas, flautins e tamborins. Numerosas pequenas embarcações seguiam o rastro dos navios, indo até onde fosse possível. Todos os olhos estavam fixos nos navios, até que eles sumiram de vista, mas nenhum mais firme que os de D. Manuel, que de seu barco observava a frota que partia, como que hipnotizado, sem se mover, até nada mais restar para ver além do vasto oceano azul diante dele, estendendo-se através do mundo, até a Índia.”

 

Fonte: Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

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Categoria: História

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