Música Colonial Brasileira

| 11 de novembro de 2008 | 1 Comentário

O renomado Maestro e compositor mineiro Carlos Alberto Pinto Fonseca, entrevistado por Catolicismo, fala sobre esse tema, inédito para muitos brasileiros.

Grande conhecedor da música colonial brasileira, e desde 1962 Regente-titular doArs Nova, Coral da Universidade Federal de Minas Gerais, conseguiu o Maestro Pinto Fonseca transformá-lo em um dos melhores conjuntos vocais da atualidade.

Diplomado como professor pela referida Universidade, e como regente pela Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, nosso entrevistado fez, entre os anos 1960-1966, cursos de regência na Alemanha, França e Itália, com eminentes mestres europeus. E, no Brasil, com o afamado Regente Eleazar de Carvalho.

Criado em 1959, o Ars Nova é o coral brasileiro que obteve mais prêmios no País e no Exterior. Realizou cerca de 22 excursões a várias nações da Europa, Ásia e América, participando de concursos internacionais, onde sempre obteve as melhores classificações, tais como: os primeiros prêmios na Espanha e na Suíça em 1985, o terceiro prêmio na Alemanha em 1991, o primeiro prêmio na categoria folclore em Arezzo (Itália), em 1994, o primeiro prêmio e o Grand Prix em Atenas, em 1998. Participou ainda de vários festivais não competitivos nos Estados Unidos (1975), nas Filipinas (1979), na Grécia (1981), na Áustria (1987) e na Coréia do Sul (em 1988, por ocasião dos Jogos Olímpicos de Seul).

O trabalho executado pelo Maestro Carlos Alberto Pinto Fonseca e as apresentações do Ars Nova são particularmente meritórios, pois difundem no Brasil e no Exterior verdadeiras obras-primas de autêntica arte musical, até há pouco desconhecidas ou desprezadas pelo falso Brasil do rock e outros ruídos do gênero; falso porque perdeu a sua identidade e atrelou-se aos mitos revolucionários contemporâneos mais desvairados; um Brasil postiço e mimetista, ávido em sorver as últimas modas, mas que, devido ao atraso em sua implantação aqui, elas chegam freqüentemente como as penúltimas novidades…

O Coral Ars Nova da Universidade Federal de Minas Gerais

Brasil real, o Brasil brasileiro, fiel a suas raízes e tradições católicas, intencionalmente esquecido por certa mídia, precisa não raro ser exumado por alguns especialistas ou pessoas desassombradas, para aparecer à luz do sol. Foi o que fez, por exemplo, no plano artístico, com admirável empenho e pertinácia, o musicólogo alemão, naturalizado uruguaio, Francisco Curt Lange, a partir da década de 40, redescobrindo a música erudita do período colonial, especialmente na Capitania Geral das Minas Gerais.

Para ilustrar a afirmação acima, transcrevemos no quadro da p. 31, trecho de um artigo desse benemérito musicólogo — Um fabuloso redes­cobrimento —, bastante sintomático, publicado na Revista de História da Universidade de São Paulo, em 1976.

Catolicismo  O musicólogo alemão Francisco Curt Lange afirma que o mais grave erro do século passado e de boa parte do atual, em matéria de música brasileira, consistiu em crer que os meios culturais da América, especialmente nos séculos XVII e XVIII, eram carentes de informação do que se realizava nas respectivas metrópoles. O Sr. concorda com essa apreciação?

Carlos Alberto Pinto Fonseca — Concordo. As caravelas traziam partituras do que se compunha na Europa nesse período, especialmente no século XVIII.

Catolicismo  Que valor atribuir ao Pe. Caetano Melo de Jesus, Mestre de Capela da Catedral da Bahia, no século XVIII, autor da obra Escola de Canto de Órgão. Música Praticada em Forma de Diálogo entre Discípulo e Mestre?

Fonseca — Conheço a obra e a considero de valor didático e verdadeira escola.

Catolicismo  Em sua Pequena História da Música, Mário de Andrade considera o Pe. José Maurício Nunes Garcia o primeiro nome ilustre da música nacional. E praticamente ignora compositores importantes de vários Estados brasileiros, como Pernambuco, Bahia, e, especialmente, Minas Gerais, que se distinguiram por uma rica criação musical de estilo barroco, predominantemente rococó, comparável à dos mestres europeus da época. Como explicar tal ignorância e mesmo menosprezo por essa fase da música colonial brasileira?

Fonseca — Falta de informação. Curt Lange foi quem “redescobriu” o filão da música colonial. Nomes como Lobo de Mesquita, Manoel Dias de Oliveira, Francisco Gomes da Rocha e Marcos Coelho Neto — mesmo João de Deus de Castro Lobo — eram então totalmente desconhecidos, assim como Álvares Pinto, de Pernambuco.

Catolicismo  Bruno Kiefer, em sua História da Música brasileira, considera como músicos e compositores de maior destaque em Pernambuco o Pe. Inácio Ribeiro Nóia (séc. XVII) e Luís Álvares Pinto (séc. XVIII). Qual a importância deles na história da música colonial do Brasil?

Fonseca — Nóia não conheço. Álvares Pinto é um grande compositor.

Catolicismo  Para explicar o aparecimento de músicos de elevado padrão na Capitania Geral de Minas Gerais, especialmente no século XVIII, Francisco Curt Lange afasta a hipótese de terem eles vindo de Portugal, ou de centros mais adiantados do Brasil, como Bahia e Pernambuco. E defende a tese de que tal florescimento se deve ao grande número de músicos profissionais livres, em geral mulatos, que se formavam, desde meninos, na Casa do Mestre de Música ou Conservatório, onde residiam e recebiam meios de subsistência, bem como instrução musical. O que pensar a respeito desse parecer?

Fonseca — Válido. Curt Lange fez profunda pesquisa de campo: vasculhou arquivos de irmandades, igrejas, arquivos públicos, fez verdadeiro levantamento sobre a época, analisou recibos de contratação de músicos, encomenda de obras para ocasiões festivas, eventos etc.

Catolicismo — Qual a importância do músico português André da Silva Gomes, que se radicou em São Paulo de 1774 a 1823? O Sr. acha que o Kyrie e o Glória de sua afamada Missa revelam um estilo de transição do barroco para o rococó, podendo ser equiparados às melhores criações do Pe. José Maurício, seu contemporâneo?

Fonseca — É muito bom, mas não gosto de comparações. Cada um tem seu valor. Mas o Pe. José Maurício é o maior compositor brasileiro do período.

Catolicismo  José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, cuja vida transcorreu entre o Arraial do Tejuco, atual Diamantina, e Vila Rica, terá sido o maior dos compositores mineiros do século XVIII? É admissível a tese de Curt Lange de que sua obra pode figurar condignamente ao lado da dos grandes compositores europeus? Sua Missa em Mi Bemol pode ser considerada a composição mais perfeita do repertório que nos legou?

Fonseca — A Missa em Mi Bemol, a Grande Missa é maravilhosa, porém o Magnificat de Manuel Dias de Oliveira pode ser comparado à obra de qualquer compositor contemporâneo europeu de “primeira água”!

Catolicismo  E que juízo deve ser feito sobre os outros dois maiores compositores mineiros do século XVIII: Marcos Coelho Neto, autor do hino Maria Mater Gratiae, e Francisco Gomes da Rocha, do qual nos chegou apenas a bela Novena de Nossa Senhora do Pilar?

Fonseca — Também são muito bons. Já apresentei com o Ars Novaessas obras: são verdadeiras jóias do colonial brasileiro.

Catolicismo  Tem fundamento a tese de Bruno Kiefer, de que as obras dos compositores mineiros do século XVIII pertencem ao Rococó-Classicismo, e não ao Barroco? E que alguns vestígios do estilo barroco na música desses compositores não alteram essa classificação mais precisa de seu estilo musical?

Fonseca — Concordo em parte com a tese; são mais pré-clássicas, sem os maneirismos que caracterizam o rococó europeu; barroco, não!

Catolicismo  Qual o papel do Pe. José Maurício na história da música no Brasil? Pode-se considerar, como afirma Mário de Andrade, sua Missa de Réquiem como “a obra-prima da música religiosa brasileira”? E que, como assevera Bruno Kiefer, apesar de sua indiscutível musicalidade, “Lobo de Mesquita não atinge a altura do Pe. José Maurício”?

Fonseca — O Pe. José Maurício é o maior compositor de seu período. Conheceu a obra de Mozart, foi o regente do Réquiem de Mozart na primeira versão brasileira. Lobo de Mesquita é anterior, cronologicamente. Foi também um grande compositor. — Para que compará-los? — Pode-se comparar Bach e Mozart? — Mozart e Beethoven? Poderíamos dizer, de ambos, que Lobo Mesquita foi o Haydn e o Pe. José Maurício o Beethoven da música religiosa no Brasil, apesar de não chegarem à altura dos dois gênios europeus.

“fabuloso redescobrimento”
de um musicólogo alemão

“Hoje, a musicologia universal considera que a existência de uma intensíssima atividade musical na Capitania Geral das Minas Gerais e a presença de compositores de não imaginado vulto — movimento que se achava exclusivamente em mãos de mulatos — representa o maior descobrimento feito nos últimos 180 anos, suscitando ao mesmo tempo motivo bastante para aprofundar a formação sociológica neste Estado, meltingpot [cadinho para fusão] violento de diversas raças. Apesar do reconhecimento no Exterior dos valores mineiros, no Brasil estamos ainda longe de compreender, no seu verdadeiro alcance, esta afirmação, para a qual tenho contribuído, proferindo, por cima, mais de 2000 conferências e dando cursos de extensão em Universidades, Academias, Conservatórios, rádio-emissoras e outras instituições, dedicando-me à gênese da música mineira, em 23 países europeus e em quase todo o hemisfério americano. Organizei concertos das obras restauradas para conjuntos de notória importância que tiveram em muitos casos uma repercussão apoteótica, e para cantores, instrumentistas, coros e regentes, as mais elevadas satisfações, culminando sempre num verdadeiro deslumbramento com as obras dos egrégios mulatos”.

(Excerto do artigo Um fabuloso redescobrimento — Para justificação da existência de música erudita no período colonial brasileiro, Francisco Curt Lange, Presidente do Instituto Interamericano de Musicologia, Montevidéu, Revista de História da Universidade de São Paulo, ano XXVII, Volume LIV, 1976, pp. 45 a 67).

Artigo oferecido pela Revista Catolicismo.

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Categoria: Notícias Silenciadas

Comentários (1)

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  1. Gildemar Leal Resano disse:

    Muito interessante o tema

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